✧ Ophiussa: A Terra das Serpentes
“Ophiussam appellabant: nam perhibent incolis eius gentem quandam esse, quae a serpentibus originem ducat.”
(Ora Maritima, Avieno, séc. IV)
“Chamavam-na Ophiussa: pois dizem que os seus habitantes descendem de um povo que tem origem nas serpentes.”
Há nomes que guardam portais.
Ophiussa é um deles.
Na Ora Marítima, poema latino do século IV, o poeta Avieno descreve um mundo arcaico, anterior à colonização romana, onde povos misteriosos habitavam as margens atlânticas da Península Ibérica. Entre eles, os Ofis — nome que em grego significa serpente. Segundo Avieno, estes povos ter-se-iam estabelecido no litoral ocidental da Ibéria, num território que passou a ser conhecido como Ophiussa: a Terra das Serpentes.
Mas o que significa isto?
Estaríamos perante um povo literal, que venerava serpentes, ou o nome esconde algo mais profundo?
Em todas as culturas antigas, a serpente surge como um arquetipo ambíguo e poderoso. Move-se entre mundos: desce à terra, desaparece no subsolo, renasce ciclicamente, renova a pele, vigia fontes e nascentes, contorce-se como os rios e os caminhos. Na Ibéria ancestral, a sua presença simbólica é marcada em pedras votivas, espadas, fíbulas e cerâmicas decoradas. É possível que estivesse ligada a cultos à fertilidade da terra, ao feminino primordial, ou a deuses ctónicos que regiam a vida invisível.
No Norte de Portugal e na Galiza, os santuários em promontórios, os castros elevados e as fontes encantadas preservam ainda hoje este imaginário — por vezes camuflado sob nomes cristãos, outras vezes em lendas de mouras, serpentes aladas e donzelas encantadas. O que a arqueologia não consegue provar com precisão, a tradição oral nunca deixou de contar.
Ao evocar o nome Ophiussa, este guia propõe mais do que um percurso físico.
Propõe uma travessia simbólica por um território que, em tempos, foi habitado por uma visão mítica da natureza. Um lugar onde o sagrado e o natural se fundiam.
Aqui, tudo começa com uma lenda.
Com a imagem de uma terra habitada outrora por serpentes — ou por povos que, como esta, sabiam reinventar-se, atentos às pulsações da terra, aos ciclos da natureza, ao invisível que habita em nós e em tudo o que nos rodeia.
A tua viagem começa neste limiar:
Entre o real e o mítico,
Entre o agora e o que nunca deixou de ser.
Bem-vindo à Terra das Serpentes.
Bem-vindo à Ophiussa.
✧ Lenda de Ophiussa: A Terra das Serpentes
“Ophiussam appellabant: nam perhibent incolis eius gentem quandam esse, quae a serpentibus originem ducat.”
(Ora Maritima, Avieno, séc. IV)
“Chamavam-na Ophiussa: pois dizem que os seus habitantes descendem de um povo que tem origem nas serpentes.”
Este é o ponto de partida mítico do nosso guia — a origem simbólica de um território que resiste no tempo e na memória. A Ora Maritima, poema latino do século IV atribuído a Avieno, descreve a costa ocidental da Ibéria com ecos de relatos muito mais antigos, talvez fenícios, onde se fala de uma terra chamada Ophiussa — “a terra dos Ofis”, ou simplesmente, “a terra das serpentes”.
Mas estas serpentes não eram vistas como ameaças. Pelo contrário, simbolizavam sabedoria, transformação e uma ligação profunda à terra e aos ciclos da natureza. Tal como em muitas mitologias antigas, a serpente é aqui guardião de segredos, protetor de fontes sagradas e mediador entre mundos — o visível e o invisível, o humano e o divino, a superfície e o subterrâneo.
A Ophiussa de Avieno estendia-se pelas margens do Atlântico, provavelmente desde o estuário do Tejo até ao norte da Galécia. É neste espaço mítico e físico que nasce o presente roteiro.
O nome “Land of Serpents” é um reencontro com esse imaginário esquecido.
Mais do que um nome antigo, Ophiussa é uma chave simbólica para compreender o território que vais explorar — onde rios, serras, castros, ruínas e lendas revelam uma paisagem viva, arquetípica e profundamente ritual.
Tal como os antigos peregrinos seguiam estrelas e signos, este guia convida-te a caminhar com um outro olhar. A travessia por estas terras não é apenas geográfica.
É interior.
É mítica.
É simbólica.
Porque quem entra em Ophiussa, raramente sai igual.