A Serpente e a Árvore: Ophiussa como Jardim Perdido dos Mitos

Avalon, a ilha lendária das brumas, tornou-se no imaginário europeu um símbolo de paraíso esquecido, guardado por sacerdotisas e envolto em névoa.
Mas o que poucos recordam é que, nas margens ocidentais da Península Ibérica, existiu um território com igual força mítica: Ophiussa, a Terra das Serpentes.

Quando os navegadores gregos chegaram a estas costas, encontraram um povo que venerava a serpente como símbolo divino. Para eles, a serpente não era apenas um animal: era guardiã de portais, símbolo de sabedoria, arquétipo da renovação.
E assim nasceu o nome Ophiussa — um murmúrio entre lenda e geografia, que ainda ecoa nas pedras e nos rios do Minho e da Galiza.

A Serpente como Guardiã do Jardim

Na tradição grega, as Hespérides guardavam um pomar divino onde cresciam maçãs douradas, símbolos de imortalidade. Era uma paisagem de fronteira, protegida por uma serpente ou dragão, impossível de alcançar sem coragem e destino.
Na tradição hebraica, o Éden também tinha uma árvore central — e também uma serpente.
Em Avalon, a maçã surge de novo como fruto sagrado, alimento da eternidade.

Esses mitos não são cópias uns dos outros: são reflexos de uma mesma intuição ancestral. Sempre que um povo quis falar da relação entre a humanidade e o conhecimento profundo, lá estava a serpente, entrelaçada nas raízes de uma árvore ou no coração de um jardim oculto.

Ophiussa como Paraíso Esquecido

E se Ophiussa fosse um desses jardins?
Um território onde montes, rios e promontórios guardam fragmentos de uma cosmogonia perdida?
A serpente ibérica, longe de ser inimiga, era mestra. Guardava tesouros, mas também caminhos. Como as mouras encantadas que se transformam em serpente, exigia do viajante coragem e atenção — não para destruir o mito, mas para atravessá-lo.

Na paisagem do Minho e da Galiza, esse jardim ainda respira.
Nas fontes onde se contam histórias de mouras, nos castros erguidos em cumes, nos nomes antigos que sobrevivem em topónimos e tradições.
Ophiussa não desapareceu: adormeceu. Oculta, como Avalon, à espera de ser redescoberta.

Um Chamamento Contemporâneo

Hoje, quando procuramos novas formas de pertença e de identidade, o mito volta a erguer-se.
Não se trata de recriar superstições, mas de escutar o que elas simbolizam: a necessidade de ligação ao território, ao sagrado da terra, ao ciclo de vida e morte que a serpente encarna.
Ophiussa, como Avalon, não é só passado. É um espelho para o presente: um convite a reencontrar-nos com o mistério e com a lentidão, a olhar para o território como jardim vivo e não como recurso a explorar.


Talvez Avalon esteja para os povos do norte como Ophiussa para os povos da Ibéria:
um jardim esquecido, guardado por serpentes e brumas, onde a memória e o futuro se encontram.

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