Deep mapping

Tipo: Metodologia e prática de investigação situada
Família: Território e práticas situadas
Campos: Investigação artística · humanidades espaciais · cartografia crítica · etnografia · performance · humanidades digitais
Conceitos relacionados: Mitogeografia · cartografia simbólica · psicogeografia · metodologias de caminhada · investigação situada · práticas site-specific · arquivo vivo

Definição breve

Deep Mapping, ou cartografia profunda, designa uma família de práticas de investigação e criação que procura compreender um lugar através da sobreposição das suas dimensões materiais, históricas, sociais, afectivas, políticas e imaginárias.

Um deep map pode integrar arquivos, testemunhos, imagens, sons, caminhadas, mapas, objectos, dados geográficos, memórias, lendas e experiências corporais. O resultado assume uma forma aberta, relacional e multimodal, capaz de mostrar a complexidade do território sem a reduzir a uma representação única.

O que é Deep Mapping

A cartografia convencional tende a privilegiar localização, distância, orientação, fronteira e escala. Deep Mapping introduz outras formas de conhecimento: aquilo que foi vivido, recordado, transmitido, omitido, disputado ou imaginado num determinado lugar.

O território surge como um palimpsesto. Cada época deixa inscrições, altera os usos existentes e produz novas interpretações. Ruínas, caminhos, topónimos, memórias familiares, relatos orais, arquivos institucionais, transformações ecológicas e narrativas míticas podem coexistir no mesmo dispositivo cartográfico.

O mapa resultante permanece parcial. A sua função consiste em tornar visíveis relações, tensões e estratos, mantendo algumas contradições em aberto. A profundidade nasce da articulação entre materiais heterogéneos e da atenção dedicada às formas como um lugar é habitado, narrado e transformado.

Genealogia do conceito

A expressão deep map ganhou visibilidade com PrairyErth (a Deep Map), publicado por William Least Heat-Moon em 1991. O livro constrói uma descrição extensa de Chase County, no Kansas, combinando história, geografia, observação, viagem, documentos, testemunhos e narrativa literária.

Durante a década de 1990, o arqueólogo Michael Shanks e o performer e investigador Mike Pearson transportaram o conceito para o cruzamento entre arqueologia, performance e investigação baseada no lugar. Em Theatre/Archaeology, publicado em 2001, descrevem o deep map como uma composição capaz de aproximar o histórico e o contemporâneo, o político e o poético, o discursivo e o sensorial.

Clifford McLucas, ligado à companhia de performance Brith Gof, formulou um manifesto particularmente influente. Os seus deep maps seriam lentos, extensos, multimédia, colaborativos, politicamente situados e permanentemente inacabados. Deveriam colocar em relação o conhecimento profissional e amador, institucional e local, artístico e científico.

Iain Biggs desenvolveu posteriormente a ideia de deep mapping como um essaying of place: um processo experimental de ensaiar, testar e interrogar um lugar através da escrita, da observação, da criação artística e da experiência situada.

Nas humanidades espaciais e digitais, o conceito passou também a incluir sistemas de informação geográfica, bases de dados, arquivos multimédia, plataformas interactivas e narrativas espaciais. Estas ferramentas ampliam a capacidade de relacionar materiais, desde que a dimensão corporal, afectiva e crítica do trabalho não seja substituída pela simples acumulação de informação.

Princípios fundamentais

Estratificação

O lugar é investigado através de várias camadas temporais, materiais e simbólicas. O presente contém vestígios do passado, antecipações do futuro e memórias que continuam a alterar a forma como o território é vivido.

Polifonia

Um deep map acolhe diferentes vozes, posições e formas de conhecimento. Testemunhos locais, documentos oficiais, interpretações artísticas, saberes tradicionais e dados científicos podem surgir lado a lado, sem serem reduzidos a uma narrativa homogénea.

Conhecimento situado

A posição de quem investiga faz parte do processo. Caminhar, observar, escutar, recordar, seleccionar e interpretar são actos realizados a partir de um corpo, de uma história e de uma relação particular com o lugar.

Multimodalidade

Texto, imagem, som, vídeo, desenho, objectos, mapas, performance e dados digitais podem participar na construção do conhecimento. A escolha do meio influencia aquilo que se torna perceptível.

Processo aberto

O deep map pode continuar a crescer depois da sua primeira apresentação. Novos testemunhos, documentos, relações e interpretações alteram o dispositivo ao longo do tempo.

Reflexividade

A prática exige atenção às escolhas de representação: quem aparece, quem permanece ausente, quais materiais recebem autoridade e de que modo a montagem transforma o significado dos elementos recolhidos.

Como se desenvolve um projecto de Deep Mapping

Deep Mapping resiste a receitas universais. Ainda assim, um projecto pode seguir um percurso flexível composto por sete movimentos.

1. Delimitar o lugar e a pergunta

O território pode ser uma rua, um rio, uma aldeia, uma paisagem costeira, uma região ou um percurso. A investigação começa com uma pergunta suficientemente precisa para orientar a recolha.

Exemplos:

  • Que memórias desapareceram desta paisagem?
  • Como foi este rio representado em diferentes épocas?
  • Que narrativas coexistem neste caminho?
  • Que grupos ficaram ausentes da história oficial do lugar?

2. Situar a investigadora

É necessário reconhecer a relação existente com o território: residente, visitante, descendente, investigadora, artista, caminhante ou membro de uma comunidade.

Essa posição influencia o acesso aos materiais, a interpretação das fontes e a forma como o lugar é experienciado.

3. Habitar e observar

O trabalho de campo pode incluir caminhadas, permanências demoradas, fotografia, desenho, escuta, gravação sonora, conversas, recolha de objectos, observação participante e escrita de notas.

O corpo funciona como instrumento de investigação. Ritmos, distâncias, obstáculos, atmosferas, sons, temperaturas e sensações revelam aspectos que dificilmente surgiriam através do arquivo.

4. Recolher as diferentes camadas

A investigação pode reunir:

  • mapas antigos e contemporâneos;
  • documentos históricos;
  • fotografias e postais;
  • imprensa local;
  • cartas, diários e memórias;
  • entrevistas e histórias orais;
  • lendas, rumores e tradições;
  • dados arqueológicos e ambientais;
  • sons e paisagens sonoras;
  • notas de campo;
  • desenhos, colagens e textos;
  • objectos encontrados;
  • dados georreferenciados.

A proveniência dos materiais deve ser registada desde o início.

5. Identificar relações, tensões e ausências

A recolha é analisada em busca de recorrências, contradições, silêncios, sobreposições e mudanças de escala.

Algumas perguntas úteis:

  • Que histórias se confirmam mutuamente?
  • Que versões entram em conflito?
  • Que elementos aparecem apenas nas margens do arquivo?
  • Que transformações alteraram a experiência do território?
  • Que conhecimentos existem apenas através da memória oral?
  • Que ausências se tornam significativas?

6. Compor o dispositivo

Os materiais são relacionados através de montagem, justaposição, sequência, hiperligação, georreferenciação ou associação conceptual.

A estrutura pode ser cronológica, espacial, temática, fragmentária, rizomática ou constelar. A composição deve conservar a legibilidade sem apagar a complexidade.

7. Apresentar, devolver e reabrir

O projecto pode ser partilhado com as pessoas e comunidades envolvidas, permitindo correcções, respostas e novas contribuições.

A publicação funciona como uma etapa do processo. O deep map pode permanecer aberto a futuras camadas, versões e deslocações.

Materiais e linguagens

Deep Mapping aceita materiais documentais e experimentais. Um mapa cadastral pode relacionar-se com uma memória de infância; um registo arqueológico pode ser confrontado com uma lenda; uma fotografia aérea pode surgir ao lado de uma paisagem sonora ou de um percurso desenhado à mão.

A justaposição deve resultar de uma pergunta de investigação e de uma lógica curatorial. A quantidade de materiais, por si só, não produz profundidade.

Entre as linguagens mais frequentes encontram-se:

  • escrita ensaística e fragmentária;
  • fotografia;
  • vídeo;
  • gravação sonora;
  • cartografia;
  • desenho e colagem;
  • performance;
  • caminhada;
  • instalação;
  • arquivo;
  • narrativa hipertextual;
  • visualização de dados;
  • sistemas de informação geográfica.

Formas que um Deep Map pode assumir

Um deep map pode materializar-se como:

  • mapa interactivo;
  • jardim digital;
  • website de investigação;
  • atlas experimental;
  • caderno interpretativo local;
  • arquivo multimédia;
  • ensaio visual;
  • publicação;
  • exposição;
  • instalação sonora;
  • documentário;
  • percurso pedestre;
  • performance;
  • base de dados georreferenciada;
  • narrativa transmédia.

O formato é escolhido de acordo com a natureza do território, dos materiais e da pergunta inicial.

Deep Mapping e investigação artística

Deep Mapping é especialmente relevante para a investigação artística porque o conhecimento emerge através dos próprios gestos criativos: caminhar, escutar, enquadrar, escrever, gravar, montar, relacionar e apresentar.

A criação da forma final participa na investigação. Uma montagem visual pode revelar relações que não eram evidentes no arquivo; uma paisagem sonora pode tornar perceptível uma transformação ambiental; uma caminhada pode expor fronteiras, ritmos e obstáculos ausentes dos mapas oficiais.

A prática artística permite ainda trabalhar com elementos difíceis de traduzir em linguagem exclusivamente analítica: atmosfera, afecto, memória fragmentária, sensação de pertença, imaginação, silêncio e ausência.

Critérios de rigor

A abertura metodológica exige uma estrutura crítica consistente.

Um projecto de Deep Mapping deve:

  • indicar a origem dos materiais utilizados;
  • distinguir documentação, testemunho, interpretação e especulação;
  • explicitar a posição de quem investiga;
  • solicitar consentimento para recolhas pessoais ou comunitárias;
  • evitar retirar histórias locais do seu contexto;
  • reconhecer conflitos e versões divergentes;
  • manter uma pergunta curatorial capaz de orientar a selecção;
  • criar formas de retorno ou partilha com as comunidades envolvidas.

A profundidade depende da qualidade das relações construídas entre os materiais e da responsabilidade com que o território é representado.

Limites e riscos

Um dos principais riscos consiste na acumulação indiscriminada. Arquivos extensos, muitas camadas e interfaces visualmente complexas podem ocultar a ausência de uma verdadeira questão de investigação.

Outro risco surge quando o território funciona apenas como matéria estética. A recolha de imagens, histórias e objectos locais exige atenção às relações de poder, autoria, consentimento e pertença.

As tecnologias digitais também podem criar uma ilusão de totalidade. Nenhum sistema consegue conter todas as experiências de um lugar. A incompletude deve ser reconhecida como condição metodológica.

Deep Mapping em Anamnese

Em Anamnese, Deep Mapping funciona como uma das metodologias centrais do campo Território e da investigação Land of Serpents.

O corredor atlântico de Ophiussa pode ser lido através da articulação entre:

  • vestígios arqueológicos;
  • textos antigos;
  • topónimos;
  • lendas e tradições orais;
  • cursos de água;
  • castros e caminhos;
  • paisagem marítima;
  • memória local;
  • arquivo histórico;
  • observação de campo;
  • fotografia, som e escrita;
  • interpretação simbólica.

Caminhos de Ophiussa pode assumir a forma de um deep map itinerante, no qual o território é experienciado através do movimento e da sequência dos lugares.

Os cadernos interpretativos locais podem funcionar como deep maps modulares: cada caderno investiga um território delimitado e relaciona arquivo, paisagem, memória, mito e observação situada.

O jardim digital pode acolher estas camadas através de páginas, mapas, fragmentos, ficheiros sonoros, imagens, notas de campo e ligações entre investigações. A própria arquitectura de navegação torna-se parte da cartografia.

Relação com conceitos próximos

Cartografia crítica investiga os sistemas de poder, selecção e autoridade presentes nos mapas.

Psicogeografia explora os efeitos afectivos, comportamentais e políticos do espaço sobre quem o percorre.

Mitogeografia trabalha a presença do mito, do símbolo, da narrativa e do imaginário na leitura do território.

Cartografia simbólica representa relações, sentidos e correspondências que ultrapassam a localização física.

Metodologias de caminhada utilizam o deslocamento corporal como forma de observação, investigação e produção de conhecimento.

Deep Mapping pode integrar elementos de todas estas práticas, articulando-os numa investigação estratificada e multimodal de um lugar.

Perguntas orientadoras

  • Que camadas temporais coexistem neste território?
  • Que histórias permanecem fora da narrativa oficial?
  • Quem possui autoridade para falar sobre este lugar?
  • Que conhecimentos surgem apenas através da experiência corporal?
  • Que vestígios materiais contradizem os discursos existentes?
  • Que relações podem ser reveladas através da montagem?
  • Que elementos devem permanecer ambíguos?
  • Como pode a investigação regressar ao território e às pessoas envolvidas?
  • Que forma permite apresentar o lugar sem o encerrar?

Autores e figuras centrais

William Least Heat-Moon — introduziu a expressão no título de PrairyErth (a Deep Map) e demonstrou as possibilidades de uma cartografia literária, histórica e experiencial.

Mike Pearson e Michael Shanks — desenvolveram a ligação entre deep mapping, arqueologia, performance, memória e práticas site-specific.

Clifford McLucas — formulou uma concepção multimédia, colaborativa, política e inacabada do deep map.

Iain Biggs — explorou o deep mapping como prática artística, ensaística e transdisciplinar ligada à experiência do lugar.

Les Roberts — analisou o deep mapping como campo aberto e performativo dentro das humanidades espaciais e da antropologia do espaço.

David J. Bodenhamer, John Corrigan e Trevor M. Harris — desenvolveram e sistematizaram a aplicação do conceito nas humanidades espaciais e digitais.

Bibliografia essencial

  • Heat-Moon, William Least. PrairyErth (a Deep Map). 1991.
  • Pearson, Mike; Shanks, Michael. Theatre/Archaeology. Routledge, 2001.
  • McLucas, Clifford. “Deep Mapping”. 2000.
  • Biggs, Iain. “The Spaces of Deep Mapping: A Partial Account”. 2010.
  • Biggs, Iain. “Deep Mapping as an ‘Essaying’ of Place”. 2010.
  • Bodenhamer, David J.; Corrigan, John; Harris, Trevor M., eds. Deep Maps and Spatial Narratives. Indiana University Press, 2015.
  • Roberts, Les. “Deep Mapping and Spatial Anthropology”. Humanities, 2016.
  • Bodenhamer, David J.; Corrigan, John; Harris, Trevor M., eds. Making Deep Maps: Foundations, Approaches, and Methods. Routledge, 2021.

Resumo para o directório

Deep Mapping é uma metodologia de investigação situada que constrói cartografias estratificadas de um lugar, relacionando arquivo, memória, paisagem, som, imagem, narrativa e experiência corporal. A prática produz dispositivos abertos e multimodais capazes de revelar as diferentes temporalidades, vozes, conflitos e imaginários que formam um território.

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