O Último Visigodo: Contexto Histórico da Transição Visigótica para a Idade Média Ibérica
Introdução
A transição entre o domínio visigodo e o início da Idade Média na Península Ibérica (inícios do século VIII) foi um período turbulento e decisivo. A derrocada do Reino Visigótico em 711, seguida do surgimento de pequenos núcleos cristãos a norte, marca o fim de uma era e o começo de outra. Para compreender este contexto – base histórica do romance O Último Visigodo – é preciso recuar aos povos germânicos (Suevos e Visigodos) que antecederam a invasão islâmica, analisar a queda do reino visigodo (especialmente a batalha de Guadalete) e acompanhar as figuras e lendas em torno de Pelágio (Pelayo) e D. Pedro, duque da Cantábria, cujos descendentes dariam origem ao Reino das Astúrias. Também é fundamental entender a ideologia de neogoticismo – a pretensão dos reinos cristãos medievais de serem os herdeiros legítimos do poder visigótico – e conhecer as fontes históricas, romances, locais e tradições orais que iluminam este período rico em mitos e transformações.
Suevos e Visigodos: origens, cultura, sociedade e religião
Suevos: Os suevos (Suebi) eram um povo germânico originário da região entre os rios Elba e Oder (na atual Alemanha) (Suevos – Wikipédia, a enciclopédia livre). Participaram nas chamadas invasões bárbaras do início do séc. V e estabeleceram-se na Galécia (norte da atual Portugal e Galiza) por volta de 409 d.C., fundando aí um reino próprio (Suevos – Wikipédia, a enciclopédia livre). Este Reino Suevo da Galécia – com capital em Bracara Augusta (Braga) – perdurou até 585, quando foi anexado pelos visigodos (Suevos – Wikipédia, a enciclopédia livre). Os suevos foram, assim, o primeiro reino bárbaro estável na Península, embora governando um território comparativamente pequeno e periférico. A sua sociedade era inicialmente tribal, mas sofreu forte influência romano-cristã local. No início, muitos suevos professavam o cristianismo ariano (herético face à ortodoxia católica), mas acabariam por se converter ao catolicismo em meados do séc. VI – uma conversão atribuída à ação missionária de São Martinho de Braga junto do rei suevo Teodomiro, cerca de 550 (Martín de Braga – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Martín de Braga – Wikipedia, la enciclopedia libre). Essa transição religiosa consolidou a integração dos suevos na cultura hispano-romana. Da cultura sueva restam poucos vestígios materiais, mas sabe-se que deixaram influências na toponímia, em técnicas agrícolas (por exemplo, certos modelos de arado e celeiro ainda comuns no noroeste peninsular) e cunharam moeda própria em cobre ((diacr\355tica 27-VERSAO DIGITAL.pdf)) ((diacr\355tica 27-VERSAO DIGITAL.pdf)). O seu pequeno reino foi marcado por conflitos internos e por fases de coexistência pacífica e de guerra com os visigodos até à incorporação final.
Visigodos: Os visigodos (ramo ocidental dos godos) eram também germânicos, oriundos das estepes a norte do Mar Negro. Após séculos de migrações, saques (famosamente saquearam Roma em 410 sob o rei Alarico) e assentamentos, fundaram um reino primeiro na Gália (Reino de Tolosa) e depois fixaram-se em Hispânia (Hispania visigoda – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Hispania visigoda – Wikipedia, la enciclopedia libre). Por volta de 418 entraram na Península como federados de Roma para combater outros bárbaros (Hispania visigoda – Wikipedia, la enciclopedia libre); mais tarde, após derrotas frente aos Francos (Vouillé, 507), deslocaram o centro do seu reino para a Hispânia, escolhendo Toledo como capital. Ao longo do séc. VI os visigodos unificaram quase toda a península, conquistando o reino suevo em 585 e expulsando os bizantinos do sul no final desse século. A sua sociedade era uma mescla da aristocracia visigótica guerreira com a maioria hispano-romana nativa. Inicialmente havia uma nítida distinção legal e cultural entre godos e romanos, mas com o tempo ocorreu fusão: em 654, o Rei Recesvinto promulgou o Código Visigótico (Lex Visigothorum) aplicável a todos os súbditos, abolindo a dualidade jurídica (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). A monarquia visigótica era eletiva e frequentemente instável, palco de conspirações nobiliárquicas – vários reis subiram ao trono após assassinatos ou golpes, dada a falta de um princípio claro de sucessão hereditária.
Culturalmente, os visigodos adotaram a língua latina e muitos costumes romanos, preservando porém elementos germânicos (como certos adornos e estilos artísticos). Destacam-se artefactos como as fíbulas visigóticas em forma de águia, finamente trabalhadas em metal e pedraria (Hispania visigoda – Wikipedia, la enciclopedia libre) – símbolos do estatuto guerreiro godo (veja-se a fíbula aquiliforme do séc. VI na imagem abaixo). A orivesaria alcançou o auge com tesouros votivos em ouro, caso das coroas dos reis Recesvinto e Suintila descobertas em Guarrazar. Em termos de religião, os visigodos chegaram à Península como cristãos arianos (seguidores de uma doutrina que negava a divindade plena de Cristo), o que os pôs em conflito com a população católica hispano-romana. Contudo, em 589 deu-se a conversão oficial ao catolicismo sob o rei Recaredo, no III Concílio de Toledo – um marco que unificou religiosamente o reino. A partir de então, a Igreja Católica ganhou grande influência na sociedade visigótica: concílios reunindo bispos e nobres tratavam de assuntos civis e eclesiásticos, e a monarquia sacralizou-se (os reis eram ungidos e apresentavam-se como defensores da ortodoxia). Autores eclesiásticos visigóticos, como São Isidoro de Sevilha, contribuíram para a cultura erudita, compilando saberes da Antiguidade (Isidoro escreveu História dos Godos, Vândalos e Suevos e as célebres Etimologias). Apesar de períodos de esplendor no reinado de monarcas fortes (como Eurico, Teodorico I, Leovigildo ou Sisebuto), o Reino Visigótico entrou no séc. VIII fragilizado por lutas internas pelo trono – uma vulnerabilidade fatal perante a ameaça externa que se aproximava do sul.
(image) Figura 1: Fíbula visigótica em forma de águia (séc. VI), encontrada em Alovera, Guadalajara, preservada no Museu Arqueológico Nacional de Madrid (Hispania visigoda – Wikipedia, la enciclopedia libre). Estas peças de ourivesaria germânica, ricamente decoradas com vidro e granadas (técnica cloisonné), eram usadas para prender mantos e simbolizavam poder e identidade guerreira.
A Queda do Reino Visigótico: Guadalete e suas consequências
No ano 711 deu-se o evento que marca o colapso do poder visigótico: a Batalha de Guadalete (também chamada batalha do rio Barbate ou de Jerez). Travada em finais de julho de 711, perto do rio Guadalete (província de Cádiz, sul da Hispânia visigótica), opôs o exército do rei visigodo Rodrigo (Roderico) às forças invasoras muçulmanas comandadas por Táriq ibn Ziyad (Batalha de Guadalete – Wikipédia, a enciclopédia livre). O resultado foi uma vitória decisiva dos invasores e a aniquilação do exército visigodo, ditando “o fim do Reino Visigótico e o início do domínio muçulmano na Península Ibérica” (Batalha de Guadalete – Wikipédia, a enciclopédia livre) que duraria séculos até à Reconquista. As consequências imediatas foram dramáticas: Toledo, a capital, caiu sem grande resistência em 711/712, e em poucos anos quase toda a península estava sob controle dos conquistadores omíadas (a quem os cristãos chamariam genericamente “mouros”). O regime visigótico desmoronou-se – “as principais cidades e centros administrativos da Península foram caindo nas mãos das tropas muçulmanas” aproveitando-se em parte da rede administrativa visigótica existente (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre). A Conquista Muçulmana de Hispânia foi facilitada por divisões internas: as fontes árabes e cristãs posteriores mencionam que Rodrigo enfrentava uma guerra civil pelo trono e foi traído por facções rivais na batalha (Rodrigo – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Rodrigo – Wikipedia, la enciclopedia libre). De facto, após a morte do rei Witiza (710), a sucessão fora disputada entre Rodrigo e Agila II, dividindo a nobreza. A Crónica Mozárabe de 754 – uma fonte quase contemporânea – relata brevemente que Rodrigo usurpou o trono e reinou cerca de um ano, havendo guerra civil e traição de alguns dos seus (Rodrigo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Essa traição é tradicionalmente atribuída a nobres ligados a Witiza (por vezes identifica-se o conde Julião, governador de Ceuta, como o que facilitou a entrada muçulmana em vingança pessoal contra Rodrigo (D. Rodrigo – o adeus ao último rei visigodo e à serpente gigante numa igreja de Viseu – Portugal – SAPO Viagens)). A lenda da Cava ilustra este imaginário: segundo relatos lendários, Rodrigo teria violado Florinda, filha do conde Julião, e este, por desforra, convidou Táriq a invadir a Hispânia (D. Rodrigo – o adeus ao último rei visigodo e à serpente gigante numa igreja de Viseu – Portugal – SAPO Viagens). Ainda que os historiadores modernos encarem esta história com ceticismo, ela evidência a busca de causas morais para a catástrofe – na visão lendária cristã, a queda do reino seria um castigo divino pela corrupção dos godos (temática já presente em crónicas que culpam os pecados dos últimos reis visigodos pela invasão).
A derrota de Guadalete deixou o reino acéfalo: o rei Rodrigo pereceu no combate (ou desapareceu – algumas crónicas sugerem que morreu afogado no rio, identificando o seu corpo apenas pelas sandálias reais, enquanto lendas posteriores dizem que fugiu ferido e viveu como eremita penitente). Uma tradição peninsular posterior afirma mesmo que Rodrigo teria escapado para o norte, morrendo numa cova em Viseu (Portugal), onde o seu túmulo foi venerado e envolto em mitos de serpentes mágicas (D. Rodrigo – o adeus ao último rei visigodo e à serpente gigante numa igreja de Viseu – Portugal – SAPO Viagens) (D. Rodrigo – o adeus ao último rei visigodo e à serpente gigante numa igreja de Viseu – Portugal – SAPO Viagens). De fato, em Viseu existe a secular lenda de D. Rodrigo: conta-se que, refugiado numa gruta após Guadalete, foi engolido por uma serpente gigante, ou metamorfoseado ele próprio em serpente, visão fantasiosa surgida no séc. XVII e relacionada com rituais locais na noite de São João (D. Rodrigo – o adeus ao último rei visigodo e à serpente gigante numa igreja de Viseu – Portugal – SAPO Viagens). Embora fabulosa, essa lenda ecoa a percepção de Rodrigo como um monarca maldito, cujo fim trágico expiaria a culpa pela perdição da Hispânia. Em termos históricos, a liderança visigótica fragmentou-se: alguns nobres foram mortos ou submetidos, outros negociaram com os invasores (caso de Teodomiro, que firmou em 713 um pacto garantindo-lhe governo semi-autónomo em Múrcia), enquanto muitos fugiram para as montanhas do norte, levando consigo relicários e símbolos da realeza goda. Segundo tradições recolhidas mais tarde, um punhado de fiéis teriam resgatado tesouros visigóticos de Toledo – como a mítica Mesa de Salomão – e escondido-os em covis remotos. Uma crónica árabe tardia narra a lenda da Torre de Toledo: um antigo rei visigodo tería encerrado numa torre um cofre secreto com um pergaminho profetizando que, caso fosse aberto, “as figuras pintadas nas paredes (cavaleiros árabes) invadiriam a Espanha, derrubariam os seus reis e subjugariam todo o país” (Rodrigo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Diz a lenda que Rodrigo, ignorando os avisos, quebrou os cadeados da torre e assim quebrou o encanto, precipitando a invasão moura – uma poderosa metáfora literária da imprudência do “último rei dos godos”.
Em poucos anos após Guadalete, os exércitos omíadas (liderados por Táriq e pelo governador Musa ibn Nusair) atravessaram a península de sul a norte, tomando cidades como Mérida, Toledo, Zaragoza e Lugo em campanhas relâmpago (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre). No noroeste da Galiza, a resistência foi efémera; no extremo oriental, Pelágio organizava-se nas montanhas astures. Em 714, a invasão atingiu a antiga capital sueva, Braga, e penetrou na própria Gallaecia. Só as regiões montanhosas mais periféricas (Astúrias, Cantábria e os Pirenéus) escaparam a um domínio muçulmano efetivo nesse momento inicial, devido tanto à dificuldade de acesso como à pouca importância estratégica que os conquistadores lhes atribuíram. A Península transformou-se na nova província islâmica de al-Andalus. A cultura visigótica não desapareceu de imediato: a maioria da população hispano-visigoda permaneceu nas suas terras e adaptou-se ao poder islâmico, muitos convertendo-se ao Islão ou vivendo como cristãos moçárabes sob domínio muçulmano. No entanto, a ordem política visigótica colapsou. Como resume um cronista muçulmano, “os islâmicos apoderaram-se do país… não restando (aos cristãos) senão a rocha onde se refugiou um rei chamado Pelayo com trinta homens” (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre) – uma referência desdenhosa ao reduto montanhês das Astúrias.
Pelágio e D. Pedro de Cantábria: figuras históricas e lendas
Don Pelayo (Pelágio das Astúrias)
Pelágio emergiu, nos anos posteriores à invasão, como líder da rebelião cristã nas Astúrias e é tradicionalmente considerado o fundador do Reino das Astúrias (reinou c.718-737). Contudo, a sua figura mistura história e mito. As principais fontes cristãs sobre Pelayo são as crónicas escritas mais de um século depois, na corte do Rei Alfonso III (fim do séc. IX), em particular a Crónica Albeldense (c.881) e a Crónica de Alfonso III (c.883, nas versões Rotense e Sebastianense) (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Estas obras, produzidas já num reino asturiano consolidado, apresentam Pelayo como um herói fundador em moldes idealizados – e serviram a um propósito político claro: estabelecer continuidade entre o antigo reino visigodo de Toledo e o novo reino asturiano (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). As Crónicas declaram explicitamente que os reis asturianos foram sucessores dos visigodos Leovigildo e Recaredo, sugerindo que Pelayo restaurara a monarquia perdida (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Modernos historiadores veem nisso uma construção ideológica conhecida como neogoticismo, alimentada pelos clérigos moçárabes refugiados a norte e pelos interesses do rei Alfonso III em legitimar a sua dinastia (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Essas fontes tardias retratam Pelayo como um nobre visigodo de origem elevada: a Crónica Albeldense diz que era um espático (guarda pessoal) do rei Wittiza expulso de Toledo antes da invasão (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre); a Crónica Rotense acrescenta o episódio novelesco de Pelayo fugindo de Córdova onde fora mantido refém e regressando secretamente às Astúrias para liderar a revolta, motivado em parte porque o governador mouro de Gijón, Munuza, desejava a sua irmã (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Já a Crónica Sebastianense (versão “culta”) evita essa lenda da irmã e atribui a Pelayo uma ascendência visigótica, fazendo-o filho de Fáfila, suposto duque godo (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Todos estes relatos desenham um personagem que cumpre um arquétipo: Pelayo é pintado como um godo aristocrata, rebelde irreconciliável contra o Islão e campeão da fé cristã, de acordo com os ideais dos cronistas asturianos (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Provavelmente há tanta construção literária quanto facto histórico nessas descrições – tanto que alguns autores chegam a questionar se Pelayo terá sido mesmo visigodo ou antes um chefe local astur-romano (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Note-se que a Crónica Mozárabe de 754 (muito próxima aos acontecimentos) nem sequer menciona Pelayo (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre), sinal de que na visão do cronista moçárabe a rebelião das Astúrias era um acontecimento menor no panorama da época (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Este silêncio lança dúvidas sobre a dimensão real de Pelayo e sugere que os cronistas tardios ampliaram o seu feito retrospectivamente.
Apesar disso, a existência de Pelayo e a vitória em Covadonga (c.722) são aceites pela maioria dos historiadores. Pelayo seria provavelmente um dos nobres (godos ou asturo-romanos) que recusaram submeter-se, refugiando-se com um pequeno grupo nos vales escarpados dos Picos da Europa. Segundo a tradição posterior, em 718 numa reunião em Cangas de Onís, os astures elegeram Pelayo como seu príncipe (ou seja, líder da resistência) (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). Entre 718 e 722, Pelayo enfrentou os governadores mouros locais: primeiro insurgiu-se contra Munuza em Gijón, recusando pagar os tributos (yizia) impostos aos cristãos (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). A repressão islâmica não tardou – o governador enviou expedições punitivas e pediu reforços a Córdova. Em 722, um exército muçulmano comandado por Al-Qama (Alcama) avançou contra os rebeldes, acompanhado, diz-se, pelo bispo Oppas (Oppa), figura que seria um clérigo visigodo colaboracionista e parente de Wittiza (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). A Batalha de Covadonga então travada tornou-se matéria lendária: Pelayo, com apenas 300 combatentes, atraíu os adversários para a montanha de Auseva, junto à cova de Covadonga, onde os números dos omíadas de nada valeram (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). As crónicas asturianas, realçando o elemento divino, afirmam que as tropas sarracenas eram vastíssimas (fala-se hiperbólicamente em 187 000 homens) (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre), mas que Deus concedeu um milagre – as flechas e pedras lançadas pelos mouros contra a caverna santa reverteram contra eles próprios, esmagando-os (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). Pelayo teria bradado a Oppas, citando o Evangelho: “a Igreja do Senhor será como um grão de mostarda e voltará a crescer pela misericórdia de Deus”, recusando render-se (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). No relato, Oppas tenta em vão convencê-lo a submeter-se, lembrando que “recentemente toda a Hispânia unida sob os godos não resistiu ao ímpeto islâmico; que podes tu fazer nestas montanhas?” (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). Mas a fé de Pelayo não vacila e a vitória de Covadonga surge como preordenação divina – «Temos por advogado junto do Pai Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos pode livrar destes pagãos», respondera Pelayo (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). O final da batalha, despido dos adornos miraculosos, parece ter sido uma emboscada bem-sucedida: os astures dizimaram a coluna de Al-Qama; o próprio comandante muçulmano caiu morto, e os sobreviventes bateram em fuga desordenada (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). Perto de Cosgaya, em Liébana, uma derrocada de terras – possivelmente provocada pelos rebeldes – despenhou-se sobre as tropas em debandada, terminando a perseguição (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). Entretanto, Munuza, isolado em Gijón, acabou por abandonar a cidade e tentar retirar-se para a Meseta, mas foi interceptado pelos revoltosos e morto (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre). Covadonga, embora modesta em escala (talvez poucas centenas de combatentes de cada lado, provavelmente berberes destacados localmente (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre)), teve um impacto tremendo: assinalou “a primeira vitória de um contingente rebelde cristão contra as forças muçulmanas” e catalisou uma insurreição geral nas Astúrias (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). Depois deste triunfo, “nasceu por divina providência o Reino das Astúrias” – proclamaria patrioticamente a Crónica Albeldense décadas depois (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre). Pelayo instalou a sua corte em Cangas de Onís, governando os astures livres e lançando as bases daquele que seria o foco da resistência cristã.
Do ponto de vista historiográfico, Covadonga tornou-se um mito fundacional. Fontes muçulmanas posteriores mencionam o episódio de forma depreciativa, minimizando-o: Al-Maqqari (séc. XVII) regista o dito de que os generais de Al-Qama desistiram do combate final porque “não passavam de trinta asnos selvagens entrincheirados nas penhas, que mal poderiam fazer?” (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). Para os cronistas islâmicos, Pelayo não restaurou reino nenhum – a crónica de al-Razi (citada por al-Maqqari) diz que Pelayo terminou sitiado com trinta homens e dez mulheres, sobrevivendo apenas do mel das colmeias das rochas, pelo que os muçulmanos acabaram por o desprezar e deixá-lo entregue à sua sorte, considerando-o inofensivo (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). Já as crónicas cristãs altomedievais fizeram o oposto: exaltaram Covadonga como o início da Reconquista e até “a salvação de Hispânia” (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). Séculos mais tarde, autores e clérigos glorificariam Pelayo como “o novo David” que derrubou o gigante com a ajuda divina, ou comparariam Covadonga a um novo Numância, símbolo da resistência heróica. Modernamente, alguns historiadores questionaram partes desta história – José Luis Corral chegou a supor que Covadonga nunca ocorreu tal como descrita e foi invenção dos cronistas de Alfonso III (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre) –, mas a posição predominante (e evidências arqueológicas recentes de destruição militar no local) apoia a existência do confronto (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). O que é geralmente rejeitado é a ideia de que ali se “restaurou” o reino visigodo: em vez disso, Covadonga representou um levante local de povos asturo-cântabros habituados a lutar por independência (já o faziam contra romanos e visigodos) (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre), agora contra os novos conquistadores islâmicos. Pelayo, nessa perspetiva, não reinstaurou a antiga monarquia de Toledo, mas inaugurou algo novo: um pequeno enclave autónomo cristão, de base tribal e montanhesa, sem pretensão imediata de reconquistar a península inteira. Como sintetiza o medievalista Ignacio Ruiz de la Peña, Pelayo e Covadonga tiveram papel determinante no nascimento de um novo núcleo de poder a norte (gérmen dos futuros reinos de Leão e Castela), mas “de modo nenhum se restaurou o reino godo” nesses acontecimentos (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre). A liderança de Pelayo, em vida, foi provavelmente limitada – “não comparável à dos reis visigodos”, note-se, pois o seu poder efetivo restringia-se a um punhado de vales montanheses (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre). Ainda assim, a sua dinastia perdurou: à sua morte (737), sucedeu-lhe o filho Favila, o qual, segundo as crónicas, teve um fim prematuro e lendário – morreu estraçalhado por um urso durante uma caçada de prova de bravura (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre). Pelayo foi sepultado na santa cova de Covadonga, tornando-se objeto de veneração; até hoje, a Santa Cova com a imagem de Nossa Senhora de Covadonga (La Santina) e o túmulo de Don Pelayo são um santuário nacional (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre).
(image) Figura 2: A Santa Cova de Covadonga, nas Astúrias, suposto refúgio de Pelayo durante a batalha de 722. No interior da gruta (iluminada ao centro) encontra-se um altar e a imagem da Virgem de Covadonga, padroeira das Astúrias. Este local tornou-se destino de peregrinação, especialmente após o século XVII, e símbolo do mito fundacional da Reconquista. (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre)
Pedro, Duque da Cantábria
Paralelamente a Pelayo, outra figura de relevo neste período é Dom Pedro, Duque da Cantábria (Petrus, dux Cantabriae), um nobre godo que teria liderado a resistência na região da Cantábria e cujas linhagens se entrelaçaram com a família de Pelayo, assegurando a continuidade dinástica do novo reino cristão. Embora menos famoso nas lendas, D. Pedro é central na ideia de que sobreviventes visigodos se uniram aos rebeldes do Norte. As fontes coevas são escassas, mas a Crónica Albeldense menciona-o ao traçar a genealogia real: “Afonso, genro de Pelayo, reinou 19 anos. Este foi filho de Pedro, duque da Cantábria; e quando veio para as Astúrias, tomou por esposa Ermesinda, filha de Pelayo, por ordem de Pelayo” (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre). Ou seja, Alfonso I (futuro terceiro rei das Astúrias) era filho de Pedro e casou com a filha de Pelayo. Essa aliança matrimonial foi provavelmente deliberada, uma vez que durante as primeiras décadas do reino asturiano o poder consolidava-se por pactos familiares entre as elites do Norte (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre). A união de Ermesinda (filha de Pelayo) com Afonso (filho de Pedro) simboliza a fusão de duas lideranças: a astur (de Pelayo) e a visigodo-cântabra (de Pedro) (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre). De fato, quando o rei Favila (filho de Pelayo) morreu sem deixar herdeiro varão, Alfonso, genro de Pelayo e membro da casa ducal da Cantábria, ascendeu ao trono em 739 – trazendo para a dinastia real asturiana o sangue dos antigos godos (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre). Os cronistas enfatizam que a partir daí a Casa da Cantábria se tornou uma das mais poderosas no Reino das Astúrias (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre), entrelaçando-se totalmente com os destinos deste (os descendentes de Pedro migraram das suas terras riojanas para a Cantábria e Astúrias à medida que as planícies a sul eram despovoadas durante a guerra) (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre).
Mas quem foi, afinal, este duque Pedro? A historiografia moderna esforça-se por preencher os vazios. Pedro seria um aristocrata visigodo de alta estirpe: há especulações genealógicas (ex. Christian Settipani) de que poderia descender do rei Leovigildo (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre). Embora tais ligações não sejam comprovadas, sabe-se que as crónicas asturianas do séc. IX clamavam que os reis de Astúrias provinham “do sangue de Leovigildo e Recaredo” (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre) – claro reflexo do neogoticismo referido. Na prática, Pedro aparece-nos como o governador (dux) de Cantábria durante os últimos anos visigóticos. A Cantábria era então uma província montanhosa no norte, com centro em Amaya (na atual Burgos). Quando se deu a invasão muçulmana, essa região também foi atingida: em 712, Táriq ibn Ziyad conquistou e arrasou Amaya (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre), e em 714 Musa repetiu o saque, forçando Pedro e os seus partidários a recuarem para ocidente, “refugiando-se para lá da cordilheira” Cantábrica (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre). Segundo crónicas muçulmanas, Amaya caiu e a via ficou aberta para o norte, mas Pedro escapou. É aqui que as histórias de Pelayo e Pedro convergem: Pedro ter-se-ia aliado a Pelayo nas Astúrias para combater o inimigo comum. De acordo com essa tradição, depois da queda de Amaya, os “godos refugiados do duque Pedro” juntaram-se ao reduto de Pelayo (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre). Há menção de que ambos os líderes se encontravam no ano 712 no Castelo de Tedeja (Burgos), usando-o como baluarte defensivo frente aos invasores (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre). A lenda local (registada pelo monge beneditino Gregório de Argaiz no séc. XVII) conta que o castelo de Tedeja foi “o último bastião” dos godos de Pedro, onde se protegeu inclusive o suposto panteão real visigodo – os túmulos dos reis de Toledo teriam sido transladados para uma ermida nas proximidades, Santa María de los Reyes Godos, para os salvar da profanação (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre). Seja como for, a coordenação entre Pedro e Pelayo resultou em ações conjuntas: Pedro teria libertado a zona de Gijón do domínio mouro (derrotando o governador local, Munuza) e, nessa conjuntura, formalizou-se a aliança através do casamento já referido entre seus filhos (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre). Esta parceria política e familiar cimentou a resistência cristã do Noroeste. Em 722, Pedro possivelmente apoiou Pelayo em Covadonga – algumas narrativas chegam a atribuir a Pedro um papel numa batalha subsequente contra os muçulmanos. Há registos de uma suposta Batalha de Cillaperlata em 726, perto de Tedeja, onde Pedro e Pelayo teriam derrotado uma expedição moura, atravessando pela primeira vez a ofensiva para sul do rio Ebro (chamada “batalha do Día Negro”) (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre), embora isto pareça pertencer mais à crónica lendária do que à história confirmada.
Após a consolidação do reino asturiano, a memória de D. Pedro perdura sobretudo através de seus descendentes na monarquia. O seu filho, Alfonso I “o Católico”, reinou de 739 a 757, expandindo consideravelmente o reino (como veremos adiante). Netos e bisnetos de Pedro reinaram também (Fruela I, Ramiro I, etc.), pois formaram a linhagem cognominada Casa da Cantábria que, unida à linha de Pelayo, produziu os futuros reis de Leão, Castela, Navarra, Aragão e até de Portugal (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre). Assim, pode dizer-se que Pedro foi o antepassado de boa parte da nobreza cristã medieval ibérica (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre). Esta insistência genealógica novamente reflete o neogoticismo: como nota um historiador, “as Crónicas declaram que os reis astures são descendentes de Leovigildo e Recaredo… e a historiografia moderna coincide que tais afirmações fazem parte do paradigma político do neogoticismo, ao serviço do prestígio de Alfonso III” (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Por outras palavras, ao traçar a árvore de Pedro até reis visigodos, pretendia-se legitimizar os novos reis cristãos como herdeiros naturais da Hispânia visigótica.
Em suma, Pelayo encarna a liderança insurgente local e carismática, enquanto Pedro de Cantábria personifica a continuidade da elite visigótica no novo contexto. Ambos os nomes se entrelaçam: um genro do outro, fundindo sangue godo e astur. A aliança de Pelayo e Pedro representa, simbolicamente, a fusão de dois mundos na génese do reino cristão do Norte – os remanescentes do velho reino e os povos autóctones insubmissos – daí o título proposto O Último Visigodo, aludindo talvez a D. Pedro como o último grande nobre godo, cujos feitos e descendência permitiram a sobrevivência de parte do legado visigótico após 711.
Surgimento do Reino das Astúrias: contexto, cronologia e narrativas lendárias
O Reino das Astúrias (718–924) foi a primeira entidade política cristã estabelecida na Península após a capitulação do Reino Visigótico (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre) (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre). Nasceu em circunstâncias precárias, a partir de um reduto nas montanhas asturianas, e gradualmente evoluiu de um domínio local para um reino estruturado que reivindicava a restauração de Hispânia cristã.
Contexto histórico: Depois de Covadonga (722), Pelayo consolidou um pequeno território livre nas Astúrias ocidentais, com capital em Cangas de Onís. Esta entidade inicial era diminuta e cercada por terras dominadas pelos invasores. Pelayo governou até cerca de 737, garantindo a sobrevivência do enclave. Seguiu-se Favila (737–739), cujo reinado breve terminou de forma trágica (a já mencionada morte pelo urso) (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre). Com a ascensão de Alfonso I em 739, o reino ganhou ímpeto. Alfonso I (filho de Pedro de Cantábria e genro de Pelayo) aproveitou a instabilidade em al-Andalus durante as guerras civis entre árabes e berberes (quebra da autoridade central omíada por volta de 740) e lançou incursões para sul. Entre 740 e 750, as crónicas narram que Alfonso I e seu irmão Fruela patrulharam a Galiza e as terras até ao rio Douro, evacuando e recolhendo populações cristãs dispersas para território seguro a Norte. Isto resultou no chamado “deserto do Douro”, uma zona tampão despovoada entre o minúsculo reino asturiano e al-Andalus (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre) (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre). Embora a dimensão desse despovoamento estratégico seja debatida por historiadores atuais (há quem negue um êxodo tão completo, apontando evidências de continuidade toponímica e biológica na região) (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre), é inegável que a fronteira entre cristãos e muçulmanos estabilizou, na segunda metade do séc. VIII, sensivelmente ao longo das montanhas a norte da Meseta. Ao mesmo tempo, o reino asturiano foi-se expandindo para oeste (Galiza) e leste (região da Cantábria), integrando diferentes povos do Norte ibérico sob liderança dos reis de Cangas de Onís.
Cronologia e reis principais: Após Alfonso I (m. 757), sucederam-lhe os filhos Fruela I (757–768) – que fundou Oviedo e lutou contra bascos – e várias outras figuras até chegar a Alfonso II “o Casto” (791–842), que transferiu a capital para Oviedo e se destacou por contactar o Império Carolíngio e descobrir (segundo a tradição) o túmulo do Apóstolo Santiago de Compostela em 813, impulsionando assim a peregrinação jacobeia. No entanto, estes desenvolvimentos vão além do foco temporal imediato. Importante é notar que já durante o séc. VIII o reino asturiano se via como continuador da Hispânia visigótica: Alfonso II referia-se a si mesmo como princeps e até imperator de toda a Hispânia, numa clara reivindicação de autoridade sobre os demais cristãos. O reino manteve-se relativamente isolado nas montanhas enquanto o poder muçulmano era hegemónico a sul, mas a sua simples existência foi crucial – representava um pólo alternativo de poder e preservava tradições visigodas (leis, religião) em território não submetido ao Islão.
Narrativas lendárias e lendárias associadas: Além das lendas já mencionadas (Covadonga, Pelayo, Rodrigo), o período de formação do reino asturiano gerou ou absorveu outras histórias míticas:
- Lendas de fundação miraculosa: A crónica Albeldense, ao glorificar Covadonga, chega a afirmar que “após essa batalha, nasceu por providência divina o Reino das Astúrias” (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre). Essa frase quase mística eleva a criação do reino a um desígnio celestial. O imaginário cristão posterior adornou Covadonga com a intervenção da Virgem Maria – a presença da estátua da Virgem na cova, se não histórica para Pelayo, tornou-se central no culto; atribuiu-se a proteção da Santina o desfecho vitorioso (no séc. XVII, a lenda dizia que uma luz brilhante surgiu na cova encorajando os cristãos). A Cruz de Pelayo – um tosco crucifixo de madeira de carvalho que, segundo a tradição, Pelayo elevou no início da batalha pedindo a ajuda divina – converteu-se em relíquia nacional (a versão atual, a Cruz da Vitória, foi recamada a ouro no séc. X e figura na bandeira asturiana até hoje). Assim, mitos religiosos e patrióticos proliferaram: Pelayo visto como instrumento de Deus para “fazer renascer a Igreja como o grão de mostarda” (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre), a montanha de Covadonga comparada à fortaleza bíblica de Sião, etc.
- Heróis e mártires locais: Alguns companheiros de Pelayo entraram no folclore. Por exemplo, um personagem chamado D. Oppas (o bispo traidor) passou a ser vilão das narrativas – a sua queda em Covadonga é descrita como punição divina pela apostasia. Favila, morto pelo urso, tornou-se numa espécie de aviso moral (excesso de confiança acarreta desgraça). Em contrapartida, Santo Toríbio de Liébana (século V, cujas relíquias estavam num mosteiro de Liébana, Cantábria) ganhou importância como protetor; e mais tarde, monjes como Beato de Liébana (séc. VIII) infundiram o reino de zelo apocalíptico e ideologia anti-moura, compondo obras que inspiravam a luta cristã.
- Liga com a Monarquia Goda: Como vimos, genealogias e crónicas exageravam a continuidade. A lenda de que Pelayo era sobrinho de Rodrigo (às vezes aparece em crónicas tardias) ou filho de Fáfila, um duque morto pelos mouros antes de 711, visava diretamente colar Pelayo à aristocracia goda. Até lendas externas foram incorporadas: uma crónica moçárabe confundiu Pelayo com “um asno selvagem da Galiza chamado Pelayo” que se levantou no tempo da invasão (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre) – curiosamente, esta metáfora do “asno bravio” foi reinterpretada positivamente nas Astúrias como símbolo da indomabilidade do povo astur.
- Profecias e sonhos: Uma lenda tardia conta que antes da batalha um eremita chamado D. Urbano profetizou a Pelayo o triunfo e a futura grandeza dos seus descendentes. Outra versão diz que o próprio Pelayo sonhou com o Apóstolo Santiago encorajando-o (paralelo ao que se contaria de Carlos Magno em França). Tais elementos míticos reforçavam o sentido de missão do novo reino.
Por outro lado, no reverso da moeda, a cultura oral muçulmana também gerou narrativas sobre esses começos: do lado islâmico, a perda de al-Ándalus começaria séculos depois igualmente envolta em presságios e lendas, espelhando em parte as cristãs. É interessante notar que, no século X, quando o califa cordovês Abderramão III atacou e arrasou regiões da Cantábria e Astúrias, os cronistas muçulmanos mencionaram a “tomada do Castelo de Pedro” e a “expulsão dos descendentes de Pelayo”, como se fechassem um ciclo histórico aberto com Covadonga.
Resumindo, o Reino das Astúrias firmou-se lentamente: de um protetorado quase tribal sob Pelayo, foi ganhando território e complexidade administrativa, especialmente a partir de meados do séc. VIII com a integração da Galiza e Cantábria e a fundação de vilas (Oviedo, por exemplo). Apesar das dimensões exíguas e de inicialmente ser um poder algo difuso (durante décadas o controle real sobre as várias regiões era frouxo e precisava de reforço via alianças matrimoniais, como ilustrado pelo casamento de Ermesinda com Alfonso (Reino das Astúrias – Wikipédia, a enciclopédia livre)), por volta do ano 800 o Reino das Astúrias já se via como herdeiro legítimo da Hispânia goda. Essa noção de legitimidade viria a ter consequências importantes nos séculos seguintes, alimentando a chamada Reconquista.
Neogoticismo: a ideia da continuidade visigoda nos reinos cristãos medievais
Chama-se neogoticismo (ou goticismo) à ideologia e mito histórico segundo os quais os reinos cristãos medievais da Península Ibérica seriam continuadores diretos do antigo reino visigótico. Essa noção surgiu justamente no Reino das Astúrias, nos séculos VIII-IX, e manteve-se influente durante toda a Idade Média hispânica, refletindo-se em crónicas, documentos régios e na própria propaganda política.
No contexto asturiano, o neogoticismo manifestou-se de várias formas:
- Crónicas astur-leonesas: Como vimos, obras como a Crónica Albeldense e a Crónica de Alfonso III esforçaram-se por estabelecer uma linha de sucessão ininterrupta entre os últimos reis visigodos e os reis astures (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Alegava-se que Pelayo era de sangue real visigodo e que com ele renasceu o reino godo em versão reduzida. Frases como “os nossos reis descendem de Leovigildo” abundam nessas narrativas (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre). Mais tarde, já no séc. XI-XII, crónicas leonesas como a Crónica de Sampiro e a Crónica Silense reafirmaram essa continuidade, chegando a traçar árvores genealógicas que ligavam a monarquia astur-leonesa a agnados visigodos e até a personagens bíblicas. Por exemplo, a Crónica Silense (c.1115) apresenta Alfonso VI de Leão como herdeiro de uma linha régia desde os godos até si (Reinos e imperio: la Historia legionensis (llamada silensis) y la …), e celebra a tomada de Toledo em 1085 como a restituição do trono de Wamba.
- Títulos e simbologia régia: Os reis asturianos e, depois, leoneses adotaram titulaturas evocativas. Alfonso II e seus sucessores usaram por vezes o título de Princeps ou Rex Hispaniae (Príncipe/Rei de Hispânia), reclamando a autoridade sobre toda a terra dos antigos godos. Havia também o uso do título de Imperator (imperador) pelos reis leoneses do séc. X-XI (Ramiro II, Ordonho III, Afonso VI), implicando ser o imperador dos godos ou de toda a Espanha. Um caso notável: em 910, quando do translado do poder de Oviedo para Leão, as três coroas resultantes da divisão do reino (Leão, Astúrias e Galiza) rapidamente se reunificaram, e o rei Garcia I de Leão intitula-se Totius Hispaniae Rex. A simbologia visigótica também foi recuperada: os reis de Astúrias e Leão promoveram a veneração de santos visigóticos (São Isidoro, cujas relíquias foram transladadas para Leão em 1063) e preservaram leis visigodas (o Liber Iudiciorum continuou a ser a base legal, conhecido em castelhano medieval como Fuero Juzgo). Terão mesmo reutilizado insígnias reais visigodas – há referências à mítica Mesa de Salomão, supostamente levada para Oviedo, e à Cruz da Vitória como sinal de continuidade (dizia-se que a Cruz de Pelayo continha um cravo da Vera Cruz, alinhando a monarquia astur com a dos primeiros imperadores cristãos).
- Continuidade territorial e missão reconquistadora: O neogoticismo impulsionava a ideia de Reconquista como restauratio do reino perdido. Ou seja, a reconquista cristã não era vista como mera expansão territorial, mas sim como um dever de retomar a terra usurpada e recompor a unidade visigótica. Essa ideia aparece explícita em documentos do séc. X: as crónicas monásticas de Alfonso III dizem que, após Covadonga, a Hispânia começou a ser libertada “do jugo dos ismaelitas” e que a vitória de Clavijo (mítica batalha de 844 onde Santiago Matamoros teria ajudado Ramiro I contra os mouros) significou que “os reis das Astúrias deixaram de pagar tributo aos mouros e passou a haver esperança de restaurar toda a Hispânia”. Embora haja muita lenda aqui (Clavijo provavelmente não ocorreu como tal), o espírito é claro. De igual modo, a descoberta do túmulo de Santiago em Compostela foi rapidamente integrada nesse discurso: Santiago, padroeiro de Espanha, teria decidido reaparecer para guiar os cristãos à vitória final, ligando-se a uma suposta promessa que o último rei visigodo, Rodrigo, fizera de peregrinar a Compostela (promessa não cumprida pela invasão, segundo uma lenda).
O conceito de neogoticismo manteve-se nos reinos sucessores. Nos séc. XIII-XV, já sob a Coroa de Castela, continuava-se a exaltar “las Españas de los godos” e a monarquia castelhana gostava de se apelidar de “Casa de los Godos”. Havia um claro orgulho em ser descendente dos godos, considerados bravos e católicos. Ironia das ironias, até no al-Andalus tardio se usou o termo: alguns reis de taifas muçulmanos de Toledo reivindicavam ser netos de Witiza para agradar às populações moçárabes; e os Nasridas de Granada, já no séc. XIV, chamavam depreciativamente “godos” aos castelhanos inimigos, reconhecendo implicitamente neles a herança visigótica.
Em síntese, o neogoticismo serviu como um mito legitimador da Reconquista: propagava-se que os pequenos reinos cristãos do Norte não eram entidades novas, mas sim a continuação legítima do reino de Toledo, temporariamente interrompido pela invasão moura mas destinado a ressurgir. Este mito deu coesão ideológica aos esforços militares e políticos para a reunificação da Hispânia sob domínio cristão. Como refere um estudo moderno, “los historiadores coinciden en que estas declaraciones (das crónicas) constituyen un paradigma llamado neogoticismo, seguramente avivado por influencias mozárabes, que – real ou ficticio – respondía muy bien a los intereses políticos y al reforzamiento del prestigio personal de Alfonso III” (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Ou seja, independentemente da sua veracidade histórica, a ideia do reino godo restaurado era extremamente útil ao projeto dos reis astur-leoneses e marcou indelevelmente a cultura política medieval ibérica.
Legado e Património: locais históricos, achados e tradições orais
Este período de transição legou à posteridade não apenas textos e mitos, mas também sítios arqueológicos e tradições populares que ainda hoje evocam a época do “último visigodo”:
- Covadonga (Astúrias): O santuário de Covadonga, incluindo a Santa Cova e a Basílica de Santa Maria (construída no séc. XIX), é o local emblemático da vitória de Pelayo. Na caverna sagrada, onde segundo a lenda os combatentes de Pelayo resistiram, arde perpetuamente uma lamparina e veneram-se os túmulos de Pelayo, da sua esposa e da sua irmã. Todos os anos, milhares de visitantes (especialmente asturianos) homenageiam Don Pelayo e Nossa Senhora de Covadonga, numa tradição que reforça a continuidade do mito. Em 1918, nas comemorações dos 1200 anos da batalha, Covadonga foi centro de romarias nacionais que cimentaram o seu estatuto lendário.
- Castro de Tedeja (Burgos): As ruínas do castelo de Tedeja, perto de Trespaderne, embora pouco conhecidas, estão associadas pelas tradições locais à figura de Pedro de Cantábria. Arqueólogos identificaram ali ocupações no início do séc. VIII que podem corresponder a uma fortificação tardorromana reutilizada pelos godos (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre). A lenda do transporte dos túmulos reais visigodos para a ermida de Santa María de los Reyes Godos, nas imediações, torna este sítio singular. Hoje resta apenas a base da torre, mas iniciativas regionais têm procurado divulgar Tedeja como “o último reduto visigodo”.
- Peña Amaya (Palência): Este local, uma meseta rochosa de grande visibilidade estratégica, foi efetivamente a capital do Ducado da Cantábria. Amaya conserva ruínas de fortificações, e escavações revelaram presença visigótica significativa (cerâmicas, moedas até ao reinado de Rodrigo). É um símbolo do confronto final: foi saqueada por Táriq e Musa (Pedro de Cantabria – Wikipedia, la enciclopedia libre). Atualmente, a Peña Amaya é um parque arqueológico acessível a visitantes, com painéis explicativos sobre os duques visigodos e a queda de Amaya.
- Toledo: Antiga capital visigótica, Toledo guarda importantes vestígios. O Museu de Santa Cruz exibe coroas e cruzes visigodas (parte do Tesouro de Guarrazar, descoberto em 1858 nas cercanias). Nas igrejas de Santa María la Blanca e San Román há colunas e relevos reaproveitados de templos visigóticos. E junto à catedral existe o Museu dos Concelhos Visigodos e da Cultura Moçárabe, instalado na igreja de San Vicente, com achados como lápides e capitéis visigodos. Toledo alimenta também lendas: a Mesa de Salomão (suposta relíquia visigoda) e a Câmara Secreta de Rodrigo na Torre de Hércules, cuja história já mencionámos (Rodrigo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Essas lendas toledanas continuam vivas em roteiros turísticos e na literatura local.
- Braga (Portugal): Sede do reino suevo, Braga possui importantes marcos do período: a capela de São Frutuoso de Montélios (século VII), de estilo pré-românico visigótico, atesta a arquitetura religiosa da época. O sítio arqueológico de Dume guarda restos do mosteiro fundado por São Martinho, apóstolo dos suevos, onde se realizaram os concílios que converteram o reino suevo ao catolicismo. O Museu Regional de Arqueologia D. Diogo de Sousa em Braga expõe moedas suevas, fíbulas germânicas e outros artefactos dessa era. A tradição local atribui a Braga o título de “Roma dos Suevos” e celebra São Martinho de Tours e São Martinho de Dume como patronos.
- Viseu (Portugal): A igreja de São Miguel do Fetal, em Viseu, guarda o alegado túmulo de D. Rodrigo, o último rei visigodo, conforme a lenda portuguesa da sua fuga e morte na cova da serpe (D. Rodrigo – o adeus ao último rei visigodo e à serpente gigante numa igreja de Viseu – Portugal – SAPO Viagens) (D. Rodrigo – o adeus ao último rei visigodo e à serpente gigante numa igreja de Viseu – Portugal – SAPO Viagens). O túmulo tem uma inscrição que identifica ali “Rodrigo, último rei dos godos” (D. Rodrigo – o adeus ao último rei visigodo e à serpente gigante numa igreja de Viseu – Portugal – SAPO Viagens). Na noite de São João, segundo o folclore viseense, uma serpente sai de um buraco junto ao altar-mor e ronda a igreja – reminiscência do mito da serpente gigante associada a Rodrigo (D. Rodrigo – o adeus ao último rei visigodo e à serpente gigante numa igreja de Viseu – Portugal – SAPO Viagens). Ainda que os historiadores duvidem da autenticidade do sepulcro (as fontes primárias indicam que Rodrigo morreu em combate), este local tornou-se um curioso ponto de convergência entre história e lenda, atraindo visitantes, sobretudo espanhóis curiosos pela lenda visigótica (D. Rodrigo – o adeus ao último rei visigodo e à serpente gigante numa igreja de Viseu – Portugal – SAPO Viagens) (D. Rodrigo – o adeus ao último rei visigodo e à serpente gigante numa igreja de Viseu – Portugal – SAPO Viagens).
- Outros sítios visigóticos: Vários monumentos espalhados pela Península evocam a presença visigoda pouco antes da invasão islâmica. Entre os mais notáveis estão as igrejas rurais moçárabes e visigóticas: San Juan de Baños (Palência, 661 d.C., construída pelo rei Recesvinto) – considerada a mais antiga igreja cristã da Espanha em uso contínuo; Santa Comba de Bande (Ourense) e Santa Eulalia de Bóveda (Lugo) – templos suevo-visigóticos; Basílica de Recópolis (Guadalajara) – ruínas da cidade fundada pelo rei Leovigildo em 578; Santa Lucía del Trampal (Cáceres) – pequena igreja visigótica; e em Portugal, além de Montélios, a própria Sé de Idanha-a-Velha (antiga Egitania) conserva pedras visigóticas. Muitos desses locais são envoltos em lendas – por exemplo, Recópolis tem tesouros encantados guardados por mouros, segundo contos populares.
- Tradições orais e festividades: Nas Astúrias, a figura de Pelayo é celebrada em monumentos (estátuas equestres em Gijón e Oviedo) e canções. Existe até um hino asturiano não-oficial chamado Aquí estamos, Pelayo entoado em algumas festas. No dia de Covadonga (8 de setembro, festa da Virgen de Covadonga), os asturianos homenageiam tanto a Virgem como Don Pelayo, considerado servo dileto dela. Em Cangas de Onís, realiza-se uma representação histórica anual da eleição de Pelayo como rei. Na Cantábria, as vitórias de Pedro contra os mouros aparecem em lendas locais: fala-se de campanas (sinos) que tocaram sozinhas anunciando a retirada dos mouros após a batalha de Covadonga. E uma tradição no norte de Burgos afirma que “no Día Negro os cantábricos vingaram Guadalete”, memória nebulosa do suposto recontro de 726.
- Lendas do sul peninsular: Curiosamente, o mito de Rodrigo e da Cava deixou fortes marcas também em Toledo, Córdoba e no sul. Lendas andaluzas contam que, na noite antes de Guadalete, estranhos prodígios ocorreram: o rio Guadalquivir teria corrido sangue, e o fantasma do rei Vitiza alertou Rodrigo de que este perderia o reino por seus pecados – narrativas moralizantes recolhidas por autores como Rodrigo Jiménez de Rada no séc. XIII. Em Córdoba, dizia-se que a esposa viúva de Rodrigo, Egilona (que realmente existiu e casou depois com o emir Abd al-Aziz), chorava todas as noites numa torre pelos “dominios perdidos de su señor Don Rodrigo”, até se converter ao Islão. Tais lendas, embora posteriores, mostram a persistência da figura do “último rei visigodo” no imaginário popular de várias regiões.
Este património tangível e intangível permite hoje reconstituir, em parte, o ambiente daquele longínquo início do séc. VIII. Ele fornece subsídio valioso para a ficção histórica: cenários autênticos, objetos reais e crenças da época que podem enriquecer a narrativa de O Último Visigodo, conferindo-lhe cor local e profundidade temporal.
Fontes e Recomendações de Leitura
Para uma compreensão mais aprofundada deste período, é recomendável consultar tanto obras acadêmicas quanto fontes primárias e materiais culturais (romances, documentários) que abordam os visigodos, a invasão muçulmana e o nascente reino asturiano. Segue-se uma lista comentada de referências úteis – muitas delas disponíveis online ou em bibliotecas digitais:
Fontes Primárias Medievais:
- Crónica Mozárabe de 754 (também chamada Continuatio Hispana): crónica latina anónima escrita em Toledo por volta de 754, oferece um relato próximo da conquista islâmica e menciona a queda do reino visigodo (Rodrigo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Edição recomendada: Crónica Mozárabe de 754, traduzida e comentada por José Eduardo López Pereira.
- Crónica Albeldense (881) e Crónica de Alfonso III (c.883): textos escritos na corte asturiana que relatam a origem do Reino das Astúrias e eventos como Covadonga, misturando história e lenda (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Disponíveis em tradução castelhana no compilado Crónicas Asturianas (coleção Españoles Eminentes, ed. de Juan Gil).
- Corpus Pelagianum: conjunto de documentos medievais asturianos compilados no séc. XII pelo bispo Pelayo de Oviedo, incluindo genealogias de Pelayo e Alfonso I. Contém miniaturas interessantes, como uma ilustração do séc. XII representando Pelayo em Covadonga (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre).
- Concílios Visigóticos e Legislação: atas dos Concílios de Toledo, especialmente o IV Concílio (633) e o XVII (694), dão contexto do reino visigodo pré-queda. O Liber Iudiciorum (Código Visigótico) fornece visão da sociedade visigoda em 654. Edições: há traduções para espanhol em Concilios Visigóticos e Hispano-Romanos (Colección España Cristiana).
- Crónica de Idácio de Chaves (século V): importante para o período suevo (Idácio narra a chegada dos suevos em 409 e eventos até 468) (Hispania visigoda – Wikipedia, la enciclopedia libre). Disponível em português na coleção Historiadores de Portugal (Imprensa Nacional).
- História dos Godos, Vândalos e Suevos de Isidoro de Sevilha (m.636): obra breve que resume a história dos visigodos até Suíntila, escrita por um dos maiores eruditos da época visigótica. Edição bilingue latim-espanhol publicada pela Miraguano (Madrid).
- De virtutibus Sancti Martini e De Correctione Rusticorum de São Martinho de Braga: textos do séc. VI que refletem a conversão sueva e os costumes pagãos persistentes na Galécia. Importantes para compreender a religião sueva e a ação do “Apóstolo dos Suevos” (Martín de Braga – Wikipedia, la enciclopedia libre). Traduções em português podem ser encontradas em revistas da Faculdade de Teologia de Braga.
Estudos Académicos:
- Roger Collins, Visigothic Spain 409–711 (Blackwell, 2004) – Obra de referência em inglês, cobrindo detalhadamente a história política, social e religiosa da Hispânia visigótica. Collins também analisa criticamente as fontes da conquista muçulmana (Rodrigo – Wikipedia, la enciclopedia libre).
- Luis A. García Moreno, España romana y visigoda (Colección Historia de España de Menéndez Pidal, 1989) – Síntese em espanhol de um especialista, inclui capítulos aprofundados sobre o reino suevo, a monarquia visigoda e a transição do séc. VIII. O autor defende a historicidade de Covadonga, qualificando-a como “escaramuça de Covadonga, triunfo local da rebelião e afianzamento do caudilho carismático Pelayo, assim como da aliança entre visigodos refugiados e aristocracia indígena” (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre).
- José Orlandis, La vida en España en tiempo de los godos (Ed. Rialp, 1988) – Livro que reconstitui aspectos da vida quotidiana, instituições, arte e cultura na época visigótica. Útil para detalhes de vestuário, fortificações, cerimónias, etc.
- E. A. Thompson, The Goths in Spain (Clarendon Press, 1969) – Obra clássica (em inglês) sobre a história dos visigodos na Hispânia, da chegada à queda. Embora um pouco datada em interpretações, permanece valiosa pela erudição e pela forma vívida como retrata a decadência final do reino visigodo.
- Paulo de Assunção, O Reino Visigótico de Toledo (Coleção Universitária de Letras, 1997, Brasil) – Pequeno livro introdutório, em português, que resume de modo acessível a cronologia visigoda e dedica um capítulo à queda de 711.
- Ignacio Ruiz de la Peña, La formación del Reino de Asturias (718-910) – Estudo em espanhol focado no reino asturiano primitivo, suas peculiaridades institucionais e a chamada “identidade asturiana”. O autor discute criticamente Covadonga e Pelayo, salientando que “em Covadonga não se restaurou o reino godo” (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre), mas reconhecendo a importância da resistência.
- João Gouveia Monteiro (coord.), História Militar de Portugal, vol. I (Círculo de Leitores, 2003) – Contém um capítulo relevante sobre a invasão muçulmana e a resistência cristã inicial, analisando batalhas como Guadalete e Covadonga do ponto de vista estratégico.
- David Wasserstein, The Rise and Fall of the Party-Kings: Politics and Society in Islamic Spain (1002-1086) – Ainda que centrado em período posterior, o primeiro capítulo desta obra em inglês recapitula a conquista de 711 e o colapso visigodo, útil para complementar a visão muçulmana dos factos.
Romances Históricos e Literatura:
- Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero (1844) – Romance histórico clássico da literatura portuguesa, ambientado precisamente nos anos da queda visigótica. O protagonista, Eurico, é um padre visigodo que presencia a batalha de Guadalete e a devastação do reino, vivendo um amor trágico. Herculano mistura factos e lendas (incluindo a de Rodrigo e a Cava) (Batalha de Guadalete – Wikipédia, a enciclopédia livre), numa narrativa que capta o espírito crepuscular do “fim da Hispânia goda”. É leitura obrigatória para perceber a recepção romântica deste tema.
- José Ángel Mañas, ¡Pelayo! (La Esfera de los Libros, 2022) – Romance histórico espanhol recente, centrado na figura de Pelayo e nos primeiros anos da Reconquista. Mañas baseia-se nas fontes mas também reimagina diálogos e motivações pessoais de Pelayo, Oppas, Munuza, etc., dando vida romanceada aos eventos de Covadonga. Uma resenha nota que o autor retrata Pelayo “mais preocupado com Deus do que com a glória pessoal”, enfatizando a religiosidade do herói (¡Pelayo!, de José Ángel Mañas, reseña – La Historia en mis Libros).
- Pablo Vega, Don Pelayo y Covadonga (Sial, 2016) – Romance histórico que revisita uma obra anterior do autor (Pelayo, rey). Explora as causas da invasão e as tramas da resistência, com algumas liberdades narrativas. Interessante pelo esforço em ampliar a perspectiva para além de Pelayo, incluindo a população local astur.
- Isabel San Sebastián, La Visigoda (2006) – Romance passado na transição do séc. VIII, do ponto de vista de uma nobre visigoda fictícia que escapa à invasão e se une a Pelayo. Embora com elementos novelescos, a autora (que é jornalista) pesquisou o período e descreve bem costumes visigodos, cenários de Toledo em chamas, e as agruras dos refugiados godos rumo às montanhas.
- Luis Zueco, El último rey (2020) – Romance histórico espanhol centrado no rei Rodrigo. Reconstrói os eventos que levaram à batalha de Guadalete, destacando intrigas na corte visigoda, a lenda de Florinda e o drama pessoal do “último rei”. Fornece um contraponto literário a obras focadas nos vencedores.
- Robert Southey, Roderick, the Last of the Goths (1814) – Poema épico em inglês (por Southey, poeta laureado britânico) que narra em versos a derrota de Rodrigo e a resistência de Pelayo. Notável como interpretação romântica internacional do mito (Southey baseou-se em lendas compiladas por Ginés de Rocamora). Há traduções parciais em espanhol incluídas no livro Leyendas de los últimos godos.
Documentários e Multimédia:
- El Reino de Asturias (718-925) – Documentário da RTVE (Televisão Espanhola) produzido em 2018 para o 1300º aniversário de Covadonga. Em cerca de 60 minutos, condensa dois séculos de história, com entrevistas a historiadores e reconstituições dramáticas. Disponível no site da RTVE (El reino de Asturias – Documental – RTVE.es). Aborda Pelayo, Alfonso I e os achados arqueológicos modernos nas Astúrias.
- La Reconquista: Pelayo y Covadonga – Episódio de documentário (canal História) disponível no YouTube (La Reconquista, Pelayo y Covadonga | Documental completo). Foca especificamente a batalha de Covadonga e os inícios do reino asturiano, com animações e comentários de especialistas como Luis A. García Moreno. Útil para visualizar a geografia do terreno e as armas utilizadas.
- Memorias de un Hombre en Pijama – Pelayo – Curta animação histórica de 2018 (Grupo Mas Media) que conta de forma leve, mas fiel às crónicas, a história de Pelayo desde a sua fuga de Córdova até Covadonga. Apesar do tom descontraído, baseia-se em fontes e pode ser uma inspiração de estilo narrativo.
- A Lenda do Rei Rodrigo – Produção televisiva da RTP (Portugal) de 1998, dramatizando em formato de telefilme a lenda de Rodrigo e Florinda. Interessante para ver uma representação portuguesa da saga, incluindo a fuga para território hoje português. Disponível no arquivo da RTP (A Lenda do Rei Rodrigo – Parte I – RTP Arquivos).
- Granada, último bastión visigodo – Episódio da série Los Españoles (TVE) que, apesar do título, explora o declínio visigodo e a invasão muçulmana, com foco arqueológico (necrópoles visigodas e a cidade de Mérida na transição de poder).
Estudos e Artigos Específicos:
- Javier Arce, “Pelayo, ¿héroe por designio divino?” (Revista Desperta Ferro – Especial Reconquista, 2019) – Artigo breve que discute criticamente o culto a Pelayo e sugere que a sua origem poderá ser asturo-romana e não visigoda, com base na onomástica (Pelayo vem de Pelagius, nome latino comum no Noroeste, não germânico) (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre). Ótimo para insights sobre o debate histórico atual.
- Peter Heather, “The Visigoths in Hispania”, cap. 11 de The Visigoths from the Migration Period to the Seventh Century (ed. P. Heather, 1999) – Capítulo académico que sintetiza cultura e sociedade visigodas, incluindo seções sobre o papel da Igreja, economia agrária e arte visigótica. Cita achados como a fíbula de Alovera (Hispania visigoda – Wikipedia, la enciclopedia libre) e discute o legado visigodo na Alta Idade Média.
- José Luis Corral, “Covadonga: mito, historia y política” (conferência, Univ. de Zaragoza, 2018) – O historiador (e novelista) Corral questiona a narrativa tradicional de Covadonga, sugerindo que a elevação do acontecimento foi construção tardia e que Pelayo poderia ser invenção literária. Embora controversas, as teses de Corral fornecem um contraponto cético útil ao escritor, evitando a armadilha de aceitar acriticamente as crónicas.
- Mário Jorge Barroca, “Vestígios da presença sueva no noroeste da Península Ibérica” (Diacrítica vol.27, 2013) – Artigo em português que explora os legados materiais dos suevos no Minho e Galiza: etnografia, léxico (topónimos germânicos), tipos de sepulturas e armamento ((diacr\355tica 27-VERSAO DIGITAL.pdf)) ((diacr\355tica 27-VERSAO DIGITAL.pdf)). Ajuda a visualizar a influência sueva de forma prática, e.g. a introdução do celeiro elevado (espigueiro) como possível legado suevo.
Ao explorar estas fontes, o autor poderá colher não só factos, mas também cores, vozes e atmosferas da época para enriquecer a ficção. Por exemplo, através das crónicas é possível incorporar trechos de discursos (como o diálogo retórico entre Oppas e Pelayo em Covadonga (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre)), ou detalhes de mentalidade (o horror supersticioso de Rodrigo ao ver a profecia na Torre de Toledo (Rodrigo – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Rodrigo – Wikipedia, la enciclopedia libre)). Os achados arqueológicos podem inspirar descrições vívidas de objetos numa cena – imagine-se D. Pedro segurando uma antiga coroa votiva visigótica recuperada de Toledo, símbolo da esperança de restaurar o reino perdido. As lendas, por sua vez, dão camadas de significado: um personagem assombrado pela maldição de Rodrigo ou confortado pela fé na proteção divina, conforme as lendas circulantes na sua região.
Combinando estes elementos – história rigorosa e mito –, a narrativa de O Último Visigodo poderá assentar numa base factual sólida sem perder o encanto lendário que torna este período tão fascinante. Afinal, como diz o historiador João G. Ferreira, “essas personagens da Alta Idade Média estão envoltas em mistério”, entre o vazio de fontes e a abundância de lendas, e cabe ao romancista preencher criativamente esses silêncios com verosimilhança e imaginação (D. Rodrigo – o adeus ao último rei visigodo e à serpente gigante numa igreja de Viseu – Portugal – SAPO Viagens) (D. Rodrigo – o adeus ao último rei visigodo e à serpente gigante numa igreja de Viseu – Portugal – SAPO Viagens). Este panorama profundo do período visigótico-final e asturiano-inicial oferece, assim, os ingredientes históricos necessários para dar vida à saga de D. Pedro, duque da Cantábria – possivelmente o último visigodo a erguer a cruz da resistência nas montanhas da Ibéria.
Referências Utilizadas: As citações ao longo do texto remetem para fontes específicas que sustentam as informações apresentadas. Recomenda-se consultar diretamente essas obras para um estudo mais aprofundado de cada tópico abordado. (Suevos – Wikipédia, a enciclopédia livre) (Batalha de Guadalete – Wikipédia, a enciclopédia livre) (Don Pelayo – Wikipedia, la enciclopedia libre) (Batalla de Covadonga – Wikipedia, la enciclopedia libre)