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Os mortos do interior

Uma necrópole de 6.000 anos perto de Toledo desafia a ideia de que o megalitismo europeu chegou à Península Ibérica exclusivamente pelas costas.

by Inês Soares

Uma necrópole de 6.000 anos perto de Toledo desafia a ideia de que o megalitismo europeu chegou à Península Ibérica exclusivamente pelas costas. As comunidades do planalto interior podem ter construído os seus monumentos funerários de forma independente — e ao mesmo tempo.

Durante décadas, o mapa mental do megalitismo europeu seguiu as linhas de costa. A ideia dominante era a de uma difusão cultural irradiando a partir de centros costeiros atlânticos e mediterrânicos, propagando-se progressivamente para o interior. A necrópole de Valdelasilla, em Illescas perto de Toledo, com cerca de 6.000 anos, veio complicar esse modelo. Os arqueólogos identificaram aqui o que descrevem como a mais antiga necrópole monumental conhecida no interior da Península Ibérica, e a datação coloca a sua primeira utilização ao mesmo tempo que os centros megalíticos costeiros, não depois.

O estudo foi publicado na Cambridge Archaeological Journal e liderado por Rosa Barroso Bermejo, da Universidade de Alcalá, com investigadores de várias instituições espanholas. A análise de 21 datações por radiocarbono, processadas com modelação estatística bayesiana, dividiu o sítio em cinco fases de uso. As primeiras sepulturas monumentais aparecem entre cerca de 4336 a.C. e 3849 a.C., possivelmente dentro de uma única geração, sugerindo que o cemitério foi concebido com um desenho premeditado desde o início.

As escavações começaram em 2020, durante trabalhos de construção na área. Sob terreno agrícola perturbado por anos de cultivo, os arqueólogos descobriram quinze estruturas funerárias com restos humanos. O cemitério tinha uma disposição clara: a necrópole principal ocupava o terreno mais elevado, enquanto sepulturas menores e menos organizadas apareciam mais a sul.

A estrutura central, VLD-T450, formava o núcleo do conjunto. Os arqueólogos identificaram uma câmara funerária circular com cerca de seis metros de diâmetro, rodeada por um fosso com diâmetro interno de 36 metros. Tanto o fosso como a câmara partilhavam a mesma entrada voltada a sudeste — o que mostra que faziam parte de um único projeto arquitetónico. No interior do fosso apareceram fragmentos de cerâmica, instrumentos de pedra, restos de animais e vestígios de fogo. Nenhum osso humano foi encontrado ali.

A câmara funerária continha vários estratos de restos humanos. No nível inferior, os arqueólogos descobriram o corpo de uma mulher adulta sepultada em posição fetal sobre o lado direito, com alfinetes de osso e uma sovela sob a cabeça. Junto a ela estavam os restos desarticulados de outra mulher, tingidos com pigmento vermelho e acompanhados de contas e pendentes. Um nível superior continha os restos parciais de um homem adulto; os ossos misturados na câmara representavam pelo menos mais seis indivíduos. Os investigadores acreditam que a sepultura se foi transformando numa câmara de enterramento coletivo usada ao longo de gerações.

Outros túmulos no sítio revelaram enterramentos duplos, triplos e a sepultura de uma criança numa cova revestida de pedra sem espólio. Vários esqueletos apresentavam vestígios de óxido de ferro vermelho, um material frequentemente associado a rituais funerários pré-históricos em toda a Ibéria. Entre os objetos recuperados contam-se mais de cem conchas do género Antalis, contas de pedra, pendentes, sovelas e instrumentos de pedra polida — a maioria de origem local, mas as conchas provenientes de outros territórios.

A dimensão social da descoberta é tão relevante quanto a cronológica. Os investigadores argumentam que o cemitério reflete distinções sociais expressas mais através da arquitetura do que da riqueza material. O túmulo central exigiu maior esforço coletivo de construção e continha mais ornamentos do que as sepulturas envolventes, sugerindo um estatuto especial dentro da comunidade. Ainda assim, o espólio funerário era globalmente limitado.

Os resultados acrescentam peso a uma teoria crescente: o megalitismo europeu não emergiu de uma única origem costeira. Em vez disso, várias regiões conectadas da Europa parecem ter desenvolvido tradições de construção monumental de forma independente mas simultânea. Valdelasilla mostra que as comunidades do planalto ibérico desempenharam um papel ativo na origem da arquitetura monumental funerária muito antes do que os investigadores acreditavam.

A investigação está disponível em doi.org/10.1017/s0959774326100559.

Créditos da imagem

https://www.cambridge.org

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