A mulher que pintou para um público ainda não nascido
Nome completo: Hilma af Klint
Estatuto: figura histórica
Nascimento: 26 de Outubro de 1862, Palácio de Karlberg, Solna, Suécia
Morte: 21 de Outubro de 1944, Djursholm, Suécia
Actividade: pintora, desenhadora, investigadora espiritual e autora de arquivos visuais e textuais
Campo: Mulheres · Arquétipos · Cosmos · Arquivo
Categoria principal de apagamento: reconhecimento canónico diferido
Categorias secundárias: incompatibilidade epistemológica · desautorização do método espiritual · apagamento da rede feminina · redução à condição de médium · canonização retrospectiva
Estado espectral: a artista que deixou a obra fechada para o futuro e regressou quando o cânone encontrou linguagem para a ler
Biografia
Hilma af Klint nasceu em 1862 no Palácio de Karlberg, em Solna, nos arredores de Estocolmo.
Em 1879 frequentava a Escola Técnica de Estocolmo, estudava numa escola privada de arte e participava já em sessões espíritas. No ano seguinte morreu a irmã Hermina, com dez anos. A proximidade cronológica entre esta perda e o aprofundamento do interesse de Hilma pelo espiritualismo é frequentemente assinalada, mas não deve ser apresentada como relação causal comprovada.
Entre 1882 e 1888, Hilma estudou na Real Academia de Belas-Artes de Estocolmo. Recebeu formação académica em desenho, retrato, paisagem e pintura a partir do modelo humano. Foi distinguida pela Academia e iniciou uma carreira convencional reconhecida.
Durante décadas, expôs retratos, paisagens e estudos naturalistas. Estas obras proporcionavam-lhe rendimento e circulação profissional. Entre 1886 e 1914 participou em mais de duas dezenas de exposições, muitas delas organizadas pela Associação Sueca de Arte.
Existiam, porém, duas práticas paralelas.
Uma era pública, figurativa e compatível com as instituições artísticas do seu tempo.
A outra procurava representar forças, movimentos e estruturas que Hilma considerava invisíveis à percepção comum. Esta segunda prática desenvolveu-se através do espiritualismo, da escrita automática, da observação da natureza, da geometria, da teosofia e, posteriormente, da antroposofia.
As Cinco
Em 1896, Hilma af Klint fundou com Anna Cassel, Cornelia Cederberg, Sigrid Hedman e Mathilda Nilsson o grupo espiritualista De Fem — As Cinco.
As mulheres reuniam-se regularmente para meditar, realizar sessões espíritas e registar mensagens que atribuíam a entidades ou mestres espirituais. Produziam textos, diagramas e desenhos automáticos, muitas vezes sem autoria individual claramente assinalada.
O grupo constituiu um laboratório colectivo de criação.
Os cadernos de As Cinco contêm formas orgânicas, espirais, letras, geometrias, linhas fluidas e sistemas simbólicos que antecipam elementos centrais da obra posterior de Hilma. A linguagem visual não surgiu isoladamente no atelier de uma artista solitária. Desenvolveu-se dentro de uma rede de mulheres que experimentavam formas alternativas de conhecimento e criação.
Anna Cassel, amiga de Hilma desde a formação artística, ocupou um lugar particularmente importante nesta rede.
A posterior transformação de Hilma af Klint em génio individual da abstracção corre o risco de produzir um novo apagamento: o desaparecimento das mulheres, das práticas colectivas e das experiências que participaram na formação da sua linguagem.
A grande encomenda
Em 1906, Hilma registou ter recebido de uma entidade chamada Amaliel a missão de criar um conjunto de obras destinado a um templo.
Começou então As Pinturas para o Templo, um ciclo realizado entre 1906 e 1915, composto por 193 pinturas.
A primeira série, Caos Primordial, introduziu uma linguagem de círculos, espirais, formas ovais, letras, cores simbólicas e estruturas semelhantes a células, sementes, átomos ou organismos.
Em 1907 realizou Os Dez Maiores, pinturas monumentais dedicadas às fases da vida humana: infância, juventude, maturidade e velhice. As dimensões das telas, a intensidade cromática e a combinação de geometria, escrita e formas botânicas afastavam-se radicalmente da pintura académica que Hilma apresentava publicamente.
A obra procurava tornar perceptíveis processos invisíveis:
- a formação da matéria;
- a evolução da consciência;
- as polaridades entre masculino e feminino;
- as relações entre corpo e espírito;
- os ritmos do nascimento, crescimento e dissolução;
- a unidade subjacente a formas aparentemente opostas.
Hilma descreveu inicialmente parte do processo como trabalho realizado sob orientação espiritual. Em fases posteriores, afirmou uma intervenção artística mais consciente e autónoma na interpretação das mensagens.
A mediação espiritual não elimina a autoria. Constitui o método através do qual a artista organizou investigação, experimentação e produção visual.
Entre ciência, natureza e espiritualidade
A linguagem de Hilma af Klint formou-se num período marcado por descobertas científicas que alteravam a compreensão do mundo visível: os raios X, a radioactividade, as ondas electromagnéticas, a estrutura do átomo e o desenvolvimento da microscopia.
A sua obra não constitui ilustração científica. Partilha, contudo, uma pergunta central com a ciência moderna: que estruturas existem para além daquilo que o olho consegue observar?
Hilma aproximou:
- botânica;
- geometria;
- anatomia;
- sistemas cromáticos;
- simbolismo cristão;
- teosofia;
- antroposofia;
- escrita automática;
- observação naturalista;
- imaginação cosmológica.
Em 1917 criou a série O Átomo, onde recorreu a diagramas para representar unidades invisíveis de matéria, atribuindo-lhes também dimensões espirituais e morais.
No mesmo ano escreveu cerca de duas mil páginas reunidas sob o título Estudos sobre a Vida da Alma.
Em 1919 começou os Estudos da Natureza, observando plantas na ilha de Munsö. Associou desenhos botânicos precisos a diagramas abstractos, propriedades espirituais e aspectos do carácter humano. A flor surgia como organismo visível e como manifestação de uma estrutura interior.
Esta articulação entre natureza e pensamento coloca Hilma af Klint na fronteira entre artista, investigadora visual, mística, arquivista e criadora de sistemas.
O templo
Hilma concebeu as suas grandes séries para um espaço arquitectónico próprio.
Imaginou um templo ou museu onde as pinturas pudessem ser percorridas segundo uma ordem espiritual. Em 1931 desenvolveu projectos para um edifício em espiral, destinado à ilha de Ven, no estreito de Öresund.
O visitante subiria através das obras como quem percorre diferentes graus de consciência.
O templo nunca foi construído.
A arquitectura permaneceu em desenhos, cadernos e instruções. Décadas depois, a forma em espiral do Museu Guggenheim de Nova Iorque conferiria uma coincidência visual extraordinária à exposição retrospectiva de 2018.
A obra destinada a um templo inexistente encontrou uma das suas apresentações mais célebres dentro de outro edifício em espiral.
A obra reservada ao futuro
Hilma tentou apresentar as pinturas espirituais a públicos teosóficos e antroposóficos. Algumas obras foram mostradas em contextos restritos, incluindo uma exposição teosófica em Estocolmo, em 1913, e uma conferência antroposófica em Londres, em 1928.
As tentativas de obter uma recepção mais ampla tiveram pouco êxito.
Hilma acreditava que o seu tempo ainda não possuía as condições necessárias para compreender plenamente a obra. Em 1932, marcou vários cadernos com um X, indicando que não deveriam ser abertos antes de terem passado vinte anos sobre a sua morte.
Este gesto tem sido simplificado como uma ordem geral para ocultar toda a obra. A situação é mais complexa. Hilma procurou exposições, mostrou pinturas a interlocutores espirituais, preparou livros em miniatura para facilitar a circulação das imagens e pediu conselhos sobre o destino do arquivo.
O futuro foi uma estratégia de preservação diante de um presente que não oferecia enquadramento adequado.
Morte e arquivo
Hilma af Klint morreu em Outubro de 1944, depois de um acidente de eléctrico.
O sobrinho Erik af Klint recebeu um arquivo de enorme dimensão:
- cerca de 1300 pinturas;
- 124 cadernos;
- mais de 26 000 páginas manuscritas e dactilografadas;
- estudos, desenhos, esquemas e instruções;
- projectos para o templo;
- sistemas de símbolos e classificações;
- documentação fotográfica das obras.
O conjunto foi conservado pela família e, posteriormente, pela Fundação Hilma af Klint, criada por Erik af Klint em 1972.
Durante várias décadas, a obra permaneceu fora das grandes narrativas da arte moderna.
Em 1986, algumas pinturas foram incluídas na exposição The Spiritual in Art: Abstract Painting 1890–1985, no Los Angeles County Museum of Art. A exposição constituiu um momento decisivo na recuperação internacional da artista.
O reconhecimento cresceu gradualmente até à retrospectiva Hilma af Klint: Paintings for the Future, inaugurada no Museu Guggenheim de Nova Iorque em 2018. Tornou-se a exposição mais visitada da história da instituição até então.
A artista que considerara o público do seu tempo insuficientemente preparado encontrou, mais de setenta anos depois da morte, uma audiência de massas.
Forma de apagamento
O caso de Hilma af Klint não corresponde a um desaparecimento simples.
Foi uma artista profissional, formada, premiada e presente em exposições. A parte figurativa da sua obra possuía reconhecimento público. O apagamento incidiu sobretudo sobre a produção que hoje é considerada mais radical.
Vários mecanismos participaram nesse adiamento.
Incompatibilidade epistemológica
A história modernista privilegiou narrativas de inovação formal, autonomia artística e ruptura racional com a representação.
Hilma apresentava as pinturas como resultado de comunicação espiritual, investigação teosófica e missão cosmológica. O seu método não correspondia às categorias através das quais a abstracção foi posteriormente legitimada.
A obra tornou-se difícil de incorporar num cânone que separava arte, religião, ciência e ocultismo.
Desautorização do espiritualismo
O espiritualismo era praticado por numerosos artistas e intelectuais no final do século XIX e início do século XX. A participação feminina foi especialmente significativa, porque a mediunidade permitia às mulheres falar, escrever, ensinar e produzir imagens dentro de espaços parcialmente exteriores às instituições masculinas.
Essa mesma associação contribuiu posteriormente para a desvalorização das obras. A linguagem espiritual podia ser tratada como superstição, excentricidade ou ausência de controlo autoral.
A artista era convertida em recipiente passivo de mensagens.
Apagamento da rede feminina
A narrativa contemporânea tende a apresentar Hilma como precursora isolada da abstracção.
Esta versão reduz a importância de As Cinco, de Anna Cassel e das práticas colectivas de desenho automático que contribuíram para a formação do seu sistema visual.
A recuperação de uma mulher pode provocar o desaparecimento das mulheres que trabalharam ao seu lado.
Suspensão deliberada
Hilma participou activamente no adiamento da recepção ao reservar parte do arquivo para o futuro.
Este gesto não elimina os factores institucionais do apagamento. Demonstra que a própria artista reconheceu a ausência de condições de leitura e tentou controlar o momento posterior da revelação.
Canonização retrospectiva
A recuperação recente é frequentemente organizada em torno da afirmação de que Hilma pintou abstracção antes de Kandinsky.
A comparação corrige uma cronologia que excluía a artista, mas pode reduzir novamente a sua obra a uma competição de precedência masculina.
Hilma torna-se importante porque chegou primeiro a um lugar definido pelo cânone. O seu projecto cosmológico, os cadernos, a botânica, o templo, a rede feminina e o sistema espiritual ficam em segundo plano.
Tese da ficha
O apagamento pode ocorrer quando uma obra existe, é preservada e permanece inacessível às categorias de conhecimento disponíveis para a reconhecer.
Hilma af Klint demonstra que a exclusão canónica não depende apenas da destruição material ou da ausência de produção.
As pinturas sobreviveram.
Os cadernos sobreviveram.
As instruções sobreviveram.
Faltava um enquadramento capaz de aceitar simultaneamente:
- uma artista profissional;
- uma mulher solteira e economicamente activa;
- uma prática espiritual;
- uma rede colectiva feminina;
- uma linguagem abstracta anterior à sua consolidação canónica;
- um arquivo que reunia pintura, escrita, ciência, botânica e cosmologia;
- uma obra concebida para uma arquitectura futura.
A invisibilidade de Hilma resultou da distância entre aquilo que produziu e aquilo que as instituições estavam preparadas para reconhecer como arte moderna.
A recuperação e o segundo apagamento
A redescoberta de Hilma af Klint restituiu-lhe presença, mas introduziu novas simplificações.
A artista pode ser convertida em:
- profetisa isolada;
- primeira pintora abstracta;
- médium passiva;
- génio incompreendido;
- mulher apagada por homens;
- figura mística separada do rigor técnico;
- antecessora feminina de Kandinsky.
Cada formulação contém uma parte da história e exclui outras.
Hilma possuía formação académica exigente, construiu uma carreira profissional, organizou centenas de pinturas em séries coerentes, produziu milhares de páginas de reflexão, reviu os próprios cadernos, criou sistemas classificativos e planeou detalhadamente a apresentação futura da obra.
A mediação espiritual coexistia com disciplina, estudo, decisão estética e capacidade de arquivo.
A restituição exige preservar essa complexidade.
Marcação epistemológica
Documentado
- Hilma af Klint nasceu em 26 de Outubro de 1862.
- Estudou na Real Academia de Belas-Artes de Estocolmo.
- Recebeu formação académica e distinções.
- Expôs pintura figurativa e paisagística durante a vida.
- A pintura convencional constituiu uma fonte de rendimento.
- Participou em sessões espíritas desde jovem.
- Fundou As Cinco com Anna Cassel, Cornelia Cederberg, Sigrid Hedman e Mathilda Nilsson.
- O grupo produziu escrita e desenho automáticos.
- Hilma integrou a Sociedade Teosófica.
- Desenvolveu posteriormente uma ligação profunda à antroposofia.
- Começou As Pinturas para o Templo em 1906.
- O ciclo é composto por 193 obras.
- Criou Os Dez Maiores em 1907.
- Realizou séries dedicadas ao átomo, à evolução, ao cisne, à pomba, às religiões e à natureza.
- Planeou um templo ou museu em espiral.
- Preparou os Livros Azuis com reproduções das pinturas.
- Marcou vários cadernos para abertura apenas vinte anos depois da morte.
- Morreu em 1944 após um acidente de eléctrico.
- Erik af Klint herdou cerca de 1300 pinturas e 124 cadernos.
- A obra começou a obter reconhecimento internacional significativo a partir da exposição de 1986.
- A retrospectiva do Guggenheim de 2018 alcançou uma audiência histórica.
Provável
- Hilma reconhecia que a linguagem artística e espiritual da obra encontraria maior receptividade numa geração posterior.
- A condição de mulher dificultou a sua inserção nos círculos onde se construiu a narrativa inicial da abstracção.
- A associação ao ocultismo e ao espiritualismo contribuiu para o atraso crítico.
- A conservação do arquivo pela família foi decisiva para a sobrevivência integral do projecto.
Interpretado
- O adiamento da recepção constitui uma forma de apagamento por incompatibilidade epistemológica.
- Os cadernos funcionam como um dispositivo de transmissão para o futuro.
- O templo projectado transforma a obra num percurso de conhecimento e iniciação.
- A canonização como «primeira artista abstracta» simplifica a natureza transdisciplinar do seu trabalho.
- A centralidade contemporânea de Hilma pode apagar parcialmente as restantes mulheres de As Cinco.
- A sua prática aproxima-se de formas contemporâneas de investigação artística.
Em debate
- A possibilidade de classificar Hilma como a primeira artista abstracta ocidental.
- O grau exacto de autonomia artística que atribuía a si própria nas diferentes fases da produção.
- A influência concreta de Rudolf Steiner sobre as decisões de ocultação ou apresentação da obra.
- A extensão da participação de Anna Cassel e das restantes mulheres na formação de determinadas séries ou sistemas simbólicos.
- O modo como devem ser interpretadas as entidades espirituais mencionadas nos cadernos.
Imaginado / ficcionalizado no projecto
- Diálogos privados com as figuras espirituais.
- Pensamentos durante a execução das grandes pinturas.
- Conversas não documentadas com Anna Cassel ou Thomasine Andersson.
- A experiência interior diante da recepção tardia da obra.
- Uma visita imaginária ao templo concluído.
- A presença espectral de Hilma na exposição do Guggenheim.
- Objectos simbólicos não documentados.
Arquétipo
A cartógrafa do invisível
Hilma af Klint encarna a figura que constrói mapas para territórios ainda sem linguagem pública.
A cartógrafa não se limita a representar o mundo conhecido. Desenvolve símbolos, sequências, cores e diagramas para tornar perceptíveis relações que considera ocultas.
O seu arquivo funciona como:
- atlas;
- laboratório;
- escritura;
- sistema de correspondências;
- cosmologia visual;
- projecto arquitectónico;
- mensagem dirigida ao futuro.
Este arquétipo reúne a artista, a cientista, a mística e a arquivista numa única operação: observar aquilo que ainda não pode ser visto e construir uma forma para a sua futura leitura.
Deusa correspondente
Urania — a que lê o cosmos através da medida e da forma
A correspondência é interpretativa.
Urania, Musa da astronomia, é tradicionalmente representada com um globo celeste e instrumentos de medição. O seu domínio cruza céu, geometria, ritmo e conhecimento.
Na Galeria, Urania corresponde a Hilma porque ambas transformam o cosmos em sistema legível.
A afinidade manifesta-se através de:
- círculos e órbitas;
- diagramas;
- polaridades;
- escalas cósmicas;
- geometrias espirituais;
- movimentos de ascensão;
- procura de uma ordem invisível;
- articulação entre observação e revelação.
Ressonância secundária: Sophia, figura da sabedoria divina.
Sophia aproxima-se da ambição de reunir conhecimento espiritual, matéria e consciência dentro de uma linguagem unificada.
Artefactos reais
As Pinturas para o Templo
Ciclo de 193 obras realizado entre 1906 e 1915.
É o principal corpo artístico de Hilma af Klint e foi concebido como percurso espiritual organizado em grupos e séries.
Os Dez Maiores
Dez pinturas monumentais realizadas em 1907, representando as idades da vida humana.
A escala obriga o espectador a entrar fisicamente no campo das formas e das cores.
Os Livros Azuis
Dez volumes contendo miniaturas em aguarela das obras de As Pinturas para o Templo, acompanhadas por fotografias a preto e branco.
Permitiram transportar e apresentar um conjunto cuja escala dificultava a circulação.
Os cadernos
Centenas de documentos onde Hilma registou mensagens, esquemas, símbolos, interpretações, sistemas de cores, projectos e reflexões.
O arquivo escrito impede que a pintura seja reduzida a expressão intuitiva sem estrutura.
Os desenhos de As Cinco
Cadernos colectivos de desenho e escrita automáticos.
Constituem a matriz visual e metodológica de parte da obra posterior.
Os Estudos da Natureza
Desenhos botânicos associados a formas abstractas, qualidades espirituais e aspectos da consciência.
O projecto do templo
Desenhos e notas para um edifício em espiral destinado à exposição das grandes séries.
O atelier de Munsö
Espaço construído para armazenar, estudar e produzir a obra, ligado à paisagem natural onde Hilma desenvolveu os estudos botânicos.
Artefacto imaginário
A chave do templo futuro
Uma pequena chave de metal escurecido, construída em forma de espiral.
Não abre nenhuma porta existente.
Quando colocada sobre uma página dos Livros Azuis, projecta no espaço a planta de um edifício incompleto. Cada pintura ocupa uma sala, mas a última permanece vazia.
Na chave está gravada uma frase:
O visitante ainda não nasceu.
O artefacto representa a obra concebida para uma recepção futura e a confiança depositada numa comunidade desconhecida de espectadores.
Marcação: imaginado.
Possível tratamento visual
- Hilma diante de uma pintura que ultrapassa a escala do corpo;
- retrato parcialmente coberto por círculos, espirais e letras;
- cadernos empilhados como uma arquitectura;
- cinco mãos femininas produzindo um único desenho;
- planta do templo sobreposta à espiral do Guggenheim;
- flores naturalistas atravessadas por diagramas;
- retrato académico de um lado e linguagem abstracta do outro;
- uma porta fechada com a indicação «abrir vinte anos depois»;
- sala vazia onde as pinturas aguardam o público;
- figura feminina diante de um globo ou estrutura orbital;
- o arquivo guardado em caixas enquanto a história da abstracção se escreve fora delas.
Potencial ficcional
Hilma af Klint oferece várias possibilidades para o ciclo de contos da Galeria.
O vigésimo ano
Um jovem arquivista recebe a tarefa de abrir os cadernos exactamente vinte anos depois da morte da artista. As formas começam a reorganizar o edifício onde estão guardadas.
As Cinco
Narrativa coral construída através das vozes de Hilma, Anna, Cornelia, Sigrid e Mathilda. Cada mulher recorda de modo diferente a autoria dos desenhos produzidos em conjunto.
O templo
Hilma acorda dentro do edifício que nunca foi construído. Para sair, precisa de percorrer as 193 pinturas segundo a ordem que deixou incompleta.
A visitante futura
Uma mulher entra numa exposição contemporânea e descobre que Hilma a desenhou num caderno de 1917.
A pintura que esperou
O conto é narrado por uma das grandes telas, desde a execução no atelier até à abertura ao público no século XXI.
O arquivo de Thomasine
Depois da morte de Hilma, Thomasine Andersson organiza silenciosamente uma segunda versão do arquivo. Décadas mais tarde, alguém encontra uma série de cadernos cuja existência nunca foi registada.
Esta última hipótese deve ser assumida como ficção integral, embora parta da relação documentada entre as duas mulheres.
Interligações
Galeria das Sombras
Hilma introduz o reconhecimento canónico diferido, a incompatibilidade epistemológica e o risco de uma recuperação que simplifica novamente a figura recuperada.
Arquétipos
Urania, Sophia, a cartógrafa, a médium, a cientista e a guardiã do templo formam a constelação simbólica da ficha.
Cosmos
A obra aproxima geometria, átomo, consciência, evolução, matéria e sistemas espirituais.
O Outro Lado do Espelho
A mediação dos chamados Mestres Superiores coloca questões sobre autoria, voz, transmissão e identidade criadora. Hilma atribuía parte da origem das obras a inteligências exteriores, mas organizava, interpretava e preservava o sistema.
Jardim Digital
Os estudos botânicos e os cadernos funcionam como uma forma histórica de jardim de conhecimento: notas em evolução, correspondências entre espécies, imagens, símbolos e estados da consciência.
Torre
O templo não construído, o arquivo visual e a posterior exposição num museu em espiral ligam a obra à arquitectura como dispositivo de leitura.
Serpente
A espiral, a transformação, os ciclos e a união de polaridades permitem uma relação simbólica com a serpente enquanto figura de conhecimento e regeneração. Esta ligação deverá permanecer interpretativa.
Estado da investigação
Ficha em desenvolvimento.
É necessário aprofundar:
- a colaboração exacta entre Hilma af Klint e Anna Cassel;
- os quinze cadernos de As Cinco;
- as diferenças entre desenho automático colectivo e pintura individual;
- a evolução da noção de autoria nos escritos de Hilma;
- o significado completo do sistema de letras, cores e símbolos;
- a relação entre teosofia e antroposofia nas diferentes fases da obra;
- os encontros e divergências com Rudolf Steiner;
- a história material dos Livros Azuis;
- o projecto arquitectónico do templo;
- a participação de Thomasine Andersson na organização da vida e do arquivo;
- a recepção da obra entre 1944 e 1986;
- a fundação e organização posterior do espólio;
- a construção contemporânea de Hilma como pioneira da abstracção;
- o apagamento das restantes mulheres de As Cinco;
- a leitura da sua prática como investigação artística.
A Galeria procura recuperar Hilma af Klint sem a encerrar numa única narrativa. A artista académica, a criadora espiritual, a investigadora da natureza, a autora dos cadernos, a integrante de uma rede feminina e a arquitecta de um templo futuro pertencem ao mesmo arquivo.
Base documental da ficha
A cronologia biográfica, a formação na Real Academia, a carreira figurativa, a constituição de As Cinco, o desenvolvimento de As Pinturas para o Templo, os Livros Azuis, o projecto do templo, a relação com Thomasine Andersson, a reserva dos cadernos e a dimensão do arquivo provêm da cronologia da Fundação Hilma af Klint. (Hilma af Klint Foundation)
A Fundação confirma também que a obra convencional circulou publicamente, enquanto a produção não figurativa permaneceu sobretudo em contextos teosóficos e antroposóficos; assinala a exposição de 1986 no LACMA e o êxito histórico da retrospectiva do Guggenheim em 2018. (Hilma af Klint Foundation)
O MoMA descreve a criação colectiva de desenhos automáticos por As Cinco, o ciclo de 193 pinturas, Os Dez Maiores, a série dedicada ao átomo e a conjugação entre observação botânica e diagramas espirituais. (The Museum of Modern Art)
O catálogo associado à Tate confirma que o vocabulário de símbolos, geometrias e formas biológicas se desenvolveu durante o período de experimentação colectiva de As Cinco. (shop.tate.org.uk)