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A imperfeição como assinatura

Quanto mais capaz se torna a IA de produzir imagens impecáveis, mais os criadores digitais procuram o traço humano. Uma redefinição do que o trabalho criativo pode reclamar como seu.

by Inês Soares

Numa era de saturação de imagens geradas por IA, os criadores digitais estão a redescobrir o valor do traço humano com as suas hesitações, texturas e marcas de processo.

Há um paradoxo silencioso a instalar-se nos estúdios de criação digital. Quanto mais capaz se torna a IA de produzir imagens tecnicamente irrepreensiveis, mais os criadores humanos procuram o imperfeito, visivelmente feito à mão. A resposta à máquina, será cada vez mais “o humano presente”.

A proliferação de imagens geradas por IA a baixo custo está a criar uma espécie de fadiga no público. A queixa do “AI slop” (imagens falsas e sem alma) está a gerar uma atração crescente por tudo o que carregue as impressões digitais dos artistas: os gestos, as peculiaridades, o timing que só pode vir de um criador humano com experiência; os detalhes, as pequenas surpresas e referências internas que contam uma história dentro de uma imagem; o tom e o contexto que refletem a vida única de uma pessoa.

O resultado é que os artistas estão a esforçar-se por criar trabalho que coloca em primeiro plano as idiossincrasias e os elementos não polidos que transmitem personalidade e ofício. As pessoas querem ver pinceladas, arestas vivas, texturas retiradas do mundo real, algo que mostre que o que estamos a ver foi feito por mãos humanas.

Esta reação tem uma dimensão económica que não é possível ignorar. Em tempos de incerteza, os artistas estão a criar fontes de rendimento adicionais que coexistem com o seu trabalho principal como ilustradores, artistas conceptuais ou animadores, e muitos estão a voltar a meios físicos tradicionais como a pintura e a escultura. Para alguns é um plano de contingência; para outros, um regresso aos princípios fundamentais de quem são como criadores.

Outra grande tendência que se consolida em paralelo é a do afastamento das plataformas e subscrições centralizadas. Os utilizadores de software artístico estão cada vez mais cansados do modelo de subscrição, especialmente quando existem alternativas gratuitas. Muitos artistas digitais estão descontentes com os aumentos de preços da Adobe, e existe um movimento crescente para abandonar o ecossistema. A alternativa já não é hipotética: ferramentas como o Blender, o Krita e o Procreate, gratuitas ou de compra única, oferecem capacidades profissionais sem dependência de subscrições mensais ou de decisões corporativas sobre o que fazer com os ficheiros dos utilizadores.

A micro-animação emerge também como tendência subtil: olhos que piscam, fumo que deriva, tecido que oscila, pequenos loops que trazem ritmo a imagens estáticas, e que pelo seu carácter artesanal e contido se distinguem claramente da geração automática.

A distinção entre humano e máquina está a tornar-se, pela primeira vez, um argumento estético. Durante décadas, o digital aspirou à perfeição técnica, agora a imperfeição tornou-se assinatura. Não devemos encarar esta tendência como um retrocesso, mas antes, como uma redefinição do que o trabalho criativo pode reclamar como seu.

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