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Fão e a Praia de Ofir

by Inês Soares

Entre História e Mito na Terra das Serpentes

Na foz do rio Cávado, entre as dunas atlânticas e os vestígios de um passado ancestral, ergue-se Fão, vila milenar cujo património natural, arqueológico e simbólico a torna uma das regiões mais singulares do noroeste peninsular. A sua praia, Ofir, não é parte integrante de um sistema mitológico que atravessa as épocas e conecta Portugal à mítica Terra das Serpentes, a Ofiússa.


Fão: Etimologia e Continuidade Histórica

A origem do nome Fão remonta, muito provavelmente, ao latim fanum, significando “templo” ou “lugar sagrado”. A evolução fonética fanum > fano > Fão é linguisticamente plausível e reforça a hipótese de que o local abrigava um santuário de carácter religioso, possivelmente associado a cultos aquáticos como o da deusa galaico-romana Nabia. Outras interpretações apontam para uma origem germânica, associando o nome a “Fanno”, presente em lendas locais.

A ocupação humana da região é anterior à romanização, com vestígios pré-históricos e castrejos nas imediações, nomeadamente no Castro de S. Lourenço. Durante a Idade Média, Fão torna-se um importante centro salineiro, sendo documentado em 959 no Códice de D. Mumadona. No período moderno, destacou-se também pela construção naval.


O Cemitério Medieval das Barreiras

O Cemitério das Barreiras é considerado a maior necrópole medieval da Península Ibérica. Escavado a partir de 1989, revela sepulturas datadas entre os séculos XI e XIV, com orientação cristã (cabeça a ocidente). Muitos dos enterramentos estão associados à Peste Negra, sugerindo que a epidemia teve impacto relevante na região. O sítio viria a ser soterrado por dunas, o que contribuiu para o abandono da zona e o deslocamento populacional.


Assoreamento do Cávado e Declínio Económico

Durante a Idade Moderna, sobretudo a partir do século XVIII, o rio Cávado sofreu um intenso processo de assoreamento devido à dinâmica natural de ventos e sedimentos, bem como à construção de moinhos, azenhas e pesqueiras. A navegabilidade do rio degradou-se, dificultando a entrada de embarcações e comprometendo o comércio local. Em 1927 encerraram-se os estaleiros navais, marcando o fim de uma era económica para Fão. Este processo foi tão severo que relatos mencionam a igreja local parcialmente soterrada por areias.


A Praia de Ofir e a Lenda do Ouro de Salomão

Ofir, actualmente nome da praia de Fão, surge ligado a uma tradição que a identifica com a lendária terra do ouro mencionada no Antigo Testamento. Segundo a lenda, era da foz do Cávado que partiam navios fenícios, ao serviço do Rei Salomão, carregando ouro, prata, marfim e madeiras preciosas com destino a Jerusalém. Como retribuição, Salomão teria enviado cavalos puros de origem árabe, mas a embarcação naufragou numa tempestade, e os cavalos transformaram-se em rochedos visíveis na maré baixa: os chamados “Cavalos de Fão”.

Uma versão posterior da lenda introduz a princesa árabe Kalilla e o mito da Sereia das Lágrimas, fundindo elementos orientais, mitologia natural e topônimos locais.


Ofiússa e a Invasão de Serpentes

Segundo a Ora Maritima de Avieno (século IV), os povos mais antigos do extremo ocidente foram expulsos por uma “invasão de serpentes”. Os “Ofis” ou “Sefes”, identificados como povos serpentários, viriam a povoar a região atlântica, incluindo a foz do Cávado. A serpente, enquanto símbolo, assume aqui um papel central: representa sabedoria, regeneração e o elemento ctónico das culturas pré-cristãs.

A tradição das mouras encantadas — mulheres sobrenaturais associadas a fontes, castros e monumentos megalíticos — mantém vívida esta herança. A sua aparição, por vezes sob forma de serpente, reforça a continuidade simbólica entre o mundo castrejo, galaico e os mitos modernos.


Fão não é apenas um lugar de veraneio ou património histórico. É um ponto de convergência entre a história documentada e o património imaterial. A transição de centro portuário para paisagem mítica acompanha o processo de transformação cultural da região. A praia de Ofir, longe de ser apenas um destino turístico, guarda na sua toponímia e nos seus rochedos as camadas de um passado onde a lenda e a memória têm tanto peso quanto a evidência arqueológica.

Fão permanece, assim, como um fragmento vivo da antiga Ofiússa — Terra das Serpentes.

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