Sonic Research — Investigação Sonora

Tipo: Família de metodologias e práticas de investigação
Família: Investigação artística · território e práticas situadas
Campos: Investigação artística · sound studies · arte sonora · ecologia acústica · etnografia sensorial · música experimental · media art · estudos de território
Conceitos relacionados: Escuta profunda · paisagem sonora · caminhada sonora · gravação de campo · cartografia sonora · ecologia acústica · investigação incorporada · Deep Mapping · autoetnografia · arquivo sonoro

Definição breve

Sonic Research, ou investigação sonora, designa um conjunto de práticas que utiliza o som, a escuta, a gravação, a composição e a experiência acústica como formas de investigar e produzir conhecimento.

O som pode constituir simultaneamente objecto de estudo, material artístico, método de observação, documento, dispositivo crítico e forma de apresentação da investigação.

O que é Sonic Research

A investigação sonora parte da ideia de que o mundo também se torna legível através da escuta.

Lugares, comunidades, corpos, tecnologias e acontecimentos produzem ambientes acústicos próprios. Vozes, silêncios, ritmos, ruídos, reverberações, máquinas, animais, água, vento e sinais eléctricos oferecem informação sobre as relações que formam um determinado contexto.

A escuta revela aspectos que uma abordagem predominantemente visual pode deixar na margem:

  • distâncias e proximidades;
  • ritmos de utilização do espaço;
  • presenças humanas e não humanas;
  • transformações ambientais;
  • actividades ocultas;
  • relações de poder;
  • formas de vigilância e controlo;
  • memórias;
  • atmosferas;
  • conflitos entre usos do território;
  • marcas de tecnologias e infraestruturas.

Sonic Research pode investigar o som através de análise histórica, cultural ou tecnológica. Pode também produzir conhecimento mediante a prática: escutar, caminhar, gravar, editar, compor, amplificar, transmitir, instalar e criar situações de audição.

A designação funciona como um campo abrangente. Cada projecto precisa de identificar os métodos concretos que utiliza e o papel desempenhado pelo som na investigação.

Som, audição e escuta

A audição refere-se à capacidade sensorial de detectar estímulos sonoros. A escuta envolve atenção, selecção e interpretação.

Escutar é uma actividade situada. Diferentes pessoas podem atribuir significados distintos ao mesmo acontecimento acústico, de acordo com a sua história, cultura, corpo, conhecimento, posição social e relação com o lugar.

Uma campainha pode funcionar como sinal doméstico, memória de infância, mecanismo institucional ou forma de vigilância. O som de uma fábrica pode representar trabalho, poluição, segurança económica, ameaça ambiental ou desaparecimento de uma paisagem.

A investigação sonora observa aquilo que soa e também:

  • quem possui condições para escutar;
  • quem produz o som;
  • quem é obrigado a ouvi-lo;
  • quem controla o seu volume e circulação;
  • que sons recebem estatuto cultural;
  • que vozes são reconhecidas;
  • que silêncios são impostos;
  • que tecnologias mediam a experiência.

A escuta constitui, assim, uma prática perceptiva, cultural, política e ética.

Delimitação do campo

Sonic Research cruza várias disciplinas e práticas, mas não se confunde integralmente com nenhuma delas.

Sound Studies

Os sound studies investigam as dimensões históricas, culturais, sociais, tecnológicas e políticas do som e da escuta.

Podem analisar gravação, rádio, voz, música, ruído, tecnologias auditivas, práticas de escuta, reprodução sonora, media, urbanismo e relações de poder.

A investigação pode ser essencialmente teórica e documental, embora também possa integrar métodos etnográficos e artísticos.

Arte sonora

A arte sonora utiliza o som como matéria principal ou estruturante da obra.

Pode assumir a forma de instalação, performance, intervenção pública, composição, rádio, escultura, ambiente imersivo, obra digital ou experiência participativa.

Uma obra sonora torna-se investigação artística quando o processo de criação é orientado por uma questão, produz conhecimento e inclui reflexão crítica sobre os métodos e resultados.

Ecologia acústica

A ecologia acústica estuda as relações entre seres humanos, seres não humanos e ambientes sonoros.

Presta atenção às transformações da paisagem sonora, à poluição acústica, à preservação de sons, às alterações ambientais e às formas como diferentes comunidades habitam acusticamente um território.

Investigação musical

A investigação musical pode concentrar-se em composição, interpretação, improvisação, instrumentos, notação, tecnologia, pedagogia ou história da música.

Sonic Research abrange igualmente sons quotidianos, ambientais, mecânicos, vocais ou não musicais.

Etnografia sonora

A etnografia sonora utiliza escuta, gravação e produção áudio para investigar culturas, comunidades e experiências sociais.

O som pode funcionar como dado etnográfico, meio de colaboração e forma de apresentação da investigação.

Acústica

A acústica estuda cientificamente a produção, propagação e percepção física do som.

Um projecto de investigação sonora pode integrar medições acústicas, mas também pode concentrar-se nas dimensões culturais, afectivas, narrativas ou artísticas da experiência.

Genealogias da investigação sonora

A investigação sonora não possui uma origem única. O campo contemporâneo resulta do encontro entre várias genealogias.

Música experimental e expansão da escuta

Durante o século XX, a música experimental ampliou progressivamente aquilo que podia ser considerado material sonoro.

O ruído, o silêncio, o acaso, os sons quotidianos, o espaço e a participação do público passaram a integrar práticas musicais e performativas.

John Cage teve um papel importante nesta transformação, ao deslocar a atenção da obra musical fechada para a escuta dos acontecimentos sonoros que já existem num ambiente.

Música concreta

Pierre Schaeffer e a música concreta exploraram a gravação como material de composição.

Os sons registados podiam ser isolados da sua origem, repetidos, cortados, sobrepostos e transformados. A gravação deixou de funcionar apenas como reprodução de uma performance e tornou-se instrumento de criação e análise.

A noção de escuta reduzida procurava concentrar a atenção nas características sonoras, suspendendo temporariamente a identificação da sua fonte.

Paisagem sonora e ecologia acústica

R. Murray Schafer e o World Soundscape Project desenvolveram, a partir do final da década de 1960, uma investigação sistemática dos ambientes sonoros.

A noção de paisagem sonora permitiu estudar os sons que caracterizam uma comunidade, um ecossistema ou um período histórico.

Hildegard Westerkamp expandiu este campo através da caminhada sonora, da composição de paisagem sonora e de uma abordagem crítica e pedagógica à escuta do ambiente.

Deep Listening

Pauline Oliveros desenvolveu a prática de Deep Listening a partir da composição experimental, da improvisação, das meditações sonoras e da atenção ao corpo.

A prática relaciona escuta, movimento, imaginação, sonho, ambiente e criação colectiva. A escuta é cultivada como competência artística e forma de consciência.

Sound Studies

A partir das últimas décadas do século XX, os sound studies consolidaram um campo interdisciplinar dedicado às culturas auditivas.

Investigadores como Jonathan Sterne mostraram que as formas de ouvir e reproduzir som têm histórias próprias. Tecnologias, instituições, discursos científicos e hábitos culturais participam na definição daquilo que uma sociedade reconhece como som, ruído, voz, música ou silêncio.

Filosofia e política da escuta

Salomé Voegelin desenvolveu uma filosofia da escuta centrada na natureza relacional, contingente e participativa do som.

Brandon LaBelle investigou as relações entre som, espaço público, comunidade, voz, resistência e formas de organização social.

Ana María Ochoa Gautier mostrou como práticas de escuta e concepções de voz, linguagem e natureza participam na construção de categorias políticas, culturais e coloniais.

Estas abordagens reforçaram a compreensão da escuta como modo de conhecimento e prática política.

Princípios fundamentais

A escuta como método

A escuta pode orientar o trabalho de campo, a observação, a análise e a reflexão.

Escutar metodologicamente implica regressar aos ambientes, comparar registos, identificar padrões, reconhecer limites perceptivos e documentar as condições em que a experiência ocorreu.

O som como material

O som possui duração, frequência, intensidade, textura, ritmo, direcção e comportamento espacial.

Pode ser registado, editado, composto, amplificado, filtrado, transmitido, visualizado ou convertido noutros formatos.

As transformações realizadas sobre o material sonoro participam na produção de significado.

O som como relação

O som acontece através da relação entre fonte, meio, espaço, tecnologia e ouvinte.

Uma gravação não contém simplesmente um lugar. Regista um encontro específico entre equipamento, posição, ambiente, momento e escolhas da pessoa que gravou.

Escuta situada

Toda a escuta acontece a partir de um corpo e de uma posição.

Idade, cultura, capacidades auditivas, conhecimento, memória, expectativa, atenção e tecnologia alteram aquilo que pode ser ouvido e interpretado.

Temporalidade

O som existe no tempo. Surge, transforma-se e desaparece.

A investigação sonora permite observar repetição, duração, ritmo, mudança, espera, interrupção e recorrência.

Espacialidade

O som informa sobre dimensões, materiais, fronteiras e distâncias.

Reverberação, eco, absorção, intensidade e movimento contribuem para a percepção de um espaço.

Mediação tecnológica

Microfones, auscultadores, gravadores, plataformas, sistemas de compressão e altifalantes interferem na experiência.

A tecnologia selecciona frequências, altera proporções, elimina informação e cria novas condições de escuta.

Reflexividade

A investigadora deve considerar o modo como as suas escolhas influenciam o material recolhido.

Escolher onde colocar um microfone, quando começar a gravar, que sons excluir e como editar são decisões interpretativas.

Ética da escuta

Escutar e gravar envolvem responsabilidade.

Vozes, conversas, cerimónias, ambientes privados, comunidades e espécies vulneráveis exigem atenção ao consentimento, ao contexto e às consequências da circulação pública dos registos.

Métodos e práticas principais

Escuta atenta

Consiste em dedicar atenção deliberada a um ambiente, acontecimento ou material sonoro.

Pode envolver permanência silenciosa, repetição da audição, descrição escrita e comparação entre diferentes posições.

Deep Listening

Prática específica desenvolvida por Pauline Oliveros, combinando meditações sonoras, movimento, improvisação, corpo e escuta do ambiente interno e externo.

Pode contribuir para desenvolver atenção, consciência espacial e capacidade de escuta colectiva.

Soundwalk — caminhada sonora

Percurso realizado com atenção dirigida ao ambiente acústico.

A caminhada pode seguir um trajecto previamente definido ou responder aos sons encontrados. Durante o percurso podem ser produzidas notas, mapas, fotografias, gravações e descrições.

Gravação de campo

Registo sonoro efectuado fora do estúdio, frequentemente em ambientes naturais, urbanos, domésticos ou industriais.

Pode documentar um lugar, acompanhar observação etnográfica, criar um arquivo ou fornecer matéria para composição.

Diário sonoro

Registo regular de sons, experiências auditivas e reflexões.

Pode integrar gravações, notas escritas, localização, hora, condições meteorológicas, descrição do ambiente e reacções pessoais.

Entrevista sonora e história oral

A voz é registada como testemunho, presença corporal e acontecimento acústico.

Para além das palavras, a investigação pode observar ritmo, pausa, hesitação, respiração, ambiente e relação entre interlocutores.

Cartografia sonora

Relaciona sons com lugares, percursos ou coordenadas.

Pode resultar num mapa interactivo, arquivo georreferenciado, instalação, percurso pedestre ou atlas sonoro.

Análise de paisagem sonora

Observa os elementos acústicos que caracterizam um ambiente e as relações entre eles.

Pode identificar sons contínuos, sinais recorrentes, marcas identitárias, ritmos horários, conflitos e alterações ao longo do tempo.

Composição de paisagem sonora

Utiliza gravações ambientais para criar uma obra que interpreta, reorganiza ou problematiza a experiência de um lugar.

A composição transforma o material, preservando ou reconfigurando as suas relações espaciais e contextuais.

Escuta crítica

Analisa as condições culturais, políticas, tecnológicas e institucionais da produção sonora.

Pergunta quem pode falar, quem é escutado, que sons dominam um espaço e que formas de silêncio são produzidas.

Autoetnografia sonora

Utiliza experiências pessoais de escuta, gravação e composição para investigar contextos culturais mais amplos.

Memória auditiva, arquivo doméstico, voz, hábitos musicais e paisagens sonoras biográficas podem constituir o corpus.

Arquivo sonoro

Reúne gravações, testemunhos, emissões, documentos, sons ambientais e materiais relacionados.

O arquivo deve incluir informação sobre origem, data, lugar, autoria, contexto, direitos e condições técnicas de gravação.

Sonificação

Converte dados em parâmetros sonoros.

Ritmo, altura, intensidade, timbre e duração podem representar variações existentes num conjunto de dados científicos, ambientais, históricos ou sociais.

Sonic fiction

Utiliza som, especulação e narrativa para construir mundos possíveis ou investigar realidades difíceis de representar documentalmente.

A ficção sonora pode revelar dimensões políticas, afectivas e imaginárias da escuta, desde que o estatuto especulativo dos materiais seja explicitado.

Intervenção sonora

Introduz sons, dispositivos ou situações de escuta num espaço.

A intervenção pode revelar propriedades acústicas, alterar comportamentos, activar participação ou questionar os usos existentes do lugar.

Como desenvolver um projecto de Sonic Research

1. Definir a questão

O projecto começa com uma pergunta que justifique a utilização do som.

Exemplos:

  • Como se transforma a paisagem sonora de uma zona costeira?
  • Que memórias são activadas por determinados sons?
  • Que vozes permanecem ausentes do arquivo?
  • Como altera o turismo a experiência acústica de um lugar?
  • Que sons indicam transformações ecológicas?
  • Como se constrói acusticamente uma sensação de pertença?
  • Que infraestruturas se tornam audíveis durante a noite?
  • Que ritmos organizam o quotidiano de uma comunidade?

2. Identificar o papel do som

É necessário decidir se o som funcionará como:

  • objecto de estudo;
  • fonte documental;
  • método de observação;
  • material de composição;
  • meio de participação;
  • dispositivo de apresentação;
  • combinação destas funções.

Esta decisão orienta a escolha dos métodos.

3. Situar a investigadora

A relação com o campo deve ser explicitada.

A investigadora pode ser residente, visitante, descendente, artista, membro de uma comunidade ou observadora externa.

A posição corporal e social influencia o acesso, a escuta e a interpretação.

4. Realizar uma escuta preliminar

Antes de gravar, convém permanecer no lugar e ouvir.

A escuta preliminar permite reconhecer ritmos, fontes, horários, zonas de interesse e possíveis limitações éticas ou técnicas.

Podem ser produzidos mapas desenhados, listas de sons e notas descritivas.

5. Construir um protocolo flexível

O protocolo pode definir:

  • lugares;
  • percursos;
  • horários;
  • duração dos registos;
  • equipamento;
  • posição dos microfones;
  • condições meteorológicas;
  • formas de participação;
  • informação contextual a recolher;
  • procedimentos de consentimento.

A estrutura permite comparar materiais sem eliminar a abertura ao imprevisto.

6. Recolher materiais

A recolha pode integrar:

  • gravações ambientais;
  • entrevistas;
  • caminhadas;
  • diários;
  • fotografias;
  • vídeo;
  • mapas;
  • medições;
  • documentos históricos;
  • emissões radiofónicas;
  • arquivos familiares;
  • objectos sonoros;
  • dados ambientais;
  • descrições escritas.

O som ganha maior legibilidade quando é relacionado com o contexto em que surgiu.

7. Registar metadados

Cada ficheiro deve ser acompanhado por informação básica:

  • data e hora;
  • localização;
  • duração;
  • equipamento;
  • formato;
  • condições ambientais;
  • pessoas presentes;
  • descrição do acontecimento;
  • consentimento e restrições;
  • observações da investigadora.

Sem contexto, uma gravação perde parte substancial do seu valor documental.

8. Escutar novamente

A análise começa com audições repetidas.

A investigadora pode escutar com auscultadores, altifalantes, diferentes volumes e velocidades, registando alterações na percepção.

Uma grelha de análise pode observar:

  • fontes;
  • camadas;
  • ritmos;
  • intensidade;
  • recorrência;
  • silêncio;
  • movimento;
  • espaço;
  • voz;
  • interferência tecnológica;
  • reacção corporal;
  • associações e memórias.

9. Relacionar o som com outras fontes

Os registos podem ser comparados com arquivos, mapas, fotografias, testemunhos, dados históricos e observações de campo.

A relação entre materiais ajuda a distinguir aquilo que foi registado, aquilo que foi interpretado e aquilo que permanece incerto.

10. Compor ou montar

A edição constitui uma fase interpretativa.

Cortar, ordenar, sobrepor, filtrar, repetir ou espacializar sons altera a forma como o material será compreendido.

O processo deve manter relação clara com a pergunta de investigação.

11. Testar a experiência de escuta

A apresentação deve ser testada em condições próximas das finais.

Espaço, qualidade dos altifalantes, reverberação, volume, duração, ruído exterior e posição do público transformam a obra.

Também devem ser consideradas formas alternativas de acesso, como transcrições, legendagem, descrição e representação visual ou táctil.

12. Reflectir e documentar

A investigação deve registar decisões, falhas, mudanças de método e descobertas produzidas durante a prática.

A documentação pode integrar texto, esquemas, imagens, excertos áudio, versões e notas de processo.

Materiais e equipamentos

Uma investigação sonora pode começar com equipamento simples.

Entre os recursos possíveis encontram-se:

  • telemóvel;
  • gravador portátil;
  • microfone estéreo;
  • microfone direccional;
  • microfone binaural;
  • microfone de contacto;
  • hidrofone;
  • captador electromagnético;
  • auscultadores;
  • computador;
  • software de edição;
  • sistema de altifalantes;
  • sensores;
  • mapas e dispositivos GPS.

A escolha do equipamento depende da pergunta.

Um hidrofone torna audíveis ambientes subaquáticos. Um microfone de contacto capta vibrações transmitidas por materiais. Um captador electromagnético revela sinais eléctricos normalmente inacessíveis à audição humana.

O equipamento amplia a escuta, mas também produz uma versão tecnicamente mediada do ambiente.

Formas de apresentação

Sonic Research pode resultar em:

  • instalação sonora;
  • composição;
  • arquivo digital;
  • mapa sonoro;
  • caminhada guiada;
  • podcast;
  • ensaio áudio;
  • peça radiofónica;
  • performance;
  • publicação com áudio;
  • filme-ensaio;
  • documentário;
  • website;
  • jardim digital;
  • aplicação;
  • experiência imersiva;
  • escultura sonora;
  • partitura;
  • atlas multimédia;
  • exposição;
  • narrativa transmédia.

O resultado pode conservar a forma documental, assumir uma composição artística ou articular ambas.

Critérios de rigor

Questão explícita

A utilização do som deve responder a uma pergunta de investigação identificável.

Adequação metodológica

Os métodos escolhidos devem ser adequados ao fenómeno observado.

Contextualização

Os registos devem incluir informação suficiente para compreender as condições em que foram produzidos.

Reflexividade

A investigadora deve reconhecer as suas escolhas, limitações perceptivas e intervenções técnicas.

Transparência da edição

As transformações realizadas sobre o material devem ser indicadas quando afectam o seu estatuto documental.

Escuta repetida

A análise exige várias audições e comparação entre materiais.

Relação entre prática e reflexão

A criação artística e a análise crítica devem informar-se mutuamente.

Ética

Consentimento, privacidade, autoria, contexto e efeitos da circulação pública devem ser considerados.

Acessibilidade

Uma investigação centrada no som deve prever formas de acesso para pessoas com diferentes capacidades auditivas.

Contributo

O projecto deve produzir conhecimento sobre o lugar, fenómeno, prática ou relação investigada.

Ética da gravação e da escuta

A possibilidade técnica de gravar um som não garante a legitimidade da sua utilização.

Conversas privadas, vozes identificáveis, rituais, ambientes domésticos, crianças, contextos de vulnerabilidade e práticas comunitárias exigem especial cuidado.

Antes da recolha, devem ser consideradas questões como:

  • Existe expectativa razoável de privacidade?
  • As pessoas sabem que estão a ser gravadas?
  • O consentimento inclui publicação e reutilização?
  • A gravação revela localização ou identidade?
  • Quem possui os direitos sobre a voz, música ou performance?
  • A circulação pode expor práticas sensíveis?
  • O som foi retirado de um contexto cultural específico?
  • A comunidade participa na interpretação e apresentação?

A ética inclui também a relação com ambientes não humanos. A gravação pode interferir com espécies, habitats e zonas ecologicamente sensíveis.

Limites e riscos

Fetichização da gravação

Acumular sons sem uma questão clara pode produzir um arquivo extenso e pouco legível.

Ilusão de transparência

Uma gravação parece oferecer acesso directo ao acontecimento, mas resulta sempre de enquadramento, equipamento e selecção.

Domínio visual

O som pode ser apresentado como mero acompanhamento de imagens, perdendo a sua capacidade investigativa própria.

Estetização do território

Ruínas, ambientes industriais, comunidades ou crises ecológicas podem ser transformados em atmosferas sedutoras sem contextualização suficiente.

Universalização da escuta

A experiência auditiva da investigadora não representa todas as formas de ouvir o mesmo ambiente.

Romantização do silêncio

O silêncio pode resultar de tranquilidade, exclusão, abandono, censura, perda ecológica ou ausência de actividade. O seu significado depende do contexto.

Extracção sonora

Gravar uma comunidade e transportar os seus sons para outro contexto pode reproduzir formas de apropriação cultural e territorial.

Dependência técnica

A qualidade do equipamento pode ocupar atenção excessiva e afastar o projecto da pergunta de investigação.

Excesso de duração

O tempo real de uma experiência sonora nem sempre produz uma apresentação legível. A duração deve ser pensada como elemento formal e ético.

Sonic Research e investigação artística

Na investigação artística, o som permite produzir conhecimento através de experiência, composição e experimentação.

A montagem sonora pode aproximar temporalidades distintas. A espacialização pode revelar relações entre corpos e arquitectura. A repetição pode tornar perceptível um padrão. A amplificação pode fazer emergir vibrações ocultas. A ausência de som pode tornar visível uma perda.

A prática sonora é particularmente eficaz para investigar:

  • memória;
  • território;
  • ambiente;
  • corpo;
  • voz;
  • ausência;
  • quotidiano;
  • tecnologia;
  • comunidade;
  • temporalidade;
  • atmosfera;
  • relações humanas e não humanas.

A obra final pode funcionar como argumento sensorial. A sua capacidade investigativa depende da articulação entre experiência estética, documentação, método e reflexão.

Sonic Research em Anamnese

Em Anamnese, a investigação sonora pode atravessar vários campos da obra, sobretudo Território, Linhagem, Galeria das Sombras e a própria arquitectura do jardim digital.

Território

O corredor atlântico de Ophiussa possui uma dimensão acústica específica.

A investigação pode recolher:

  • marés;
  • vento;
  • dunas;
  • pinhais;
  • rios;
  • fontes;
  • sinos;
  • romarias;
  • pregões;
  • portos;
  • embarcações;
  • mercados;
  • oficinas;
  • estradas;
  • aves;
  • passos sobre diferentes superfícies;
  • vozes e pronúncias locais.

Estes sons podem revelar ritmos sazonais, transformações ecológicas, modos de trabalho e alterações na ocupação do território.

Caminhos de Ophiussa

Os percursos podem integrar caminhadas sonoras, gravações georreferenciadas e exercícios de escuta.

Cada ponto do roteiro pode conter uma camada auditiva: som actual, testemunho, leitura de arquivo, reconstituição ou composição.

O percurso transforma-se num mapa que se escuta durante o movimento.

Cadernos interpretativos locais

Cada caderno pode conter um pequeno arquivo sonoro associado ao território estudado.

Códigos QR ou ligações digitais podem abrir:

  • paisagens sonoras;
  • depoimentos;
  • fragmentos de leitura;
  • instruções de escuta;
  • gravações de campo;
  • composições;
  • mapas sonoros.

O caderno físico e o jardim digital funcionam como partes de uma publicação expandida.

Rio Lethes

O rio pode ser investigado através dos sons da água, margens, travessias, pontes, relatos e memórias.

A relação entre água e esquecimento pode ser trabalhada como composição sonora, ensaio áudio ou percurso de escuta.

Linhagem

Cartas, documentos e relatos históricos podem adquirir uma dimensão sonora através de leitura, voz, silêncio e reconstrução de ambientes.

As reconstituições devem ser claramente identificadas como interpretações artísticas.

Galeria das Sombras

A ausência de voz pode tornar-se matéria de investigação.

Silêncios do arquivo, nomes apagados, excertos incompletos, ruídos de documentos e vozes contemporâneas podem formar ensaios sonoros sobre apagamento feminino e memória.

Torre de Obsidiana

A cidade invisível pode ser composta através de gravações nocturnas, transportes, ecos, espaços subterrâneos, cemitérios, edifícios abandonados e memórias sonoras do Porto.

A investigação pode cruzar os sons actuais com ficção, arquivos e ambientes reconstruídos.

Jardim digital

O jardim pode integrar áudio como camada autónoma da navegação.

Uma página pode ser ouvida antes de ser lida. Um som pode funcionar como ligação entre projectos. Paisagens sonoras podem criar transições entre campos, lugares e temporalidades.

O desenho sonoro deve ser opcional, acessível e respeitador da experiência de navegação.

Possíveis projectos de investigação sonora

Atlas sonoro de Ophiussa

Arquivo georreferenciado de paisagens sonoras, testemunhos, cursos de água, sinos, caminhos e lugares arqueológicos.

O som das margens

Investigação sobre os ambientes acústicos dos rios e zonas costeiras, relacionando ecologia, memória e transformação territorial.

Vozes do arquivo

Ensaio sonoro construído a partir de cartas, documentos, silêncios e leituras de testemunhos históricos.

Caminhada do esquecimento

Percurso sonoro em torno do Rio Lethes, combinando instruções de escuta, gravações, texto e mito.

Cidade invisível

Cartografia sonora do Porto real e imaginado, atravessando o século XIX, a década de 1990 e o presente.

Herbário acústico

Arquivo de sons associados a plantas, vento, insectos, água e práticas tradicionais.

Caderno de escuta atlântica

Diário sonoro sazonal de um mesmo lugar, registado durante um ano.

Frequências fantasmáticas

Instalação ou peça radiofónica sobre vozes ausentes, gravações incompletas e memórias que sobrevivem através de ruído e interferência.

Perguntas orientadoras

  • O que pode ser conhecido através da escuta?
  • Que sons caracterizam este lugar?
  • Que relações se tornam audíveis?
  • Que sons desapareceram?
  • Quem controla o ambiente acústico?
  • Que vozes possuem autoridade?
  • Que pessoas ou seres são silenciados?
  • De que posição estou a escutar?
  • Como altera o equipamento aquilo que recolho?
  • Que informação contextual acompanha a gravação?
  • O som funciona como documento, interpretação ou composição?
  • Que transformações foram feitas durante a edição?
  • Como pode o público experienciar a investigação?
  • Que pessoas precisam de consentir?
  • Como tornar o projecto acessível?
  • O que deve permanecer sem gravação?

Autores e figuras centrais

R. Murray Schafer — desenvolveu o conceito de paisagem sonora e foi uma figura central do World Soundscape Project e da ecologia acústica.

Hildegard Westerkamp — aprofundou a caminhada sonora, a composição de paisagem sonora e a escuta crítica do ambiente.

Pauline Oliveros — criou a prática de Deep Listening, relacionando atenção, corpo, improvisação, meditação e consciência sonora.

John Cage — expandiu a escuta musical para incluir acaso, silêncio, ambiente e sons quotidianos.

Pierre Schaeffer — desenvolveu a música concreta e conceitos fundamentais para a escuta e manipulação de sons gravados.

Michel Chion — investigou a percepção sonora e as relações entre som, voz, imagem e media audiovisuais.

Jonathan Sterne — estudou as histórias culturais e tecnológicas da audição, da gravação e da reprodução sonora.

Salomé Voegelin — desenvolveu uma filosofia da escuta e do conhecimento sonoro centrada na experiência, participação e contingência.

Brandon LaBelle — investiga som, espaço público, voz, comunidade e política da escuta.

Ana María Ochoa Gautier — relaciona auralidade, conhecimento, colonialidade, natureza, linguagem e política.

Julian Henriques — trabalha som, corpo, ritmo, tecnologia e formas situadas e incorporadas de conhecimento.

Nina Sun Eidsheim — investiga voz, vibração, corpo e as dimensões multissensoriais da experiência sonora.

Bibliografia essencial

  • Cage, John. Silence: Lectures and Writings. 1961.
  • Schafer, R. Murray. The Tuning of the World. 1977.
  • Schaeffer, Pierre. Treatise on Musical Objects. 1966.
  • Oliveros, Pauline. Sonic Meditations. 1971.
  • Westerkamp, Hildegard. “Soundwalking”. 1974.
  • Chion, Michel. Audio-Vision: Sound on Screen. 1994.
  • LaBelle, Brandon. Background Noise: Perspectives on Sound Art. 2006.
  • Sterne, Jonathan. The Audible Past: Cultural Origins of Sound Reproduction. 2003.
  • Voegelin, Salomé. Listening to Noise and Silence: Towards a Philosophy of Sound Art. 2010.
  • Henriques, Julian. Sonic Bodies: Reggae Sound Systems, Performance Techniques, and Ways of Knowing. 2011.
  • Ochoa Gautier, Ana María. Aurality: Listening and Knowledge in Nineteenth-Century Colombia. 2014.
  • Voegelin, Salomé. Sonic Possible Worlds: Hearing the Continuum of Sound. 2014.
  • LaBelle, Brandon. Sonic Agency: Sound and Emergent Forms of Resistance. 2018.
  • Eidsheim, Nina Sun. Sensing Sound: Singing and Listening as Vibrational Practice. 2015.
  • Sterne, Jonathan, ed. The Sound Studies Reader. 2012.

Resumo para o directório

Sonic Research, ou investigação sonora, reúne práticas que utilizam som, escuta, gravação e composição como modos de observação, criação e produção de conhecimento. Pode investigar paisagens, corpos, comunidades, tecnologias, memórias e territórios através de trabalho de campo, análise crítica e experimentação artística.

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