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O protocolo como obra

Na margem da Bienal de Veneza, uma exposição propõe que as regras que governam a cultura digital sejam elas próprias o material artístico. Chama-se Protocol Art.

by Inês Soares

Na margem da Bienal de Veneza, uma exposição propõe que as regras que governam a cultura digital sejam elas próprias o material artístico. Chama-se Protocol Art.

A 61.ª Bienal de Arte de Veneza decorre entre 9 de maio e 22 de novembro de 2026, sob o tema In Minor Keys — uma proposta que a curadora Koyo Kouoh concebeu como uma mudança de velocidade, uma atenção às frequências mais subtis da criação contemporânea. Kouoh faleceu a 10 de maio de 2025, um ano antes da abertura, e a Bienal decidiu honrar o seu projeto tal como ela o tinha definido. A exposição abriu, portanto, como um ato póstumo e coletivo.

Mas se o tema oficial pede subtileza e recolhimento, a margem da Bienal fala uma linguagem diferente. Entre os projetos paralelos mais comentados desta edição está Strange Rules, instalado no Palazzo Diedo a partir de 4 de maio. A exposição é a primeira iniciativa em Itália dedicada a uma reflexão curatorial e teórica sustentada sobre o que os seus organizadores chamam Protocol Art.

O conceito é simples de enunciar e difícil de esgotar: a Protocol Art não produz apenas imagens ou objetos, torna visíveis as regras, estruturas e sistemas que determinam como a cultura é gerada, distribuída e percebida na era digital. Essas regras estão frequentemente incorporadas em algoritmos, modelos de inteligência artificial, protocolos computacionais, plataformas e infraestruturas tecnológicas. A obra não é o resultado: é o processo, a instrução, a arquitetura invisível.

Strange Rules é comissariada por Mat Dryhurst, Holly Herndon e Hans Ulrich Obrist, com Adriana Rispoli, e reúne artistas como Trevor Paglen, Philippe Parreno, Simon Denny, Avery Singer, Primavera De Filippi e o coletivo terra0, entre outros. A peça central do espaço é uma grande instalação de Herndon e Dryhurst no primeiro piso: agentes escrevem software em direção a um objetivo coletivo, deliberando entre si com memória cumulativa, num sistema aberto à participação dos visitantes. Não é cenografia. É um parlamento: humanos e máquinas em sessão contínua.

Em paralelo, o projeto prevê uma publicação que será o primeiro levantamento abrangente da Protocol Art como campo de prática, com o Palazzo Diedo a funcionar simultaneamente como espaço expositivo e ambiente de investigação em curso.

O que torna este momento interessante não é a tecnologia em si, mas a deslocação do ponto de atenção. Durante décadas, a arte digital foi avaliada pelos seus produtos: a imagem gerada, a instalação interativa, o vídeo. A Protocol Art propõe outra questão: quem escreve as regras do jogo, e o que acontece quando essas regras se tornam a obra? Numa Bienal marcada por protestos, boicotes e demissões em cadeia do júri (todas elas reações a protocolos institucionais e políticos), a pergunta tem uma ressonância que ultrapassa os limites do Palazzo Diedo.

Veneza, em 2026, não está a discutir o futuro da arte pós-internet. Está a descobrir que a internet nunca foi um meio. Foi sempre uma estrutura de poder.

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