Dérive — Deriva Situacionista

Tipo: Prática experimental, psicogeográfica e político-espacial
Família: Território e práticas situadas
Campos: Psicogeografia · investigação artística · crítica urbana · walking art · urbanismo · performance · cartografia experimental · estudos do quotidiano
Conceitos relacionados: Psicogeografia · construção de situações · urbanismo unitário · détournement · metodologias de caminhada · mitogeografia · cartografia crítica · counter-tourism · performance site-specific

Definição breve

A dérive, ou deriva situacionista, é uma prática experimental de exploração do espaço urbano na qual uma pessoa ou pequeno grupo suspende temporariamente os seus percursos, tarefas e finalidades habituais, deixando-se orientar pelas características do terreno, pelas mudanças de atmosfera e pelos encontros que ocorrem durante o trajecto.

Desenvolvida no contexto da Internacional Letrista e da Internacional Situacionista, a deriva constitui uma técnica de investigação psicogeográfica e uma intervenção crítica sobre a organização funcional, comercial e social da cidade.

O que é a dérive

A deriva consiste numa passagem deliberadamente desorientada por diferentes ambientes.

Os participantes afastam-se temporariamente das razões que normalmente determinam os seus movimentos: trabalho, consumo, turismo, transporte, obrigações, lazer programado ou procura de um destino específico.

Durante esse período, prestam atenção às forças que atraem, repelem, aceleram, atrasam ou interrompem a circulação.

Essas forças podem incluir:

  • configuração das ruas;
  • passagens e barreiras;
  • iluminação;
  • sons;
  • densidade de pessoas;
  • usos comerciais;
  • policiamento;
  • arquitectura;
  • clima;
  • declives;
  • zonas de transição;
  • ritmos de trabalho;
  • transportes;
  • memórias;
  • sensações de segurança ou ameaça;
  • encontros inesperados;
  • diferenças entre mapas e experiência física.

A deriva combina abertura e análise.

Existe uma disponibilidade para seguir o terreno e o acontecimento, mas também uma atenção crítica às condições que produzem determinados comportamentos.

A cidade é tratada como um campo activo de forças, capaz de orientar desejos, hábitos, emoções e relações sociais.

Uma clarificação essencial

A dérive não corresponde simplesmente a passear sem destino.

A caminhada casual pode ser agradável, contemplativa ou espontânea. A deriva situacionista possui uma intenção experimental e crítica.

Os participantes procuram observar:

  • como o espaço condiciona o comportamento;
  • como determinadas zonas atraem ou afastam;
  • que percursos parecem inevitáveis;
  • que fronteiras permanecem invisíveis nos mapas;
  • como o quotidiano é organizado pelo trabalho e pelo consumo;
  • que alternativas podem ser imaginadas;
  • como uma mudança de comportamento altera a experiência do lugar.

O desvio serve para revelar a estrutura.

A deriva também não depende exclusivamente do acaso. O acaso introduz acontecimentos imprevisíveis, mas os participantes observam activamente as variações psicogeográficas e podem escolher tácticas capazes de criar condições específicas.

Origem da palavra

A palavra francesa dérive pode ser traduzida como deriva, desvio ou deslocação provocada por correntes.

A imagem sugere um movimento que deixa de obedecer a uma rota previamente definida e passa a responder às forças encontradas no trajecto.

No contexto situacionista, esta abertura ao terreno era acompanhada por consciência crítica, experimentação e produção de conhecimento sobre o espaço urbano.

Genealogia do conceito

Internacional Letrista

A prática começou a formar-se no interior da Internacional Letrista, uma vanguarda artística e política activa em Paris durante a década de 1950.

Os seus membros exploravam a cidade através de deslocações prolongadas, encontros, jogos, situações nocturnas, passagens marginais e formas de vida que recusavam a separação convencional entre arte e quotidiano.

A cidade moderna era simultaneamente laboratório, campo de conflito e matéria de criação.

Ivan Chtcheglov e o novo urbanismo

Em 1953, Ivan Chtcheglov, sob o nome Gilles Ivain, escreveu Formulary for a New Urbanism.

O texto critica a monotonia funcional da cidade moderna e imagina ambientes construídos para provocar emoções, comportamentos, encontros, jogos e experiências intensas.

Chtcheglov descreve a cidade como uma paisagem geológica atravessada por fantasmas, memórias, lendas e possibilidades ainda não realizadas.

O ambiente deveria poder ser transformado colectivamente, acompanhando desejos e modos de vida diferentes.

Este texto forneceu uma parte importante do horizonte conceptual da deriva, da psicogeografia e do urbanismo unitário.

Crítica da geografia urbana

Em 1955, Guy Debord publicou Introduction to a Critique of Urban Geography.

O texto propõe a psicogeografia como investigação das relações entre ambientes urbanos, emoções e comportamentos.

Debord defende a criação de mapas psicogeográficos e sugere experiências como utilizar o mapa de uma região para atravessar outra.

A transposição cartográfica permitiria perturbar os percursos habituais e revelar novas relações entre espaço, percepção e desejo.

Teoria da deriva

Em Novembro de 1956, Debord publicou Theory of the Dérive na revista belga Les Lèvres Nues.

O texto seria retomado em Dezembro de 1958 no segundo número da revista Internationale Situationniste.

A deriva é apresentada como uma das práticas básicas do projecto situacionista.

Debord descreve os seus princípios, duração, dimensão espacial, composição dos grupos, relação com o acaso e potencial cartográfico.

Internacional Situacionista

Fundada em 1957, a Internacional Situacionista reuniu artistas, escritores e teóricos interessados na crítica do capitalismo avançado, da vida quotidiana, da urbanização funcional e da cultura transformada em espectáculo.

A deriva fazia parte de um projecto amplo de transformação da vida.

A experiência urbana deveria deixar de ser organizada apenas por produção, circulação, consumo, propriedade e controlo.

Os situacionistas procuravam construir situações: momentos de vida deliberadamente organizados através de ambientes e acontecimentos capazes de produzir experiências colectivas diferentes.

Contexto político

A cidade moderna era entendida como uma estrutura que disciplina o quotidiano.

As pessoas deslocam-se entre casa, trabalho, consumo e lazer através de percursos determinados por horários, infraestruturas, propriedade, transportes e necessidades económicas.

A repetição desses trajectos limita a experiência possível do território.

A deriva interrompe temporariamente essa organização.

Ao abandonar um percurso funcional, o participante pode observar:

  • como o trabalho organiza o tempo;
  • como o consumo orienta os movimentos;
  • como a publicidade ocupa a atenção;
  • como a propriedade restringe o acesso;
  • como as infraestruturas dividem comunidades;
  • como certas zonas são valorizadas e outras abandonadas;
  • como o turismo selecciona o que merece ser visto;
  • como o medo e a vigilância regulam a circulação;
  • como a cidade produz isolamento ou encontro.

A prática procurava contribuir para uma crítica concreta da vida quotidiana e para a imaginação de ambientes diferentes.

Conceitos situacionistas relacionados

Psicogeografia

A psicogeografia estuda os efeitos do ambiente geográfico, planeado ou espontâneo, sobre as emoções e os comportamentos.

A deriva funciona como um dos seus principais métodos experimentais.

A experiência permite identificar zonas, transições, correntes, barreiras e atmosferas que não coincidem necessariamente com divisões administrativas ou mapas convencionais.

Ambiente ou ambiência

Uma ambiência resulta da combinação entre características físicas, sociais, afectivas e temporais de um lugar.

Pode ser produzida por arquitectura, iluminação, som, densidade, clima, actividade económica, memória e comportamento colectivo.

Durante a deriva, os participantes observam a passagem entre diferentes unidades de ambiência.

Construção de situações

Uma situação construída é um momento de vida deliberadamente organizado através da criação colectiva de um ambiente e de uma sequência de acontecimentos.

A deriva pode produzir conhecimento necessário à construção dessas situações.

Também pode funcionar como situação temporária, ao alterar comportamentos, relações e usos do espaço.

Urbanismo unitário

O urbanismo unitário propunha uma utilização integrada da arte e da técnica para construir ambientes ligados à experimentação da vida quotidiana.

Arquitectura, jogo, comportamento, som, luz, movimento e tecnologia deveriam participar numa transformação conjunta do espaço.

Détournement

O détournement reutiliza elementos culturais existentes, desviando-os da sua função ou sentido original.

Mapas, sinais, roteiros turísticos, anúncios, monumentos e instruções podem ser apropriados e reconfigurados dentro de uma deriva.

Espectáculo

O espectáculo descreve uma organização social em que a experiência directa é progressivamente substituída por imagens, representações e relações mediadas por mercadorias.

A deriva procura recuperar uma relação activa com o espaço, com os outros e com o quotidiano.

Princípios fundamentais

Suspensão das finalidades habituais

Os participantes abandonam temporariamente os motivos convencionais de deslocação.

O percurso deixa de ser determinado pela eficiência, produtividade ou chegada a um destino.

Comportamento lúdico-construtivo

A deriva utiliza jogo, experimentação e invenção.

O comportamento lúdico não significa ausência de seriedade. O jogo cria regras temporárias capazes de produzir outras experiências e formas de conhecimento.

Atenção aos efeitos psicogeográficos

A investigação observa como diferentes ambientes influenciam disposição, comportamento, ritmo e movimento.

Relação com o terreno

O trajecto responde às características encontradas.

Uma rua estreita, um terreno vazio, uma passagem subterrânea ou uma praça podem alterar a direcção e a intensidade da experiência.

Alternância entre abandono e cálculo

A deriva inclui disponibilidade perante o imprevisto e capacidade de analisar as possibilidades do espaço.

Os participantes podem entregar-se a uma atracção momentânea e, simultaneamente, comparar ambientes, testar hipóteses ou procurar uma fronteira específica.

Experimentação colectiva

A deriva pode ser realizada individualmente, mas a experiência colectiva permite comparar percepções e produzir interpretações menos dependentes de uma única perspectiva.

Crítica do hábito

Os movimentos habituais tornam certos elementos invisíveis.

A deriva perturba a rotina para revelar padrões de comportamento e organização espacial.

Produção de situações

A exploração pode criar acontecimentos, encontros e formas temporárias de ocupação que alteram a experiência do lugar.

Cartografia experimental

As observações podem originar mapas de atracções, barreiras, atmosferas, fluxos, descontinuidades e relações afectivas.

O papel do acaso

O acaso participa na deriva, embora não a determine integralmente.

Debord considerava que a entrega completa ao acaso podia reproduzir hábitos existentes. Uma pessoa aparentemente livre continua a escolher segundo preferências, medos e rotinas já formadas.

A deriva procura criar condições que ultrapassem essas escolhas automáticas.

Uma regra pode ser utilizada para contrariar o hábito:

  • seguir o primeiro som audível;
  • atravessar todas as passagens acessíveis;
  • mudar de direcção ao encontrar publicidade;
  • procurar zonas de transição;
  • seguir uma linha traçada noutro mapa;
  • deslocar-se entre ambientes contrastantes;
  • regressar a lugares que provocam resistência.

A regra funciona como instrumento experimental e pode ser alterada durante o processo.

A cidade como campo de forças

Na perspectiva da deriva, a cidade contém:

Correntes

Percursos que parecem conduzir naturalmente o movimento.

Podem resultar de ruas, comércio, transportes, iluminação, multidões ou hábitos colectivos.

Pontos fixos

Lugares que atraem e retêm repetidamente a atenção ou a presença.

Vórtices

Zonas que absorvem o movimento e dificultam a saída.

Barreiras

Elementos materiais, sociais ou afectivos que interrompem a circulação.

Podem incluir muros, estradas, propriedade privada, vigilância, medo ou códigos sociais.

Unidades de ambiência

Áreas com características perceptivas e comportamentais relativamente distintas.

Fronteiras difusas

Transições graduais entre zonas, difíceis de representar através das divisões administrativas convencionais.

Eixos de passagem

Linhas através das quais a circulação ocorre com maior intensidade.

O objectivo consiste em perceber como estas forças organizam a experiência e como podem ser transformadas.

Escala espacial

O campo de uma deriva pode ser amplo ou muito reduzido.

Pode abranger:

  • uma grande cidade;
  • vários bairros;
  • uma zona periférica;
  • um quarteirão;
  • um edifício;
  • uma estação;
  • uma praça;
  • uma rua;
  • uma passagem;
  • uma fronteira entre dois ambientes.

O espaço pode ser delimitado previamente quando existe uma questão específica de investigação.

Também pode permanecer aberto quando o objectivo inclui desorientação, descoberta ou comparação entre ambientes.

Debord chegou a admitir a possibilidade de uma deriva estática: permanecer durante um longo período no mesmo lugar, observando as mudanças de ambiente, ritmo, população e comportamento.

Duração

A duração situacionista de referência era aproximadamente um dia, entendido como o intervalo entre dois períodos de sono.

Esta medida nunca constituiu uma regra obrigatória.

Uma deriva pode durar:

  • alguns minutos;
  • várias horas;
  • um dia;
  • vários dias;
  • uma série de sessões repetidas;
  • um período prolongado de investigação.

A duração deve responder à pergunta, ao terreno, à segurança e às capacidades dos participantes.

Uma deriva contemporânea de vinte minutos pode produzir conhecimento relevante quando o recorte é claro e a observação é rigorosa.

Composição do grupo

Debord considerava particularmente produtivos os pequenos grupos de duas ou três pessoas.

Grupos desta dimensão permitem:

  • manter mobilidade;
  • conversar durante o percurso;
  • comparar percepções;
  • tomar decisões rapidamente;
  • registar divergências;
  • evitar a lógica rígida de uma visita organizada.

Em grupos maiores, a experiência tende a fragmentar-se ou a adquirir a forma de caminhada guiada.

Uma possibilidade consiste em dividir os participantes em pequenos grupos e comparar posteriormente os seus percursos e observações.

A composição dos grupos pode variar entre sessões para impedir que se criem novos hábitos internos.

Dispositivos históricos

Encontro possível

Uma pessoa recebe uma hora e um lugar para comparecer, sem saber se encontrará alguém.

Ao chegar, observa o ambiente e as pessoas, liberta da obrigação convencional de esperar por uma figura identificada.

Pode iniciar conversas, permanecer, partir ou contactar outra pessoa para receber um novo ponto de encontro.

O dispositivo altera o uso do tempo e as expectativas associadas ao encontro.

Transposição de mapas

Um mapa de outro território é utilizado para percorrer o local presente.

As indicações deixam de corresponder ao espaço físico, obrigando o participante a interpretar, adaptar e desviar.

Deriva estática

O participante permanece durante um período prolongado numa área reduzida.

Observa alterações de luz, som, circulação, actividade e atmosfera.

Comparação de grupos

Vários pequenos grupos percorrem a mesma zona ou zonas diferentes e confrontam as suas impressões.

Exploração de uma unidade de ambiência

O percurso concentra-se num bairro, quarteirão ou espaço específico, procurando identificar entradas, saídas, limites e forças internas.

Como desenvolver uma deriva contemporânea

A actualização artística da prática pode seguir uma estrutura flexível.

1. Definir uma questão

A deriva deve partir de uma pergunta territorial ou política.

Exemplos:

  • Como dirige o comércio os movimentos neste centro urbano?
  • Que fronteiras separam duas comunidades?
  • Onde termina a zona turística?
  • Que lugares desencorajam a permanência?
  • Como muda o ambiente depois do encerramento das lojas?
  • Que percursos são evitados e porquê?
  • Como interfere a estrada na relação entre população e rio?
  • Que espaços permitem encontros não programados?
  • Onde se tornam audíveis as infraestruturas invisíveis?

2. Escolher o campo espacial

O território deve ser suficientemente delimitado para permitir observação.

Pode seleccionar-se uma zona conhecida, porque o objectivo será romper hábitos existentes, ou uma zona desconhecida, desde que o exotismo inicial não substitua a análise.

3. Identificar as rotinas habituais

Antes de começar, os participantes podem registar:

  • percursos frequentes;
  • destinos;
  • horários;
  • transportes;
  • zonas evitadas;
  • motivos de deslocação;
  • mapas mentais;
  • expectativas.

Este registo oferece uma base de comparação.

4. Definir a composição do grupo

O trabalho pode ser individual ou colectivo.

Em contexto de investigação, pequenos grupos facilitam a comparação das experiências.

5. Criar uma regra inicial

A regra deve interromper comportamentos automáticos.

Pode orientar:

  • direcção;
  • ritmo;
  • atenção;
  • decisão;
  • interacção;
  • duração;
  • utilização de mapas;
  • resposta a sons, objectos ou pessoas.

6. Suspender o destino

O grupo abandona a necessidade de chegar a um ponto final previamente determinado.

Pode existir uma área de investigação, um limite temporal ou uma condição de encerramento.

7. Percorrer

Durante a deriva, os participantes seguem as atracções, resistências e variações observadas.

Convém prestar atenção a:

  • mudanças de ritmo;
  • decisões;
  • hesitações;
  • zonas de conforto;
  • impedimentos;
  • encontros;
  • repetições;
  • contrastes;
  • emoções;
  • movimentos de outras pessoas;
  • sinais de controlo;
  • convites ao consumo;
  • usos não previstos do espaço.

8. Documentar sem dominar a experiência

A documentação pode incluir:

  • notas;
  • gravações de voz;
  • fotografias;
  • vídeo;
  • som;
  • trajectos GPS;
  • desenhos;
  • recolha de materiais;
  • mapas;
  • tempos de permanência.

O dispositivo técnico não deve consumir toda a atenção ou transformar o percurso numa caça de imagens.

9. Realizar uma conversa imediata

No final, cada participante descreve:

  • os momentos de atracção;
  • as zonas rejeitadas;
  • as decisões;
  • as mudanças de atmosfera;
  • os encontros;
  • os conflitos;
  • as surpresas;
  • as interpretações.

A conversa deve ocorrer antes de a memória ser reorganizada por uma narrativa demasiado coerente.

10. Comparar os percursos

Podem sobrepor-se trajectos, notas e mapas.

As diferenças entre participantes constituem material de investigação.

11. Contextualizar

As observações devem ser relacionadas com:

  • história urbana;
  • propriedade;
  • planeamento;
  • transportes;
  • economia;
  • turismo;
  • demografia;
  • legislação;
  • conflitos locais;
  • arquivos;
  • testemunhos;
  • dados ambientais.

A deriva produz perguntas e observações situadas; outras fontes ajudam a interpretá-las.

12. Criar uma forma de devolução

O resultado pode regressar ao território através de:

  • mapa;
  • publicação;
  • caminhada pública;
  • intervenção;
  • exposição;
  • arquivo;
  • conversa comunitária;
  • plataforma digital;
  • proposta de transformação;
  • contra-roteiro.

Técnicas contemporâneas

Deriva por contraste

Passar deliberadamente entre ambientes opostos:

  • turístico e residencial;
  • iluminado e escuro;
  • comercial e abandonado;
  • litoral e industrial;
  • monumental e quotidiano;
  • controlado e informal.

Deriva pelas margens

Seguir os limites entre diferentes usos do solo, bairros, ecossistemas ou jurisdições.

Deriva de infraestruturas

Acompanhar tubagens, linhas eléctricas, estradas, canais, redes de drenagem, transportes ou cabos.

Deriva temporal

Percorrer o mesmo trajecto em diferentes horas, dias ou estações.

Deriva sonora

Deixar que sons, silêncios e mudanças acústicas orientem o movimento.

Deriva de consumo

Observar como vitrinas, publicidade, centros comerciais e plataformas digitais dirigem decisões e atenção.

Deriva de vigilância

Mapear câmaras, policiamento, barreiras, iluminação, controlo de acesso e zonas de exposição.

Deriva de ausências

Procurar edifícios desaparecidos, actividades extintas, comunidades deslocadas ou espaços demolidos.

Deriva de trabalho

Seguir os ritmos, entradas, transportes e vestígios associados ao trabalho.

Deriva algorítmica

Obedecer a instruções produzidas por uma sequência, sistema ou código.

A dimensão crítica deve incluir a análise do próprio algoritmo e das condições tecnológicas envolvidas.

Deriva digital

Explorar plataformas, hiperligações, mapas digitais ou ambientes virtuais através de regras de desvio.

Esta adaptação afasta-se do contexto urbano original, mas pode conservar a análise das estruturas que organizam atenção, circulação e comportamento.

Documentação e cartografia

A deriva pode originar cartografias diferentes dos mapas convencionais.

Podem ser representados:

  • atracções;
  • repulsões;
  • zonas de velocidade;
  • permanências;
  • barreiras;
  • atmosferas;
  • encontros;
  • conflitos;
  • desvios;
  • transições;
  • memórias;
  • níveis de vigilância;
  • acessibilidade;
  • intensidade comercial;
  • ruído;
  • temperatura;
  • sensações corporais.

A cartografia deve conservar a natureza situada da experiência.

Uma sensação de ameaça registada por uma participante possui validade como dado experiencial, mas não representa automaticamente a experiência de todas as pessoas.

Formas de apresentação

Uma deriva pode resultar em:

  • mapa psicogeográfico;
  • relato experimental;
  • ensaio;
  • diário;
  • publicação;
  • livro de artista;
  • performance;
  • instalação;
  • filme-ensaio;
  • vídeo;
  • fotografia;
  • arquivo sonoro;
  • caminhada pública;
  • workshop;
  • contra-roteiro;
  • intervenção urbana;
  • jogo;
  • website;
  • jardim digital;
  • narrativa hipertextual;
  • atlas;
  • exposição de investigação;
  • proposta de transformação espacial.

Dérive e metodologias de caminhada

As metodologias de caminhada constituem um campo amplo, que inclui etnografia móvel, caminhadas comentadas, investigação sensorial, peregrinação, práticas ambientais, performance e criação artística.

A deriva ocupa uma posição histórica específica dentro desse campo.

As suas características distintivas incluem:

  • origem letrista e situacionista;
  • orientação psicogeográfica;
  • crítica da vida quotidiana capitalista;
  • interrupção dos percursos funcionais;
  • comportamento lúdico-construtivo;
  • atenção às forças do terreno;
  • produção de cartografias de influência;
  • relação com a construção de situações;
  • horizonte de transformação urbana e social.

Uma caminhada pode utilizar técnicas derivadas da tradição situacionista sem reproduzir integralmente o seu projecto político. Essa adaptação deve ser reconhecida.

Dérive e flânerie

A figura do flâneur está associada ao observador urbano que percorre a cidade moderna, especialmente no contexto das transformações de Paris no século XIX.

A flânerie privilegia observação, anonimato, multidão e experiência estética da cidade.

A deriva introduz experimentação colectiva, construção de situações e crítica política explícita.

O flâneur observa frequentemente o espectáculo urbano. O participante numa deriva procura compreender e alterar temporariamente as condições que o produzem.

Dérive e surrealismo

Os surrealistas realizaram caminhadas, deambulações e experiências de encontro com o acaso.

A deriva herdou elementos dessas práticas, como a atenção ao inesperado e às associações.

Debord criticou, contudo, a entrega passiva ao acaso. A prática situacionista procurava articular desorientação, análise do terreno e transformação das condições de vida.

Dérive e Mythogeography

A mitogeografia herda elementos da deriva e expande-os através de:

  • mito;
  • ficção;
  • performance site-specific;
  • narrativas locais;
  • ruralidade;
  • património;
  • counter-tourism;
  • instruções participativas;
  • materiais de arquivo.

Uma deriva pode integrar um projecto mitogeográfico. A mitogeografia possui, contudo, um campo metodológico mais recente e híbrido.

Dérive e Deep Mapping

A deriva produz observações, trajectos, encontros e registos situados.

Esses materiais podem alimentar um deep map.

O deep mapping permite reunir as experiências da deriva com arquivos, testemunhos, dados, mapas históricos e materiais multimédia.

A deriva activa o território; o deep map organiza e relaciona as camadas produzidas.

Critérios de rigor

Pergunta clara

A suspensão do destino deve ser acompanhada por uma questão de investigação.

Fidelidade à experiência

As decisões e acontecimentos devem ser registados sem reconstruir retrospectivamente o percurso como sequência perfeita.

Contextualização política

As sensações devem ser relacionadas com condições materiais, sociais e históricas.

Reflexividade

A posição, as capacidades e os hábitos dos participantes influenciam a experiência.

Comparação

Repetir o percurso ou trabalhar em pequenos grupos permite identificar diferenças e recorrências.

Transparência metodológica

A regra inicial, a duração, o território e os métodos de documentação devem ser descritos.

Distinção entre observação e interpretação

O registo deve permitir perceber o que aconteceu, o que foi sentido e como foi posteriormente interpretado.

Coerência formal

A apresentação deve tornar visíveis as descobertas e tensões do processo.

Contributo crítico

A deriva deve produzir compreensão acerca da organização do espaço ou criar uma experiência que a questione.

Ética, segurança e acessibilidade

A tradição histórica da deriva contém práticas de risco, invasão e transgressão que não devem ser reproduzidas de forma acrítica.

Uma deriva contemporânea deve considerar:

  • segurança rodoviária;
  • condições meteorológicas;
  • propriedades privadas;
  • espaços arqueológicos protegidos;
  • zonas ambientalmente frágeis;
  • gravação de pessoas;
  • fotografia em contextos sensíveis;
  • trabalho nocturno;
  • isolamento;
  • assédio;
  • presença policial;
  • diferenças de género;
  • racialização;
  • idade;
  • mobilidade;
  • deficiência;
  • capacidade física;
  • acesso a transportes;
  • possibilidade de abandonar o percurso.

A liberdade de circular é distribuída de forma desigual.

Uma mulher sozinha, uma pessoa racializada, uma criança, uma pessoa com deficiência e um homem socialmente percebido como pertencente à maioria podem encontrar forças psicogeográficas muito diferentes no mesmo espaço.

Essas diferenças fazem parte da investigação.

Limites e riscos

Redução a passeio criativo

A dimensão crítica pode desaparecer quando a prática serve apenas para produzir inspiração ou imagens atmosféricas.

Fetichização do acaso

Escolhas aleatórias podem parecer libertadoras e continuar a reproduzir hábitos, desigualdades e zonas de conforto.

Estetização da precariedade

Espaços abandonados, bairros marginalizados e infraestruturas degradadas podem ser tratados como cenários visuais.

Romantização da transgressão

Entrar em propriedades, edifícios inseguros ou zonas protegidas pode colocar pessoas e património em risco.

Universalização do participante

A experiência de uma pessoa não representa todas as formas de habitar e atravessar o território.

Ausência de contexto

Uma sensação registada durante o percurso necessita de análise histórica e social.

Documentação excessiva

A produção contínua de fotografias, vídeos e dados pode impedir atenção ao ambiente.

Recuperação turística

A deriva pode ser transformada em actividade turística inofensiva, esvaziada da crítica que lhe deu origem.

Recuperação institucional

Museus, municípios e marcas podem adoptar a linguagem da experimentação enquanto preservam as estruturas questionadas pela prática.

Nova rotina

Uma regra repetida pode transformar-se rapidamente num novo automatismo.

A dérive na investigação artística

Na investigação artística, a deriva pode operar como:

  • método de trabalho de campo;
  • prática performativa;
  • dispositivo de observação;
  • processo de recolha;
  • experiência participativa;
  • mecanismo de composição;
  • forma de crítica urbana;
  • gerador de cartografias;
  • modo de construir situações;
  • estrutura narrativa.

A prática permite investigar espaço através do corpo e do acontecimento.

O conhecimento emerge das decisões, resistências, encontros e alterações de atenção produzidos durante o percurso.

A criação artística pode tornar essas relações perceptíveis através de mapas, imagens, sons, textos, performances e ambientes.

Dérive em Anamnese

Em Anamnese, a deriva pode funcionar como método auxiliar dentro de Território, Land of Serpents, Caminhos de Ophiussa, dos cadernos interpretativos locais e da investigação sobre cidades invisíveis.

A sua função principal seria interromper as leituras já estabilizadas do território.

Land of Serpents

A deriva pode revelar elementos do corredor atlântico que escapam aos roteiros históricos e turísticos.

Uma investigação pode observar:

  • passagens entre litoral e urbanização;
  • fronteiras entre património e quotidiano;
  • cursos de água ocultos;
  • antigos caminhos interrompidos;
  • zonas inacessíveis;
  • transformações provocadas pelo turismo;
  • sinais de erosão;
  • infraestruturas;
  • ritmos de trabalho;
  • espaços de permanência;
  • formas de vigilância;
  • narrativas oficiais;
  • vestígios ignorados.

A serpente pode funcionar como regra formal de movimento: seguir linhas sinuosas, mudanças de direcção, cursos de água e percursos que recusam a recta funcional.

Esta opção deve ser apresentada como dispositivo artístico, mantendo separada qualquer afirmação histórica.

Caminhos de Ophiussa

Os percursos podem incluir pequenas derivas orientadas.

Em vez de seguir integralmente o roteiro, o participante recebe uma instrução:

  • abandona o caminho durante quinze minutos;
  • segue o primeiro curso de água;
  • procura uma passagem não assinalada;
  • caminha na direcção oposta ao fluxo turístico;
  • regista cada mudança de atmosfera;
  • identifica três barreiras invisíveis;
  • permanece num ponto de transição;
  • segue uma linha de sombra.

A experiência individual pode ser registada e ligada ao jardim digital.

Cadernos interpretativos locais

Cada caderno pode incluir um exercício de deriva adaptado ao território.

A página pode conter:

  • pergunta;
  • área;
  • duração;
  • regra;
  • cuidados;
  • espaço para mapa;
  • campo de notas;
  • instruções para registar sensações e condições materiais;
  • ligação para partilha ou arquivo digital.

A deriva converte o leitor em participante da investigação.

Esposende

Uma deriva em Esposende poderia investigar a relação entre:

  • centro urbano;
  • rio;
  • litoral;
  • turismo;
  • pesca;
  • circulação automóvel;
  • memória;
  • zonas residenciais;
  • património;
  • espaços sazonais.

O percurso pode seguir as fronteiras entre aquilo que a cidade mostra e aquilo que permanece fora da sua imagem pública.

Rio Lethes

A deriva pode acompanhar margens, desvios, travessias e interrupções do rio.

Uma regra baseada em memória e esquecimento pode orientar o processo:

  • abandonar o mapa durante um período;
  • regressar através da memória;
  • registar aquilo que não se consegue reconstruir;
  • comparar o percurso recordado com o trajecto efectivo.

A dimensão simbólica deve ser articulada com observação territorial e fontes históricas.

Torre de Obsidiana

A cidade invisível do Porto pode ser investigada através de derivas nocturnas ou crepusculares, realizadas com condições adequadas de segurança.

Os percursos podem relacionar:

  • lugares da década de 1990;
  • espaços góticos;
  • edifícios do século XIX;
  • desaparecimentos urbanos;
  • memórias pessoais;
  • zonas transformadas;
  • sons;
  • atmosferas;
  • ficção.

A deriva permite observar como a cidade real e a cidade lembrada deixam de coincidir.

Jardim digital

A lógica da deriva pode ser transposta para a navegação.

O visitante pode receber:

  • uma ligação aleatória;
  • um percurso por associações;
  • uma regra de navegação;
  • um encontro possível entre páginas;
  • um mapa incompatível com o menu;
  • um desvio temporário;
  • uma sequência baseada em símbolos;
  • uma forma de deixar vestígios.

A deriva digital deve revelar ou perturbar as estruturas de navegação, atenção e classificação.

Possíveis projectos

Deriva das Margens

Percurso pelas fronteiras entre rio, cidade, estrada, praia e vegetação.

Contra-roteiro de Esposende

Exploração dos espaços excluídos da representação turística dominante.

Cartografia das Barreiras Invisíveis

Mapeamento de lugares onde o movimento é desencorajado por desenho urbano, vigilância, medo ou códigos sociais.

Deriva do Esquecimento

Percurso em que memória e desorientação se tornam objectos de investigação.

A Cidade que Desapareceu

Deriva por lugares transformados ou eliminados, relacionando memória pessoal e arquivo urbano.

Ophiussa sem Destino

Série de percursos orientados por água, linhas sinuosas, topónimos e mudanças de ambiente.

Um Dia numa Estação

Deriva estática dedicada às variações de uma estação, terminal ou lugar de passagem.

Caminhar contra o Turismo

Percurso que inverte, contorna ou interrompe um roteiro oficial.

Deriva Algorítmica

Exploração territorial orientada por um conjunto de instruções geradas e posteriormente analisadas.

Deriva entre Plataformas

Investigação digital sobre a forma como algoritmos, ligações e interfaces conduzem a circulação entre conteúdos.

Perguntas orientadoras

  • Que motivos orientam normalmente os meus movimentos?
  • Que trajectos repito?
  • Que zonas evito?
  • Que elementos atraem ou repelem?
  • Onde muda a atmosfera?
  • Que fronteiras não aparecem no mapa?
  • Que comportamentos são encorajados neste lugar?
  • Que actividades são impedidas?
  • Como organiza o trabalho esta zona?
  • Como organiza o consumo o percurso?
  • Onde posso permanecer sem comprar?
  • Quem pode circular livremente?
  • Quem é observado?
  • Que infraestruturas condicionam a experiência?
  • Que relação existe entre distância física e distância sentida?
  • Que regra pode interromper o hábito?
  • O acaso está realmente a produzir novidade?
  • Que diferenças surgem entre participantes?
  • Como posso contextualizar as sensações registadas?
  • Que transformação seria possível neste ambiente?
  • O que deve regressar ao território depois da investigação?

Autores, colectivos e figuras centrais

Guy Debord — formulou a teoria da deriva e a sua relação com psicogeografia, crítica urbana e construção de situações.

Ivan Chtcheglov — antecipou aspectos fundamentais do urbanismo unitário e da experiência afectiva da cidade em Formulary for a New Urbanism.

Internacional Letrista — contexto inicial de desenvolvimento das práticas de deriva e psicogeografia.

Internacional Situacionista — colectivo que integrou a deriva num projecto político e cultural de transformação da vida quotidiana.

Michèle Bernstein — participante central nas experiências e formulações iniciais da Internacional Situacionista.

Asger Jorn — co-fundador da Internacional Situacionista e figura importante na articulação entre arte, política e transformação ambiental.

Constant Nieuwenhuys — desenvolveu New Babylon, projecto de uma cidade transformável destinada a uma vida nómada, lúdica e criativa.

Paul-Henry Chombart de Lauwe — os seus estudos sobre movimentos quotidianos em Paris influenciaram a reflexão psicogeográfica de Debord.

Henri Lefebvre — a crítica da vida quotidiana e a reflexão sobre produção do espaço constituem referências fundamentais para compreender o contexto situacionista.

Phil Smith — investigou as transformações contemporâneas da deriva e a sua relação com walking art, política do quotidiano e mitogeografia.

Bibliografia essencial

  • Chtcheglov, Ivan, sob o nome Gilles Ivain. “Formulary for a New Urbanism”. 1953.
  • Debord, Guy. “Introduction to a Critique of Urban Geography”. 1955.
  • Debord, Guy. “Theory of the Dérive”. 1956/1958.
  • Debord, Guy; Wolman, Gil J. “A User’s Guide to Détournement”. 1956.
  • Internationale Situationniste. “Definitions”. 1958.
  • Debord, Guy. The Society of the Spectacle. 1967.
  • Lefebvre, Henri. Critique of Everyday Life. 1947–1981.
  • Andreotti, Libero; Costa, Xavier, eds. Theory of the Dérive and Other Situationist Writings on the City. 1996.
  • Sadler, Simon. The Situationist City. 1998.
  • McDonough, Tom. Guy Debord and the Situationist International. 2002.
  • Careri, Francesco. Walkscapes: Walking as an Aesthetic Practice. 2002.
  • Coverley, Merlin. Psychogeography. 2006.
  • Smith, Phil. “The Contemporary Dérive: A Partial Review of Issues Concerning the Contemporary Practice of Psychogeography”. 2010.
  • Bassett, Keith. “Walking as an Aesthetic Practice and a Critical Tool”. 2004.
  • Pinder, David. Visions of the City: Utopianism, Power and Politics in Twentieth-Century Urbanism. 2005.

Resumo para o directório

A dérive, ou deriva situacionista, é uma prática experimental de exploração do espaço urbano que suspende temporariamente os percursos e finalidades habituais. Os participantes deixam-se orientar pelas atracções, barreiras, atmosferas e encontros do terreno, utilizando a experiência para investigar os efeitos do ambiente sobre o comportamento e questionar a organização funcional, comercial e política da vida quotidiana.

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