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Espelho

Autoria fragmentada, personas literárias e arquivos de identidade.

O campo Espelho investiga a construção de autoras ficcionais como prática de investigação artística.

Reúne três personas autorais — Jilly Fall, Selene Atwey e Lady DuLac —, cada uma com voz, estética, imaginário, referências, figura arquetípica e corpo de trabalho próprios. Surgiram em momentos diferentes e respondem a formas distintas de pensar e escrever. Em conjunto, formam um arquivo descontínuo da identidade.

O espelho não devolve uma imagem única. Devolve três configurações autorais, organizadas em torno de uma constelação lunar — Ártemis, Selene, Hécate — que funciona como matriz imaginária, sem constituir identidade fixa ou equivalência psicológica fechada.

Tese

A identidade autoral pode ser compreendida como uma estrutura plural, composta por vozes que não precisam de ser fundidas numa versão definitiva de quem escreve. Ao longo de uma vida alteram-se a linguagem, o imaginário, as obsessões, a relação com o mundo. O campo Espelho preserva a autonomia de algumas dessas configurações, atribuindo-lhes nome, voz e obra.

Cada persona conserva uma forma de sensibilidade que poderia desaparecer ou ser corrigida retrospectivamente pela autora presente. Cada uma estabelece, também, um regime diferente de linguagem e conhecimento: Jilly produz através da imagem poética e da atmosfera; Selene através da investigação e da articulação simbólica; Lady DuLac através da carta, da crónica e da ficção epistolar.

O processo utiliza a marcação epistemológica de Anamnese — documentado · autobiográfico · interpretado · imaginado · ficcionalizado —, o que permite trabalhar na fronteira entre vida e ficção sem apresentar como documento aquilo que pertence à invenção literária.

As três autoras

Jilly Fall

Figura arquetípica: Ártemis Território: juventude · inocência · romantismo melancólico · natureza · solidão Forma: poesia · Estética: white goth

Jilly Fall é a autora da juventude preservada. A sua escrita habita jardins brancos, casas silenciosas, bosques e paisagens suspensas entre a infância e a vida adulta — um romantismo melancólico, delicado, ligeiramente espectral, onde a sombra surge sempre filtrada pelo branco.

Ártemis é a sua figura tutelar: a jovem autónoma, ligada à natureza e a uma zona interior que permanece inacessível à domesticação. Os poemas de Jilly Fall preservam uma configuração emocional que não deve ser corrigida pela autora presente — a persona permite que essa voz continue a existir na sua idade própria.

Selene Atwey

Figura arquetípica: Selene Território: proto-história · mitologia · símbolo · paisagem · serpente Forma: ensaio e investigação artística

Selene Atwey é antropóloga da proto-história, mitóloga e simbologista. A sua escrita investiga aquilo que sobrevive entre vestígio material, mito, paisagem e imaginação colectiva — castros, cultos antigos, serpentes, divindades esquecidas, continuidades culturais difíceis de demonstrar através do arquivo convencional. É autora de O Arquétipo da Serpente e de ensaios dedicados à proto-história e à leitura simbólica do território.

A Lua funciona como imagem de iluminação indirecta: a autora observa vestígios e recorrências, tornando perceptíveis formas que raramente aparecem sob luz directa. Selene Atwey estabelece a passagem entre Espelho, Arquétipo e Território — é, das três, a voz mais próxima da investigação actual desenvolvida em nome próprio.

Lady DuLac

Figura arquetípica: Hécate Território: noite · limiar · memória · morte · elegância gótica Forma: crónica epistolar · Obra: Chrónicas do Sepulchro

Lady DuLac é uma autora e cronista espectral. Habita um universo gótico de cartas, túmulos, salões vazios e recordações que regressam fora do seu tempo, numa dicção deliberadamente arcaizante, próxima do romantismo sombrio e da tradição gótico-vitoriana.

A sua obra, Chrónicas do Sepulchro, assume a forma de blogue epistolar — cada entrada funciona como carta, crónica ou fragmento de um arquivo cuja proveniência permanece parcialmente obscura. Hécate, deusa das encruzilhadas e dos espaços liminares, oferece a matriz simbólica para uma autora que escreve entre mundos e tempos. Lady DuLac tem origem em Helena Dulac, figura também presente na Galeria das Sombras — o heterónimo nasce, assim, do limiar entre arquivo e invenção que atravessa todo o projecto.

Conclusão

Espelho é o campo onde a investigação se volta para a autoria. Jilly Fall escreve sob o signo de Ártemis. Selene Atwey observa sob a luz de Selene. Lady DuLac atravessa as encruzilhadas de Hécate.

Juntas, formam uma constelação autoral composta por poesia, investigação e crónica epistolar. O espelho não encerra uma identidade. Conserva as vozes que aprenderam a escrever através dela.

Uma vida pode conter várias autoras. O espelho dá-lhes uma obra.

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