A Jornada Mítica de Ophiussa: De Ofir a Finisterra

A Jornada Mítica de Ophiussa: De Ofir a Finisterra

A paisagem brumosa do noroeste peninsular revela-se como um tapete vivo de lendas e segredos ancestrais. Partindo de Ofir, na foz do rio Cávado, e seguindo em linha quase reta até ao “fim do mundo” em Cabo Finisterra, este roteiro serpenteia por castros, lagoas, montanhas sagradas e vilas carregadas de mistérios. Em cada parada, a aura das mouras-serpente, dos deuses das águas e dos tesouros ocultos desperta o viajante para um tempo em que o sagrado feminino e os cultos pagãos ainda sussurravam no vento.

Ofir – A Lenda do Ouro Perdido
À beira-mar, a pequena praia de Ofir conserva ecos do Antigo Testamento, quando navios fenícios carregados de ouro zarpariam rumo a Jerusalém. Diz-se que as areias ainda guardam fragmentos do ouro puro do rei Salomão, e as rochas submersas conhecidas como “Cavalos de Fão” seriam, na verdade, estátuas petrificadas de oferendas reais. À noite, a “Sereia das Lágrimas” ergue seu cântico para avisar os pescadores do perigo dos tesouros escondidos nas profundezas.

Anta da Barrosa – O Portão Entre Mundos
Seguindo o curso do Cávado, emerge a imponente câmara poligonal da Anta da Barrosa, monumento funerário do Neolítico. As gravuras serpentiformes esculpidas na laje indicam rituais de iniciação e passagem para o outro lado, enquanto as mouras encantadas sussurram promessas de riquezas a quem decifre seu enigma.

Castro de S. Lourenço e Castro Monte Aloia – Guardiões da Terra
No alto dos penedos, os castros revelam muros ciclópicos que abrigavam sacerdotisas e druidas. As mouras-serpente, transformadas em pedras, ainda protegem os tesouros enterrados nos seus oppida. No Monte Aloia, avista-se o Atlântico e, na neblina, parece surgir o vulto de sacerdotisas cantando orações ancestrais ao sol poente.

Cividade de Âncora e Castro Santa Trega – O Santuário do Sol e da Lua
A Cividade de Âncora exibe ruas poligonais que conduziam a um templo do sol. No vizinho Monte de Santa Trega, o Facho de Donón acendia-se nas noites de lua cheia, um farol sagrado para marinheiros e druidas. Ali, rituais de fertilidade invocavam as divindades celestes, e o vento trazia o cheiro de incenso e de mirra.

Ilhas Cíes – O Escudo dos Deuses
No meio da Ría de Vigo, as Ilhas Cíes foram erguidas pelos próprios deuses como um escudo protetor contra tempestades. Conta-se que as ninfas guardavam ali macieiras de frutos de ouro, e que, sob a luz da lua, sirenas dançavam nas ondas, atraindo os navegantes para esconderijos de corsários e tesouros submersos.

Cangas de Morrazo e Pontevedra – Rituais Marítimos e Mouras Encantadas
Em Cangas, a lenda de María Soliño e as meigas na praia de Rodeira evocam as antigas invocações de forças femininas ligadas ao mar. Já em Pontevedra, a procissão espectral da Santa Compaña cruza ruas estreitas, lembrando o fio tênue que separa os vivos dos mortos. As mouras do Monte das Croas despertam intrépidos a descer penedos em busca de palácios de ouro ocultos.

Ponte de Lima – O Rio Lethes e a Água da Memória
Atravesse a ponte romana sobre as águas do Lima, cujo nome evoca o “Rio do Esquecimento”. Reza a lenda que Décio Júnio Bruto montou seu cavalo e desafiou o esquecimento, retornando inteiro à memória de Roma. Às margens, oferendas à deusa Nabia — senhora das águas — reforçam a ligação entre o sagrado feminino e a fertilidade do vale.

Lagoas de Bertiandos e Monte Louro – Espelhos do Outro Mundo
No coração do vale inundado, as lagoas de Bertiandos refletem o céu como portais para o mundo invisível. Seguindo até Monte Louro, a lagoa das Xarfas reaviva a lenda de uma povoação submersa, cujos sinos e vozes surgem em noites tempestuosas, avisando quem ousa perturbar seu descanso.

Serra d’Arga e Citânia de Santa Luzia – Trilhas de Iniciação
Nas trilhas da Serra d’Arga, ritos de namoradeira acontecem junto ao Penedo dos Namorados, testando a força do amor sob o olhar das dríades. No alto, “Santo Aginha” ressuscita a conversão de um bandido em protetor da serra. Mais adiante, a Citânia de Santa Luzia ergue-se como portal entre mundos, onde pinturas rupestres de espirais e serpentes ainda contam histórias do culto solar.

Geoparque de Viana e Aro de Lovelhe – Rostos da Terra
No Geoparque, as falésias calcárias revelam fósseis de oceanos antigos, enquanto o Aro de Lovelhe, monumento castrejo, conserva lendas de cervos divinos que fundaram reinos invisíveis. É o encontro entre a memória geológica e os mitos dos deuses animais.

Viana do Castelo, Caminha e Tui – Encruzilhadas Limínais
Atravessando Viana do Castelo, ouça os ecos das victórias das mordomas e das sirenes que guiavam os pescadores. Em Caminha, o alcaide mouro Abakir e a pastora encantada deixam vestígios de castelos encantados. Em Tui, o “Túnel das Clarisas” e o Penedo da Moura evocam passagens secretas entre a catedral e o submundo.

Aro de Lovelhe e Anta da Barrosa – Alinhamentos Sagrados
De novo na margem minhota, o Aro de Lovelhe observa o curso do rio como um anfiteatro de ritos ancestrais. Ao lado, a Anta da Barrosa recorda as iniciações megalíticas, onde as serpentes dançavam sob a lua cheia.

Cabo Finisterra – O Ritual do Fim do Mundo
No extremo ocidental, o promontório de Finisterra encerra a jornada. Aqui, o Ara Solis fenício ergueu-se como altar ao sol moribundo, e peregrinos queimam roupas e mergulham nas águas geladas ao pôr do sol, completando o ciclo de morte e renascimento. É o ponto onde a Terra das Serpentes encontra o infinito oceano, convidando cada viajante a renascer dos mitos que o trouxeram até aqui.

    Esta travessia, de Ofir a Finisterra, não é apenas um percurso geográfico, mas uma odisseia pelo imaginário coletivo de Ophiussa — a Terra das Serpentes — onde cada pedra, cada riacho e cada montanha sagrada guarda segredos de cultos ancestrais, de poder feminino e de sabedorias ocultas que seguem vivas no cântico dos ventos e no murmúrio das águas.

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