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Walk-based Practice — Práticas de Caminhada como Investigação

by Inês Soares

Tipo: Família de metodologias móveis, corporais, situadas e artísticas
Família: Território e práticas situadas
Campos: Investigação artística · etnografia · antropologia · geografia cultural · sociologia · performance · walking art · investigação sensorial · humanidades espaciais · pedagogia pública
Conceitos relacionados: Dérive · psicogeografia · mitogeografia · Deep Mapping · investigação situada · performance site-specific · Sonic Research · cartografia crítica · etnografia sensorial · investigação incorporada · coreografia · práticas mais-do-que-humanas

Definição breve

Walk-based Practice, ou práticas de caminhada como investigação, designa um conjunto de metodologias em que caminhar, acompanhar, percorrer e observar em movimento participam activamente na produção de conhecimento.

A caminhada pode ser utilizada para explorar um território, realizar entrevistas, activar memórias, observar relações espaciais, recolher materiais, criar uma obra, testar percursos, envolver comunidades ou investigar as condições políticas que determinam quem pode circular e permanecer num lugar.

O que são práticas de caminhada

As práticas de caminhada partem do reconhecimento de que o conhecimento sobre um lugar se altera quando é produzido através do movimento.

Um território visto num mapa, descrito num documento ou observado a partir de um ponto fixo apresenta determinadas características. Quando é percorrido, surgem outros elementos:

  • distância sentida;
  • inclinação;
  • esforço;
  • temperatura;
  • ruído;
  • velocidade;
  • obstáculos;
  • cheiros;
  • mudanças de superfície;
  • interrupções;
  • encontros;
  • ritmos;
  • zonas de perigo;
  • acessos;
  • desvios;
  • relações entre lugares;
  • memórias activadas pelo percurso.

O corpo participa na investigação. Caminhar implica negociar continuamente terreno, tempo, atenção, orientação, cansaço, segurança e relação com os outros.

A caminhada também produz o lugar. Ao seguir um caminho, evitar uma zona, parar num ponto, conversar com alguém ou repetir um trajecto, a pessoa participa nas práticas através das quais o território adquire significado.

Caminhar como método, prática e forma

A caminhada pode assumir diferentes funções dentro de um projecto.

Método de recolha

É utilizada para obter entrevistas, observações, fotografias, sons, mapas, testemunhos e dados de campo.

Método de atenção

Orienta a percepção para ritmos, relações, atmosferas, materiais e transformações do território.

Método de relação

Permite investigar ao lado de participantes, comunidades, colaboradores e outros seres presentes no lugar.

Processo criativo

Gera imagens, textos, movimentos, composições, narrativas, objectos e estruturas.

Prática artística

A própria caminhada constitui a obra ou uma parte central da sua realização.

Dispositivo performativo

O percurso é organizado através de instruções, gestos, regras, encontros ou participação pública.

Forma de análise

A repetição, comparação ou reconstrução de trajectos ajuda a interpretar materiais e hipóteses.

Forma de apresentação

O público acede à investigação através de uma caminhada, percurso, visita, peregrinação, áudio-walk ou experiência guiada.

Um mesmo projecto pode combinar várias destas funções.

Um campo plural

Walking-based Practice não constitui uma metodologia única.

O campo inclui práticas oriundas de:

  • etnografia;
  • antropologia;
  • geografia;
  • sociologia;
  • investigação artística;
  • performance;
  • dança e coreografia;
  • arte sonora;
  • história oral;
  • estudos urbanos;
  • investigação ambiental;
  • arqueologia;
  • turismo crítico;
  • investigação participativa;
  • pedagogia;
  • activismo;
  • estudos da mobilidade;
  • design e planeamento urbano.

Cada tradição utiliza a caminhada de forma diferente. Algumas procuram recolher narrativas. Outras investigam percepção, memória, ambiente, movimento, poder, ecologia ou formas de criação.

A designação da metodologia concreta deve ser indicada sempre que possível.

Genealogias do caminhar como investigação

As práticas de caminhada possuem várias genealogias. Nenhuma delas constitui uma origem exclusiva.

Caminhada, peregrinação e conhecimento territorial

Caminhar é uma forma antiga de deslocação, orientação, transmissão de histórias, reconhecimento do território, peregrinação, comércio, trabalho e relação com a paisagem.

Muitos conhecimentos locais foram construídos através de percursos repetidos:

  • caminhos sazonais;
  • rotas de pastoreio;
  • deslocações entre povoações;
  • práticas de pesca;
  • recolha de plantas;
  • romarias;
  • caminhos funerários;
  • percursos de trabalho;
  • travessias de montanha;
  • rotas costeiras;
  • peregrinações.

Estas práticas não devem ser transformadas retrospectivamente numa única metodologia artística ou académica. Constituem formas históricas e culturais distintas de conhecer e habitar o território.

Flânerie e observação urbana

A figura do flâneur surgiu associada à experiência da cidade moderna do século XIX.

O flâneur percorre ruas, passagens e multidões, observando cenas urbanas, comportamentos e transformações da vida moderna.

Esta figura influenciou literatura, jornalismo, arte e estudos urbanos. Contém, contudo, pressupostos de liberdade, anonimato e disponibilidade que não se aplicam igualmente a todas as pessoas.

A possibilidade de caminhar sem destino, observar sem ser interpelado e permanecer em espaços públicos depende de género, classe, racialização, idade, aparência, mobilidade e contexto histórico.

Dadaísmo, surrealismo e caminhadas experimentais

Artistas dadaístas e surrealistas utilizaram passeios, visitas, deambulações e deslocações como formas de perturbar a experiência habitual da cidade.

O acaso, o encontro, a associação e a exploração de espaços marginais contribuíram para transformar a caminhada em prática artística e experimental.

Internacional Situacionista

A deriva situacionista desenvolveu uma técnica psicogeográfica específica de exploração urbana.

Os participantes suspendiam os percursos habituais e observavam as atracções, barreiras e atmosferas do terreno.

A deriva constitui uma das genealogias centrais da walking art contemporânea, mas mantém uma identidade histórica e política própria.

Land Art e caminhada como gesto artístico

Durante as décadas de 1960 e 1970, artistas como Richard Long e Hamish Fulton trabalharam a caminhada como gesto, experiência, inscrição, medida e relação com a paisagem.

A obra podia residir no percurso realizado, nas marcas temporárias, nas fotografias, nos mapas ou nos textos produzidos posteriormente.

Esta genealogia contribuiu para deslocar a arte para fora do estúdio e das instituições expositivas.

Também gerou debates sobre a figura do artista solitário, a representação da natureza, a propriedade da terra e a aparente neutralidade de determinadas paisagens.

Performance e arte feminista

Práticas performativas e feministas investigaram o corpo em movimento, a segurança, a vigilância, o trabalho, a violência e a ocupação do espaço público.

Caminhar tornou-se uma forma de questionar quem pode aparecer, parar, atravessar, ocupar ou reclamar determinados lugares.

Estas abordagens deslocaram a atenção do percurso abstracto para as condições concretas e desiguais da mobilidade.

Antropologia e etnografia em movimento

Na antropologia, a caminhada passou a ser entendida como forma de acompanhar práticas, aprender percursos e produzir conhecimento ao lado dos participantes.

O investigador observa o mundo enquanto se desloca com pessoas que o conhecem através da experiência quotidiana.

Caminhar em conjunto permite que lugares, objectos e acontecimentos activem narrativas que poderiam não surgir numa entrevista realizada num espaço fechado.

Mobile Methods

Os estudos da mobilidade expandiram os métodos de investigação para acompanhar pessoas, objectos, transportes, imagens, informações e práticas em movimento.

A investigação pode ser realizada caminhando, conduzindo, viajando de comboio, navegando, pedalando ou acompanhando circuitos digitais e materiais.

A caminhada integra, assim, uma família mais ampla de métodos móveis.

Walking Art e investigação artística

Na investigação artística contemporânea, caminhar pode ser simultaneamente processo, método, performance, composição e obra.

O percurso pode originar:

  • desenhos;
  • fotografias;
  • sons;
  • mapas;
  • textos;
  • filmes;
  • intervenções;
  • gestos;
  • encontros;
  • arquivos;
  • coreografias;
  • narrativas;
  • publicações;
  • experiências participativas.

A prática artística permite investigar dimensões sensoriais, relacionais e temporais difíceis de traduzir apenas através de descrição discursiva.

WalkingLab e metodologias críticas

WalkingLab, projecto associado a Stephanie Springgay e Sarah E. Truman, desenvolveu metodologias de caminhada informadas por teorias feministas, queer, antirracistas, anticoloniais, anti-capacitistas e mais-do-que-humanas.

Esta abordagem questiona ideias romantizadas sobre caminhar como actividade universalmente livre, natural, lenta ou emancipadora.

Pergunta:

  • Quem pode caminhar?
  • Quem é impedido?
  • Quem é observado?
  • Que terrenos são considerados acessíveis?
  • Que histórias de ocupação formaram o caminho?
  • Que relações coloniais permanecem na paisagem?
  • Que seres humanos e não humanos participam no percurso?
  • Que responsabilidades surgem durante a investigação?

Princípios fundamentais

Conhecimento situado

A experiência do percurso depende da posição de quem caminha.

O corpo, a história, a mobilidade, os conhecimentos, as expectativas e as condições sociais da investigadora influenciam aquilo que pode ser percebido.

Incorporação

O corpo funciona como instrumento de investigação.

Cansaço, dor, equilíbrio, respiração, temperatura, velocidade e esforço participam no conhecimento produzido.

Movimento

O pensamento ocorre durante o deslocamento.

A sucessão de lugares, imagens, sons e encontros pode alterar a narrativa, a memória e a interpretação.

Relação

A caminhada produz relações entre pessoas, espaços, materiais, animais, plantas, infraestruturas e condições atmosféricas.

Temporalidade

O território muda ao longo do dia, das estações e dos anos.

Repetir um percurso permite observar ritmos, transformações e recorrências.

Atenção

Caminhar pode criar condições para uma observação demorada, desde que a atenção não seja automaticamente confundida com lentidão.

Uma caminhada rápida, interrompida ou difícil também pode produzir conhecimento relevante.

Improvisação

O terreno e os acontecimentos alteram o plano inicial.

A investigação precisa de acolher o imprevisto sem abandonar a pergunta orientadora.

Reflexividade

A investigadora deve observar como as suas escolhas, capacidades e expectativas condicionam o percurso.

Materialidade

Superfícies, objectos, edifícios, água, vegetação, vento e tecnologias participam na experiência.

Política da mobilidade

Caminhar está sujeito a leis, fronteiras, propriedade, segurança, desigualdade, vigilância e desenho espacial.

Incompletude

Nenhuma caminhada oferece uma leitura total do território.

O percurso selecciona e exclui. Outros trajectos produziriam outras versões do lugar.

Caminhada e produção do lugar

O lugar não funciona apenas como cenário onde a investigação acontece.

É produzido através de práticas:

  • caminhar;
  • trabalhar;
  • cultivar;
  • vigiar;
  • visitar;
  • recordar;
  • construir;
  • proibir;
  • nomear;
  • narrar;
  • atravessar;
  • permanecer;
  • abandonar.

Um caminho existe fisicamente, mas também depende da repetição, da memória e do reconhecimento colectivo.

Quando deixa de ser utilizado, pode desaparecer sob vegetação, construção ou alteração da propriedade. Pode, contudo, continuar presente em mapas, relatos e memórias.

A investigação através da caminhada permite observar a relação entre território material e território praticado.

Caminhada e pensamento

A relação entre caminhar e pensar possui uma longa história cultural.

O movimento pode favorecer:

  • associação;
  • ritmo;
  • recordação;
  • resolução de problemas;
  • observação;
  • composição;
  • diálogo;
  • atenção corporal.

Estes efeitos não são automáticos nem universais.

Cansaço, dor, perigo, excesso de estímulos, orientação ou necessidade de documentação podem dificultar a reflexão.

A investigação deve registar as condições concretas em que o pensamento surgiu.

Caminhada e memória

Os lugares podem activar memórias através de:

  • edifícios;
  • sons;
  • cheiros;
  • mudanças de luz;
  • texturas;
  • distâncias;
  • gestos;
  • pontos de vista;
  • objectos;
  • nomes;
  • movimentos repetidos.

Durante uma walking interview, uma pessoa pode recordar acontecimentos ao aproximar-se do lugar onde ocorreram.

O percurso também pode revelar lacunas: um edifício desapareceu, uma rua mudou, um acesso foi fechado ou a memória já não coincide com a configuração actual.

A discrepância entre lembrança e território constitui material de investigação.

Caminhada e narrativa

A narrativa produzida durante o movimento tende a relacionar-se com aquilo que aparece no percurso.

Uma pessoa pode interromper a história para apontar um lugar, alterar a ordem dos acontecimentos, regressar a um ponto ou construir uma explicação a partir de um objecto encontrado.

O trajecto participa na estrutura narrativa.

O investigador deve observar:

  • onde determinado tema surge;
  • que lugares provocam silêncio;
  • quando o ritmo muda;
  • que zonas são evitadas;
  • quem decide o caminho;
  • como a narrativa responde ao ambiente.

Métodos e práticas principais

Walking Interview — entrevista em caminhada

A entrevista é realizada enquanto investigadora e participante percorrem um território.

O percurso pode ser escolhido pela investigadora, pelo participante ou por ambos.

O ambiente activa memórias, comentários e observações relacionadas com os lugares encontrados.

É especialmente útil para estudar:

  • pertença;
  • memória;
  • identidade territorial;
  • experiência urbana;
  • migração;
  • relações comunitárias;
  • saúde;
  • acessibilidade;
  • transformação ambiental;
  • práticas quotidianas.

Go-along

No go-along, a investigadora acompanha o participante num percurso ou actividade que pertence à sua vida quotidiana.

O participante pode caminhar para o trabalho, visitar locais habituais, atravessar o bairro ou realizar uma tarefa.

A investigadora observa práticas, interacções e interpretações em contexto.

O go-along aproxima entrevista e observação participante.

Percurso guiado pelo participante

O participante assume o papel de guia.

Escolhe os lugares, a sequência, as paragens e os temas que considera relevantes.

Esta modalidade redistribui parcialmente a autoridade do percurso, embora a investigadora continue responsável pelo enquadramento, registo e interpretação.

Self-narrated walk — caminhada auto-narrada

A pessoa realiza um percurso e descreve em voz alta aquilo que observa, sente, recorda ou decide.

Pode caminhar sozinha com um gravador ou acompanhada por uma investigadora que intervém minimamente.

O método permite observar relações entre pensamento, percepção e movimento.

Walking Interview as Biographical Method

A caminhada é utilizada para explorar biografia, migração, pertença e relação com a cidade.

Os lugares activam episódios de vida e ajudam a relacionar trajectória pessoal e transformação urbana.

Caminhada comentada

Especialistas, residentes, trabalhadores ou membros de uma comunidade percorrem um lugar e comentam elementos específicos.

Pode ser utilizada em património, arquitectura, arqueologia, ecologia, urbanismo e história local.

Transect Walk

Um trajecto atravessa diferentes zonas de um território para observar variações ambientais, sociais ou económicas.

É comum em investigação participativa, planeamento e estudos rurais.

Pode relacionar informação local, observação directa, mapas e discussão colectiva.

Caminhada sensorial

A atenção é orientada para sentidos específicos:

  • som;
  • cheiro;
  • tacto;
  • temperatura;
  • luz;
  • movimento;
  • equilíbrio;
  • propriocepção.

A caminhada pode incluir exercícios, pausas e descrições.

Soundwalk — caminhada sonora

O percurso concentra-se no ambiente acústico.

Os participantes escutam, registam, mapeiam ou interpretam sons e silêncios.

Caminhada de memória

O trajecto segue lugares associados a uma pessoa, comunidade, acontecimento ou período histórico.

Pode envolver fotografias antigas, testemunhos, mapas, cartas ou objectos.

Caminhada de arquivo

Documentos históricos são levados para o território e confrontados com a paisagem actual.

A investigadora observa permanências, desaparecimentos, deslocações e incompatibilidades entre arquivo e terreno.

Caminhada repetida

O mesmo percurso é realizado em diferentes momentos.

A repetição permite observar:

  • estações;
  • marés;
  • horários;
  • mudanças de uso;
  • transformações urbanas;
  • ciclos ecológicos;
  • alterações de percepção.

Caminhada comparativa

Dois ou mais percursos são realizados e comparados.

Podem atravessar lugares distintos, seguir regras diferentes ou ser percorridos por participantes com experiências diversas.

Caminhada performativa

O percurso integra gestos, leituras, movimentos, objectos, figurinos, interacções ou acções programadas.

A performance pode tornar visíveis relações espaciais, políticas ou simbólicas.

Walking Score — partitura de caminhada

Uma instrução escrita, visual ou sonora orienta o percurso.

Exemplos:

  • segue uma sombra;
  • pára sempre que ouvires água;
  • caminha durante a duração de uma gravação;
  • procura nove superfícies diferentes;
  • muda de direcção perante cada barreira;
  • regressa pelo caminho que recordas.

A partitura pode ser precisa ou aberta.

Caminhada coreográfica

O caminhar é investigado como movimento, ritmo, relação espacial e composição corporal.

Pode envolver trajectórias, grupos, sincronização, repetição e improvisação.

Caminhada ritual

O percurso integra repetição, gesto, silêncio, oferenda, leitura ou marcação temporal.

Quando trabalha com tradições culturais existentes, exige conhecimento, respeito e atenção à apropriação.

Caminhada especulativa

Os participantes percorrem um território imaginando condições alternativas.

Podem perguntar:

  • Como será este lugar daqui a cinquenta anos?
  • Que espécies o habitarão?
  • Como seria sem automóveis?
  • Que estruturas surgiriam depois da subida do nível do mar?
  • Que histórias contaria uma ruína futura?

A especulação deve ser distinguida de previsão e documentação factual.

Caminhada mais-do-que-humana

A investigação presta atenção às relações entre seres humanos, animais, plantas, água, solo, clima, infraestruturas e materiais.

Evita tratar o território como cenário passivo ou recurso disponível para a experiência humana.

Caminhada de acessibilidade

O percurso investiga barreiras físicas, sensoriais, comunicacionais e sociais.

Pode incluir pessoas com diferentes formas de mobilidade e percepção.

O método deve evitar simulações superficiais da deficiência e privilegiar participação e conhecimento vivido.

Caminhada comunitária

Um grupo percorre o território para identificar problemas, histórias, recursos, necessidades ou possibilidades.

Pode ser utilizada em processos participativos, mediação cultural, planeamento e activismo.

Caminhada pedagógica

O percurso é estruturado como situação de aprendizagem.

Os participantes observam, recolhem, discutem e produzem respostas ao território.

Caminhada algorítmica

Uma sequência ou sistema de regras determina decisões durante o percurso.

O algoritmo pode ser manual, digital, aleatório ou baseado em dados.

A investigação deve analisar também a lógica do sistema que produz as instruções.

Caminhada remota ou distribuída

Participantes localizados em diferentes lugares realizam simultaneamente uma mesma instrução.

Os materiais são posteriormente comparados ou reunidos numa plataforma comum.

Caminhada digital

A navegação por mapas, plataformas, arquivos ou ambientes virtuais é tratada como forma de deslocação investigativa.

Esta prática não substitui a experiência física do território, mas pode investigar as estruturas que organizam a circulação digital.

Caminhar, deslocar-se ou permanecer

A expressão walk-based practice pode produzir exclusão quando pressupõe que todas as pessoas caminham da mesma forma.

Uma investigação baseada em movimento pode ser adaptada para:

  • cadeira de rodas;
  • bicicleta;
  • transporte público;
  • automóvel;
  • barco;
  • acompanhamento assistido;
  • deslocação parcial;
  • percurso virtual;
  • permanência num ponto;
  • deriva estática;
  • observação a partir de casa;
  • colaboração entre pessoas com diferentes mobilidades.

O princípio metodológico relevante pode ser o movimento situado, a relação com o percurso ou a atenção ao ambiente.

A caminhada física não deve ser imposta quando não é necessária para a pergunta.

Como desenvolver um projecto de caminhada

1. Formular a pergunta

A caminhada deve responder a uma questão identificável.

Exemplos:

  • Como é vivido este caminho por diferentes gerações?
  • Que memórias são activadas pelo percurso?
  • Onde surgem barreiras de acesso?
  • Como se transforma a paisagem entre o rio e o mar?
  • Que sons caracterizam esta zona?
  • Como organiza o turismo a circulação?
  • Que vestígios permanecem de um uso desaparecido?
  • Como altera a maré a experiência do território?
  • Que histórias surgem quando caminhamos com residentes?

2. Justificar o movimento

É necessário explicar porque é que caminhar ou acompanhar contribui para a investigação.

A caminhada pode ser necessária porque:

  • o fenómeno acontece em movimento;
  • os participantes conhecem o território corporalmente;
  • os lugares activam memória;
  • as relações espaciais precisam de ser experienciadas;
  • o percurso constitui a obra;
  • a investigação procura comparar ritmos;
  • os materiais estão distribuídos pelo território.

3. Delimitar o território

O campo pode ser:

  • um edifício;
  • uma rua;
  • uma aldeia;
  • um bairro;
  • um rio;
  • uma costa;
  • uma região;
  • uma rede de caminhos;
  • vários lugares relacionados.

A delimitação pode ser espacial, temporal ou temática.

4. Definir quem conduz o percurso

O caminho pode ser escolhido:

  • pela investigadora;
  • pelo participante;
  • pela comunidade;
  • por um documento;
  • por uma história;
  • por uma regra;
  • pelo ambiente;
  • por um algoritmo;
  • através de negociação colectiva.

A escolha determina relações de autoridade.

5. Escolher a modalidade

É necessário decidir se o projecto utiliza:

  • entrevista;
  • observação;
  • performance;
  • recolha sensorial;
  • documentação;
  • participação;
  • cartografia;
  • composição artística;
  • combinação de métodos.

6. Preparar o percurso

A preparação pode incluir:

  • reconhecimento prévio;
  • avaliação de acessos;
  • distância;
  • duração;
  • declive;
  • superfícies;
  • casas de banho;
  • zonas de descanso;
  • transportes;
  • condições meteorológicas;
  • autorizações;
  • propriedade;
  • cobertura de rede;
  • pontos de saída;
  • riscos ambientais;
  • alternativas acessíveis.

7. Construir um protocolo flexível

O protocolo pode indicar:

  • pergunta;
  • participantes;
  • duração;
  • percurso;
  • equipamento;
  • formas de registo;
  • instruções;
  • consentimento;
  • condições de interrupção;
  • procedimentos de emergência;
  • forma de devolução.

Deve permanecer suficientemente aberto para responder ao terreno.

8. Realizar uma caminhada preliminar

Uma primeira experiência ajuda a testar:

  • tempo real;
  • segurança;
  • legibilidade das instruções;
  • qualidade dos registos;
  • esforço;
  • acessibilidade;
  • interferências;
  • zonas sensíveis.

9. Caminhar e observar

Durante o percurso, devem ser registadas decisões, mudanças e acontecimentos.

A investigadora pode observar:

  • quem lidera;
  • quem fica para trás;
  • onde o grupo pára;
  • que temas surgem;
  • que lugares provocam emoção;
  • que barreiras aparecem;
  • como muda o ritmo;
  • que sons interrompem a conversa;
  • que elementos alteram o trajecto.

10. Documentar

Os materiais podem incluir:

  • notas;
  • gravação áudio;
  • vídeo;
  • fotografia;
  • GPS;
  • desenho;
  • mapas;
  • objectos;
  • amostras autorizadas;
  • dados ambientais;
  • relatos posteriores;
  • marcas temporais;
  • registos corporais.

A documentação deve servir a pergunta e não dominar a experiência.

11. Conversar depois do percurso

Uma conversa final permite recolher:

  • interpretações;
  • desconfortos;
  • omissões;
  • momentos significativos;
  • alterações de percepção;
  • avaliação do método.

Os participantes podem corrigir ou acrescentar informação.

12. Transcrever o movimento

A transcrição pode incluir elementos que desaparecem numa transcrição verbal convencional:

  • localização;
  • paragens;
  • direcção;
  • ritmo;
  • gestos;
  • sons;
  • interrupções;
  • objectos apontados;
  • mudanças de ambiente;
  • distância entre participantes.

13. Analisar

A análise pode relacionar:

  • discurso;
  • trajecto;
  • corpo;
  • ambiente;
  • materiais;
  • temporalidade;
  • interacções;
  • condições políticas;
  • arquivo;
  • mapas;
  • observação.

A investigadora procura padrões, diferenças, contradições e ausências.

14. Compor o resultado

O projecto pode ser apresentado como:

  • texto;
  • mapa;
  • atlas;
  • filme;
  • áudio;
  • performance;
  • caminhada pública;
  • publicação;
  • instalação;
  • website;
  • arquivo;
  • exposição;
  • caderno;
  • percurso autónomo;
  • narrativa transmédia.

15. Regressar ao território

A devolução pode incluir:

  • partilha dos registos;
  • caminhada pública;
  • conversa;
  • exposição local;
  • acesso ao arquivo;
  • correcção comunitária;
  • materiais educativos;
  • proposta de intervenção;
  • contributos para planeamento;
  • incorporação de novas camadas.

Documentação da caminhada

A documentação não representa a caminhada por inteiro.

Uma linha GPS regista posição, mas não contém o esforço, as conversas, o clima ou a sensação de insegurança.

Uma fotografia preserva um enquadramento, mas exclui sons, duração e elementos fora do campo.

Uma gravação sonora contém o ambiente acústico captado pelo equipamento, mas não corresponde exactamente ao que cada pessoa ouviu.

Por isso, convém articular vários materiais.

Caderno de campo ambulante

Um caderno de campo pode incluir:

  • data;
  • hora;
  • localização;
  • percurso;
  • condições meteorológicas;
  • participantes;
  • pergunta;
  • instrução;
  • duração;
  • paragens;
  • observações;
  • sensações;
  • sons;
  • encontros;
  • obstáculos;
  • decisões;
  • dúvidas;
  • desenhos;
  • hipóteses;
  • materiais recolhidos;
  • reflexão posterior.

Cartografia do percurso

O mapa pode representar:

  • trajecto;
  • tempo;
  • ritmo;
  • pausas;
  • desvios;
  • barreiras;
  • memórias;
  • sons;
  • cheiros;
  • emoções;
  • encontros;
  • relações;
  • propriedade;
  • acessibilidade;
  • intensidade;
  • alterações de superfície.

A cartografia deve explicitar quais elementos foram observados e quais foram interpretados.

Escrita e caminhada

A caminhada pode gerar escrita durante ou depois do percurso.

Algumas formas possíveis:

  • notas instantâneas;
  • ditado de voz;
  • descrição sensorial;
  • diário;
  • ensaio;
  • poesia;
  • narrativa fragmentária;
  • lista;
  • texto cartográfico;
  • correspondência;
  • escrita por instrução;
  • ficção situada.

Escrever durante a caminhada altera o ritmo e a atenção. Escrever posteriormente introduz selecção, esquecimento e reconstrução.

As duas fases podem ser combinadas.

Caminhada e tecnologias

As tecnologias podem ampliar a investigação através de:

  • GPS;
  • aplicações cartográficas;
  • gravação áudio;
  • fotografia;
  • vídeo;
  • sensores;
  • bases de dados;
  • realidade aumentada;
  • códigos QR;
  • plataformas colaborativas;
  • comunicação remota.

Também podem interferir na experiência.

Um ecrã pode dirigir a atenção para a interface. O GPS pode criar uma falsa sensação de precisão. Uma aplicação pode sugerir apenas percursos reconhecidos comercialmente.

A mediação tecnológica deve fazer parte da análise.

Caminhada e investigação artística

Na investigação artística, caminhar pode produzir conhecimento através do próprio gesto.

A criação pode revelar relações que surgem apenas através de:

  • duração;
  • repetição;
  • esforço;
  • presença;
  • encontro;
  • deslocação;
  • ritmo;
  • improvisação;
  • atenção;
  • transformação da matéria.

Uma linha desenhada durante um percurso, uma gravação de passos ou uma sequência fotográfica podem funcionar como traços de uma experiência.

A obra não precisa de representar integralmente a caminhada. Pode condensar, transformar ou reactivar aspectos do processo.

Formas artísticas

Uma prática de caminhada pode resultar em:

  • walking performance;
  • áudio-walk;
  • mapa artístico;
  • livro de artista;
  • filme-ensaio;
  • ensaio fotográfico;
  • instalação;
  • coreografia;
  • escultura;
  • intervenção;
  • desenho;
  • partitura;
  • arquivo;
  • texto;
  • jogo;
  • aplicação;
  • percurso aumentado;
  • publicação expandida;
  • jardim digital;
  • exposição de investigação.

Critérios de rigor

Justificação metodológica

Deve ser claro por que razão o movimento contribui para a investigação.

Descrição do protocolo

Percurso, duração, participantes, condições e métodos de registo devem ser documentados.

Atenção ao contexto

A experiência precisa de ser relacionada com condições históricas, sociais, políticas e ambientais.

Reflexividade

A posição e as capacidades da investigadora influenciam os resultados.

Transparência

Observação, testemunho, memória, interpretação e criação artística devem ser diferenciados.

Comparabilidade

Quando pertinente, percursos repetidos ou realizados por diferentes participantes permitem comparar experiências.

Responsabilidade ética

Consentimento, privacidade, segurança, propriedade, acessibilidade e retorno devem ser considerados.

Coerência formal

A forma final precisa de comunicar as relações produzidas pelo percurso.

Reconhecimento da parcialidade

O projecto deve admitir que apresenta uma leitura situada.

Contributo

A caminhada deve gerar conhecimento, relação ou transformação relevante para a questão.

Ética da caminhada

A caminhada expõe participantes e investigadores a situações que não existem numa entrevista controlada.

Pode envolver:

  • trânsito;
  • quedas;
  • fadiga;
  • calor;
  • frio;
  • chuva;
  • zonas isoladas;
  • assédio;
  • vigilância;
  • propriedade privada;
  • conflitos;
  • animais;
  • terrenos instáveis;
  • recordações intensas;
  • exposição pública.

O consentimento deve incluir informação sobre o percurso, o registo e a possibilidade de interrupção.

Participantes devem poder:

  • recusar uma zona;
  • alterar o percurso;
  • fazer pausas;
  • retirar comentários;
  • interromper a actividade;
  • escolher outra modalidade.

Privacidade

Uma conversa realizada em espaço público pode ser ouvida por terceiros.

A gravação pode captar pessoas que não participam no projecto.

Fotografias, localização GPS e referências territoriais podem identificar participantes mesmo quando os nomes são alterados.

A investigação deve prever:

  • zonas adequadas para temas sensíveis;
  • possibilidade de desligar a gravação;
  • revisão de excertos;
  • anonimização;
  • remoção de coordenadas;
  • protecção dos ficheiros;
  • limites à publicação.

Acessibilidade

A acessibilidade deve ser integrada desde o início.

É necessário considerar:

  • distância;
  • declive;
  • tipo de superfície;
  • largura;
  • degraus;
  • zonas de descanso;
  • casas de banho;
  • transporte;
  • iluminação;
  • ruído;
  • sinalização;
  • ritmo;
  • fadiga;
  • dor;
  • mobilidade;
  • visão;
  • audição;
  • neurodivergência;
  • ansiedade;
  • exposição pública.

Uma alternativa acessível não deve ser apresentada como versão secundária ou inferior.

O desenho do projecto pode permitir diferentes formas de participação.

Política da caminhada

A possibilidade de caminhar livremente é desigual.

Diferentes corpos encontram:

  • vigilância;
  • suspeita;
  • sexualização;
  • assédio;
  • controlo policial;
  • racismo;
  • fronteiras;
  • proibições;
  • inacessibilidade;
  • risco económico;
  • falta de tempo;
  • obrigação de trabalhar;
  • ausência de transporte;
  • medo.

A investigação deve evitar transformar a liberdade particular da artista numa condição humana universal.

Relações coloniais e território

Muitos caminhos atravessam terras com histórias de ocupação, expropriação, deslocação e exploração.

A designação de uma paisagem como vazia, selvagem ou disponível pode apagar comunidades, práticas e direitos.

A caminhada crítica investiga:

  • quem nomeou o território;
  • quem o possui;
  • quem foi removido;
  • que saberes foram deslegitimados;
  • que acessos foram impedidos;
  • que histórias permanecem nos mapas;
  • que relações continuam activas.

Relações mais-do-que-humanas

O percurso atravessa habitats, ciclos, materiais e presenças não humanas.

Uma investigação responsável considera:

  • nidificação;
  • erosão;
  • vegetação;
  • marés;
  • incêndio;
  • espécies invasoras;
  • animais domésticos;
  • fauna selvagem;
  • qualidade da água;
  • ruído;
  • resíduos;
  • impacto da presença humana.

A recolha e circulação de informação sobre locais frágeis também pode criar riscos.

Limites e riscos

Romantização da caminhada

Caminhar pode ser apresentado como experiência pura, lenta ou libertadora, ignorando esforço, obrigação, risco e desigualdade.

Falta de pergunta

Um percurso pode gerar muitos materiais sem produzir uma investigação coerente.

Fetichização do corpo

A experiência incorporada pode ser celebrada sem análise das condições sociais que tornam alguns corpos mais móveis do que outros.

Confusão entre presença e compreensão

Estar num lugar não garante conhecimento profundo sobre ele.

Extracção de histórias

A investigadora pode recolher memórias locais e utilizá-las fora do contexto sem retorno ou participação.

Estetização do território

Paisagens degradadas, comunidades vulneráveis e ruínas podem ser transformadas em atmosfera visual.

Excesso de documentação

A preocupação com gravações e imagens pode diminuir a atenção ao percurso e aos participantes.

Generalização

Uma caminhada singular não representa a experiência total de uma comunidade ou território.

Dependência do clima

As condições meteorológicas alteram segurança, participação e resultados.

Exclusão capacitista

A metodologia pode privilegiar corpos capazes de caminhar longas distâncias.

Intrusão

A presença de grupos, câmaras e gravadores pode alterar os lugares ou invadir a privacidade.

Turismo involuntário

A divulgação de percursos pode atrair visitantes para lugares frágeis ou comunidades que não desejam maior exposição.

Walk-based Practice em Anamnese

Em Anamnese, as práticas de caminhada constituem uma metodologia transversal ao campo Território e podem ligar investigação histórica, observação, arquivo, som, escrita e cartografia.

A caminhada permite que o território seja conhecido através da presença continuada e da repetição.

Land of Serpents

Em Land of Serpents, caminhar pode funcionar como método principal de trabalho de campo.

Os percursos podem investigar:

  • castros;
  • rios;
  • praias;
  • promontórios;
  • caminhos antigos;
  • romarias;
  • fontes;
  • pedras;
  • zonas de transição;
  • fronteiras entre urbanização e paisagem;
  • relações entre território e mito;
  • vestígios arqueológicos;
  • transformações ambientais;
  • narrativas turísticas.

Cada caminhada pode relacionar observação directa, fontes, testemunhos e interpretação artística.

Caminhos de Ophiussa

Caminhos de Ophiussa pode constituir o principal laboratório de walking-based research de Anamnese.

Cada percurso pode incluir:

  • pergunta;
  • contexto histórico;
  • mapa;
  • distância;
  • duração;
  • acessibilidade;
  • instrução de atenção;
  • ponto de escuta;
  • fragmento de arquivo;
  • exercício de escrita;
  • espaço para observação;
  • ligação ao jardim digital.

Os participantes podem contribuir com materiais, desde que exista um sistema claro de consentimento, curadoria e atribuição.

Cadernos interpretativos locais

Os cadernos podem funcionar simultaneamente como guia, caderno de campo e dispositivo de investigação.

Uma estrutura possível:

  1. preparação;
  2. contexto;
  3. percurso;
  4. exercícios;
  5. observação;
  6. recolha;
  7. reflexão;
  8. ligação a materiais digitais.

Cada caderno pode conter percursos com diferentes níveis de esforço e alternativas acessíveis.

Os Nove Mundos da Serpente

Cada mundo pode ser activado através de uma caminhada específica.

O percurso pode relacionar:

  • configuração territorial;
  • símbolo;
  • elemento;
  • mito;
  • atmosfera;
  • gesto;
  • som;
  • pergunta;
  • limiar.

A estrutura mítica orienta a criação artística. Os dados históricos e arqueológicos mantêm identificação própria.

Rio Lethes

A caminhada ao longo do Rio Lethes pode investigar:

  • água;
  • margem;
  • travessia;
  • esquecimento;
  • memória;
  • som;
  • vegetação;
  • alteração da paisagem;
  • história;
  • experiência corporal.

Percursos repetidos em diferentes estações podem produzir um arquivo temporal do rio.

Selene Atwey

Selene Atwey pode funcionar como voz orientadora de caminhadas dedicadas a pedras, fontes, mouras encantadas e paisagem.

A persona permite criar instruções, fragmentos literários e formas de atenção.

A sua condição ficcional deve permanecer explícita dentro do dispositivo.

Linhagem

Caminhadas biográficas podem acompanhar lugares associados a Inácio Perestrello, Helena Dulac e à história familiar.

O percurso pode articular:

  • documento;
  • paisagem;
  • memória;
  • ausência;
  • deslocação;
  • distância;
  • reconstrução histórica.

Galeria das Sombras

Caminhadas de arquivo e memória podem investigar lugares associados a mulheres apagadas ou insuficientemente representadas.

O percurso torna perceptível a ausência de monumentos, placas, arquivos e reconhecimento público.

Torre de Obsidiana

O Porto pode ser percorrido através das suas camadas históricas, literárias, góticas e autobiográficas.

As caminhadas podem cruzar:

  • século XIX;
  • década de 1990;
  • cidade actual;
  • memória;
  • ruína;
  • som;
  • ficção;
  • transformação urbana.

Jardim digital

O jardim pode acolher:

  • mapas;
  • percursos;
  • notas;
  • áudio;
  • fotografias;
  • vídeos;
  • instruções;
  • testemunhos;
  • versões;
  • cadernos descarregáveis;
  • contribuições dos participantes.

A navegação pode acompanhar o movimento territorial sem tentar substituí-lo.

Possíveis projectos

Laboratório Ambulante de Ophiussa

Programa de caminhadas-investigação dedicadas a diferentes temas territoriais.

Caderno de Campo Atlântico

Registo regular de percursos costeiros, marés, sons, alterações sazonais e observações.

Caminhar com Selene

Série de percursos narrativos orientados pela persona Selene Atwey.

Atlas dos Caminhos Desaparecidos

Investigação sobre antigos caminhos interrompidos, esquecidos ou transformados.

Nove Caminhadas da Serpente

Conjunto de nove experiências territoriais ligadas aos Nove Mundos.

Caminhadas do Lethes

Percursos sobre água, travessia, memória e esquecimento.

Biografia de um Rio

Investigação longitudinal que acompanha um curso de água desde a nascente até à foz.

Contra-caminhos de Esposende

Percursos centrados nos lugares excluídos das narrativas turísticas dominantes.

Escola Ambulante

Workshops em que investigação artística, escrita, cartografia e som são ensinados durante o percurso.

Arquivo das Margens

Recolha de histórias, imagens e sons ao longo das margens territoriais.

Caminhadas de Anamnese

Programa público em que cada percurso activa uma camada esquecida do território.

Perguntas orientadoras

  • Por que razão preciso de caminhar para investigar este tema?
  • Quem escolhe o percurso?
  • Quem pode participar?
  • Que pessoas são excluídas pela modalidade escolhida?
  • Que conhecimentos surgem durante o movimento?
  • Que conhecimentos já existiam entre os habitantes?
  • Como altera o corpo aquilo que percebo?
  • Que memórias são activadas pelo lugar?
  • Onde surgem silêncios?
  • Que obstáculos condicionam o percurso?
  • Quem possui e controla este território?
  • Que seres não humanos participam na experiência?
  • Que tecnologias mediam a caminhada?
  • Como será documentado o movimento?
  • O que se perde na documentação?
  • Que diferença existe entre observação e interpretação?
  • Como será tratada a ficção?
  • Que riscos existem?
  • Que alternativas acessíveis serão oferecidas?
  • Como regressará a investigação ao território?
  • A divulgação pode provocar exposição ou dano?
  • Que forma final preserva a natureza situada do percurso?

Autores, artistas e figuras centrais

Tim Ingold — investigou movimento, percepção, linhas, prática e conhecimento produzido através do envolvimento com o ambiente.

Jo Lee Vergunst — desenvolveu, com Ingold, uma abordagem antropológica às formas sociais, perceptivas e culturais de caminhar.

Margarethe Kusenbach — formalizou o go-along como instrumento etnográfico.

James Evans e Phil Jones — sistematizaram a walking interview e a sua relação com mobilidade, lugar e cartografia.

Maggie O’Neill — desenvolveu métodos biográficos, participativos e ligados à justiça social através da caminhada.

Stephanie Springgay e Sarah E. Truman — desenvolveram metodologias críticas de caminhada informadas por pensamento feminista, queer, anticolonial, anti-capacitista e mais-do-que-humano.

Michel de Certeau — analisou o acto de caminhar como prática quotidiana de produção do espaço.

Rebecca Solnit — estudou a história cultural, política e filosófica da caminhada.

Francesco Careri — investigou caminhar como prática estética e forma de leitura e transformação do território.

Richard Long — utilizou caminhada, linha, distância e intervenção mínima como elementos da prática artística.

Hamish Fulton — desenvolveu uma obra centrada na experiência da caminhada e na sua tradução através de texto, fotografia e exposição.

Janet Cardiff — criou áudio-walks que combinam deslocação, som, narrativa e percepção espacial.

Francis Alÿs — utiliza caminhada, gesto, repetição e acção urbana como práticas artísticas e políticas.

Hildegard Westerkamp — desenvolveu a soundwalk e a escuta crítica da paisagem sonora.

Phil Smith — trabalha caminhada, psicogeografia, mitogeografia, performance e counter-tourism.

Bibliografia essencial

  • de Certeau, Michel. The Practice of Everyday Life. 1980/1984.
  • Solnit, Rebecca. Wanderlust: A History of Walking. 2000.
  • Careri, Francesco. Walkscapes: Walking as an Aesthetic Practice. 2002.
  • Kusenbach, Margarethe. “Street Phenomenology: The Go-Along as Ethnographic Research Tool”. 2003.
  • Bassett, Keith. “Walking as an Aesthetic Practice and a Critical Tool”. 2004.
  • Ingold, Tim; Vergunst, Jo Lee, eds. Ways of Walking: Ethnography and Practice on Foot. 2008.
  • Evans, James; Jones, Phil. “The Walking Interview: Methodology, Mobility and Place”. 2011.
  • Büscher, Monika; Urry, John; Witchger, Katian, eds. Mobile Methods. 2011.
  • Pink, Sarah. Doing Sensory Ethnography. 2009/2015.
  • Springgay, Stephanie; Truman, Sarah E. “A Transmaterial Approach to Walking Methodologies”. 2017.
  • Springgay, Stephanie; Truman, Sarah E. Walking Methodologies in a More-than-Human World: WalkingLab. 2018.
  • O’Neill, Maggie; Roberts, Brian. Walking Methods: Research on the Move. 2020.
  • Smith, Phil. Walking’s New Movement. 2015.
  • Heddon, Deirdre; Turner, Cathy. “Walking Women: Shifting the Tales and Scales of Mobility”. 2012.
  • Middleton, Jennie. “Sense and the City: Exploring the Embodied Geographies of Urban Walking”. 2010.
  • Anderson, Jon. “Talking Whilst Walking: A Geographical Archaeology of Knowledge”. 2004.

Resumo para o directório

Walk-based Practice, ou práticas de caminhada como investigação, reúne metodologias em que percorrer um território participa activamente na produção de conhecimento. A caminhada pode activar memória, observação, entrevista, escuta, criação artística e participação comunitária, tornando visíveis as relações corporais, materiais, sociais e políticas que formam um lugar.

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