Arquétipos

A serpente, as deusas, o feminino simbólico.

O campo Arquétipo investiga as figuras que sobreviveram no plano do símbolo depois de terem sido apagadas, marginalizadas ou transformadas.

A hipótese central: o que foi apagado não desapareceu. Mudou de forma, de linguagem ou de plano. Figuras afastadas das narrativas dominantes reaparecem como arquétipos, motivos narrativos, entidades míticas e símbolos recorrentes. O trabalho consiste em reconhecer essas sobrevivências e tratar o símbolo como um arquivo latente.

A serpente é o ponto de entrada.

Símbolo telúrico, aquático e ambivalente, encontra-se profundamente ligada ao feminino e inscrita nas paisagens atlânticas investigadas em Land of Serpents. Surge em mitos, lendas, topónimos, práticas populares e narrativas de transformação ao longo do corredor que se estende do Minho à Islândia.

Através dela, o campo expande-se para um conjunto de figuras femininas liminares: deusas, ninfas, feiticeiras, mulheres das águas, entidades elementares e figuras mitológicas associadas a asteroides. São presenças que persistem como vestígios simbólicos de experiências, poderes e formas do feminino que foram reprimidos, fragmentados ou colocados nas margens.

O campo situa-se na intersecção entre paisagem, mito e psique. Aquilo que o olhar histórico não preservou pode reaparecer filtrado pela linguagem, pela narrativa, pelo símbolo e pelas imagens da imaginação colectiva. A paisagem mitológica transforma-se também numa paisagem interior.

O enquadramento teórico parte da psicologia analítica e, em particular, do trabalho de Emma Jung sobre as figuras femininas presentes nos mitos, nos contos e nos processos de individuação. Serpentes, ninfas, feiticeiras e outras entidades liminares podem ser lidas como imagens de conteúdos psíquicos ainda não integrados, funções em formação e movimentos de aproximação ao Self.

As figuras mitológicas não são tratadas como modelos fixos nem como essências universais do feminino. Cada uma transporta contradições, variações históricas e diferentes possibilidades de interpretação. O arquétipo funciona como uma estrutura dinâmica: uma imagem que atravessa épocas e culturas, assumindo formas distintas conforme o contexto em que reaparece.

Este enquadramento permite ler deusas e entidades femininas como mapas internos, em ressonância com processos individuais e colectivos, sem as reduzir a um sistema determinista ou a uma categoria esotérica fechada.

A serpente atravessa todo o campo. Surge na paisagem atlântica, nas cosmologias do Norte, nas figuras femininas híbridas, nos mitos de descida e transformação e nas cartografias simbólicas da psique. É o elemento que liga território, corpo, memória e imaginação.

O que foi apagado permanece latente no símbolo.

O trabalho é aprender a lê-lo.

Projectos e artefactos

O Arquétipo da Serpente
Investigação sobre a serpente enquanto imagem telúrica, aquática e psíquica, acompanhando as suas transformações entre mitologia, paisagem, cultura e imaginação colectiva.

Os Nove Mundos — do Minho à Islândia
Cartografia mitogeográfica e simbólica das continuidades entre o Noroeste Ibérico e o Norte Atlântico, atravessada por serpentes, mulheres das águas, entidades liminares e cosmologias da paisagem.

Deusas Asteroides
Atlas de investigação artística dedicado às deusas e figuras mitológicas associadas a asteroides. O mapa natal é lido como território simbólico e arquivo das figuras femininas que permaneceram nas margens do cânone astrológico.