Mitos e Lendas de Viana do Castelo – Terra Ancestral da Ofiússa
Viana do Castelo, uma das mais antigas e emblemáticas cidades do Minho, constitui um autêntico repositório de mitos, lendas e tradições ancestrais que conectam esta região com as raízes mais profundas da cultura galaico-lusitana. Conhecida historicamente como parte da mítica Ofiússa – a “Terra das Serpentes” -, Viana preserva nas suas tradições orais, festividades e monumentos um rico património de narrativas que ecoam desde os tempos pré-romanos até à atualidade, testemunhando a continuidade ininterrupta entre os cultos pagãos ancestrais e as manifestações populares contemporâneas.
A Lenda Fundadora de Viana – Ana e o Barqueiro
A mais emblemática das lendas de Viana do Castelo é a história de amor entre Ana e um jovem barqueiro, narrativa que explica a própria origem do nome da cidade e representa um dos mitos fundadores mais românticos do folclore português1.
Há muito tempo, na margem direita do rio Lima, erguia-se uma pequena povoação que tinha o nome de Átrio ou Adro1. Esta comunidade piscatória vivia da pesca, da construção naval e da comercialização de produtos marítimos, mantendo relações comerciais com as populações serranas que desciam com queijos, carnes e produtos agrícolas1.
Nesta povoação vivia uma linda rapariga que havia sido baptizada com o nome de Ana1. Esta jovem apaixonou-se perdidamente por um moço da outra margem, que por sinal era barqueiro1. A paixão destes dois jovens era tal que bem lhes apetecia estarem longas horas juntos, mas o rio os separava1.
O jovem barqueiro, louco de alegria pela sua paixão, não se conseguia conter e gritava constantemente: “Vi Ana do Castelo! Vi Ana do Castelo!”2. Segundo a lenda, teria sido assim que surgiu o nome de Viana para designar a então Átrio ou Adro1.
Esta lenda, perpetuada através dos séculos, não só explica a toponímia da cidade como também representa a força do amor que transcende obstáculos naturais, tema recorrente nas tradições orais da região.
A Lenda da Serra do Nó – Abakir e a Pastora Encantada
No tempo em que os mouros dominavam parte da península ibérica, vivia um chefe mouro, Abakir, na região de Viana do Castelo3. Abakir morava num castelo, mesmo no topo da serra do Nó, tinha fama de conquistador de terras e de mulheres e era dos mais ricos do mundo, segundo se dizia3.
Um dia, quando regressava a casa após mais uma batalha bem-sucedida, Abakir viu uma linda pastora por quem se apaixonou imediatamente3. Mandou que a trouxessem à sua presença e disse-lhe que queria que ela ficasse ali a viver com ele para sempre3.
Conhecendo a reputação de Abakir, a jovem pastora recusou a oferta. Enfurecido, Abakir mandou prender a pastora na torre do castelo até que lhe pedisse perdão por ter ousado afrontá-lo3. Como ela nunca o fez, Abakir ofereceu-lhe o seu amor incondicional. Então, a pastora impôs-lhe uma condição: afastar-se de outras mulheres e só ter olhos para ela. Abakir aceitou a imposição3.
Quando se ouviam já os gritos de vitória dos cristãos, Abakir abraçou a sua amada, pegou no Corão, sussurrou umas palavras misteriosas e fez um sinal mágico com a mão. Quando os cristãos chegaram à Serra do Nó, o castelo tinha desaparecido3.
Segundo conta a lenda, quem conseguir descobrir a entrada do castelo encantado através de uma gruta ficará possuidor de maravilhosas riquezas! Abakir e a pastora ainda podem ser vistos em noites de luar, vagueando pela serra, aparecendo àqueles que ousam tentar descobrir o mistério do castelo encantado3.
As Mouras Encantadas – Guardiãs dos Tesouros e Sabedorias Ancestrais
O território de Viana do Castelo está profundamente impregnado de lendas sobre mouras encantadas, figuras centrais do folclore galaico-lusitano que representam a persistência de antigos cultos de fertilidade e do sagrado feminino45.
A Lenda da Moura Encantada
Uma das mais elaboradas narrativas sobre mouras encantadas desenrola-se numa aldeia minhota, protagonizada por José, um jovem corajoso que encontra uma misteriosa moça encantada4.
Numa dessas desfolhadas tradicionais participadas pelos vizinhos e amigos numa aldeia do Minho, José seguiu uma figura misteriosa que o conduziu a um rochedo4. A personagem respondeu: “foste corajoso ao acompanhar-me, mas será preciso muito mais para me resgatar desta fada”. E levantando o véu, deixou à vista o seu rosto resplandecente4. O moço aproximou-se um pouco mais para ver a cor dos seus olhos e ficou encantado com o brilho daqueles olhos verdes4.
A moura revelou: “Sou cativa deste lugar há muitos séculos, só posso sair de duzentos em duzentos anos, se conseguires quebrar este encanto terás uma grande recompensa, se falhares, dobrarás a minha fada”4. Aproximou-se do moço, pediu-lhe coragem e beijou-o. Ele ao sentir os seus lábios gelados no seu rosto ficou muito assustado, ela caiu ao chão transformando-se numa serpente que se apreçou a entrar numa fraga do rochedo4.
José continuava a ir todos os dias, mas cada vez tinha mais medo, todas as sombras se transformavam em fantasmas e animais ferozes gigantes4. Confiou o segredo a três amigos, pedindo-lhes para o acompanhar ao sétimo dia4. Quando chegou o momento decisivo, os amigos, pensando que José estaria morto ou enfeitiçado, pediram que saísse como entrou. No mesmo momento, a moura exclamou! “Há malvados que dobraste a minha fada” e caiu pelo José abaixo transformada em serpente4.
O Penedo da Moura
No distrito de Viana do Castelo, na região de Valença, conserva-se a tradição do Penedo da Moura5. Segundo os relatos recolhidos, havia um penedo muito grande chamado o Penedo da Moura, com um buraco por baixo onde nos tempos antigos aparecia uma moura5. A gente abaixava-se a ver se via a moura, mas diziam: “Não filha, não vale a pena veres que ela não aparece, que ela só vem de noite”5.
Tradições Pagãs e Cultos Ancestrais da Deusa Nabia
O Culto à Deusa das Águas
A região de Viana do Castelo estava sob a proteção da deusa Nabia (ou Navia), a divindade das águas mais venerada pelos povos galaicos pré-romanos67. Na mitologia céltica, Nábia era a deusa dos rios e da água, tendo em sua honra o seu nome sido atribuído a diversos rios como o Navia, na Galiza e o Neiva e o Nabão em Portugal6.
Normalmente associada ao culto da água, dos vales e das montanhas, há indícios de que esta divindade pagã deu o nome ao rio Neiva8. O nome desta deusa significa “curso da água” e estava associada a todos os meios aquáticos: chuva, fontes, lagos, rios e oceano7. Devido à sua ligação com a água, era uma deusa da vida e fertilidade, também associada à lua, feminilidade e virgindade7.
A Fonte do Ídolo em Braga conserva inscrições epigráficas que atestam a devoção ancestral a esta deusa79. No frontão estão representados os símbolos das divindades Tongo Nabiagus (o martelo) e Nabia (a pomba)9.
Rituais e Oferendas à Deusa Nabia
Todos os anos, cerca de 50 pessoas deslocam-se até ao vale do Neiva, entre Durrães e Barroselas (Viana do Castelo) para recriar um “jantar ritual castrejo” e uma oferenda à deusa Nábia8. Os rituais em sua honra incluíam sacrifícios de gado – especificamente uma vaca e um boi – no dia 9 de abril7.
Esta tradição, mantida por arqueólogos e associações locais, procura recriar com bastante precisão o que ocorria há mais de 2.200 anos, no auge da “Idade do Ferro”, quando o Império Romano ainda não tinha conquistado o noroeste da Península Ibérica e a nossa cultura ainda era a deixada por tribos pagãs8.
A Cultura Castreja e os Povoados Fortificados
A Citânia de Santa Luzia – Portal entre Mundos
A Citânia de Santa Luzia, conhecida localmente por “Cidade Velha”, é um dos castros mais conhecidos do Norte de Portugal e sem dúvida um dos mais importantes para o estudo da proto-história e romanização no Alto Minho10. A sua localização estratégica permitia-lhe não só dominar vastas áreas da veiga litoral e ribeirinha, como também controlar o movimento de entradas e saídas na foz do rio Lima10.
O povoado apresenta características muito próprias, principalmente ao nível das estruturas arquitectónicas, sendo famoso o aparelho poligonal, trabalho de rara beleza e perfeição, em que foram construídas algumas das suas casas10. O espólio conhecido parece indicar que embora o local fosse já habitado desde os inícios da Idade do Ferro, o grande desenvolvimento do povoado se deve ter dado nos primórdios da romanização da região, tendo mantido uma ocupação pelo menos até ao Séc. V10.
Monumentos Megalíticos e Cultos Funerários
Na região de Viana do Castelo preservam-se importantes monumentos megalíticos, testemunhando cultos funerários ancestrais11. As mais emblemáticas são as da Cova da Moura, em Carreço e a Mamoa da Eireira11. Foi encontrada uma foice de alvado num recinto ritual da Cova da Moura (Viana do Castelo), que poderá denunciar a existência de sacerdotes12.
A Cova da Moura está associada a gravuras rupestres com motivos serpentiformes e espirais, símbolos de fertilidade, eternidade e ligação com o mundo espiritual13. A análise efetuada ao conjunto de signos permitiu denotar a presença de composições gráficas pertencentes à tradição artística que se convencionou denominar de arte atlântica13.
Festividades e Tradições com Raízes Pagãs
Nossa Senhora da Agonia – Cristianização de Cultos Marítimos
A célebre Romaria de Nossa Senhora da Agonia é a Rainha das Romarias portuguesas14. A devoção a Nossa Senhora da Agonia remonta ao século XVIII, quando os pescadores da região começaram a venerar a santa, pedindo proteção e boas pescarias1516.
Os pescadores de Viana do Castelo passaram a usar o título “da Agonia” pelo fato de enfrentarem sempre a grande luta contra os perigos do naufrágio. O mar da região era muito bravio e, com a ajuda de tufões, jogava os barcos em direção a uma falésia chamada de “Penedo Ladrão”. As famílias dos corajosos pescadores assistiam a tudo do cais, angustiadas com a luta que aqueles homens travavam pela vida15.
Embora cristianizado, este culto integra elementos de antigas festas marítimas e de devoção à deusa-mãe, protetora dos pescadores e das águas. A procissão marítima e a Procissão ao Mar, onde a imagem de Nossa Senhora da Agonia é levada até ao porto e embarcada num barco de pesca, seguida por uma frota de embarcações enfeitadas, ecoam antigos rituais pagãos de oferenda às divindades aquáticas1417.
As Mordomas e o Traje Ancestral
As icónicas mordomas, vestidas com o tradicional traje à vianesa, composto por cores vibrantes, bordados detalhados e joias de ouro, perpetuam tradições ancestrais14. Os trajes típicos, muitas vezes passados de geração em geração, são confeccionados com grande esmero e detalhe, refletindo a riqueza cultural da região17.
A origem fenícia dos minhotos explica a paixão ancestral pelo ouro, que se manifesta no famoso “Ouro de Viana”. Os fenícios desenvolveram e aprimoraram a metalurgia, técnicas que se refletem ainda hoje na tradição da filigrana minhota.
Tapetes de Sal e Arte Efémera
No dia 20 de agosto, a cidade acorda com mais cor, ao ver as suas ruas repletas de tapetes de sal, elaborados pelas gentes da Ribeira14. Estas obras de arte efémeras usam sal colorido para desenhar padrões intricados, motivos alusivos à pesca, à Romaria e à cidade e ainda imagens religiosas no chão14.
Esta tradição ecoa antigas práticas pagãs de ornamentação ritual e oferenda à divindade, cristianizadas mas preservando o carácter sagrado da arte efémera dedicada ao divino.
Banhos Santos e Rituais de Purificação
São Bartolomeu do Mar – Continuidade dos Cultos Pagãos
Em Esposende, próxima a Viana do Castelo, preserva-se a tradição do Banho Santo ligado à romaria de São Bartolomeu do Mar1819. A romaria de São Bartolomeu do Mar aparece documentada desde o século XVI, muito embora evidencie marcas de ancestralidade, devendo muito provavelmente ter tido a sua origem nalgum culto a uma divindade numa época anterior à cristianização dos povos peninsulares18.
Tudo leva a crer que estas práticas têm a sua origem mais remota nos ancestrais cultos pagãos em louvor das ninfas e outras divindades pré-romanas das águas ou ainda em rituais dedicados à deusa grega Ártemis – Diana na mitologia romana18. A tradição do Banho Santo ligado a rituais de purificação que têm na água a sua função primordial, é porventura aquela que confere maior significado a estas festividades18.
Os romeiros levam os filhos transportando consigo ao colo uma galinha preta, dando três voltas em redor da capela antes de nela entrarem para procederem à oferenda sacrificial19. Uma vez cumprido o ritual, encaminham-se para a praia onde terá lugar o “banho santo” das crianças nas águas gélidas e purificadoras do mar19.
Bruxaria e Tradições Ocultas
A Noite das Bruxas Vianense
Viana do Castelo mantém viva a tradição da “Noite das Bruxas”20. Recuperando a memória das tradições populares associadas às superstições de “sexta-feira, 13” e ao espírito carnavalesco, a rua é palco de uma animação constante, promovida por grupos que incarnam várias personagens20.
Iluminado a condizer, o espaço é invadido pelos sons e cheiros que remetem para a crença em dias aziagos e em entidades sobrenaturais20. A “Roda da Má Sorte”, o “Carro dos Feitiços”, a “Caixa dos medos” e o “Afasta bruxas” deambulam pela rua até à “Queima da Bruxa”. A noite termina com a “Queimada Galega”20.
Tradições de Feiticeiras e Encantamentos
Na região de Viana do Castelo conservam-se contos sobre feiticeiras que ecoam antigas práticas de magia popular21. Havia uma vez um casal que ela era feiticeira. Então esperava que o marido adormecesse. E ela tinha um caco debaixo da cama. E ela ia ao caco e benzia-se e dizia: “Por cima de silvaredo e por baixo do arvoredo”21.
O homem via sempre que lhe faltava a mulher. Um dia fez que dormia e não dormia. Então ela fez: “Por cima do silvaredo e por baixo do arvoredo”. Ele deixou-a sair e foi ele imitar. E diz ele: “Por baixo do silvaredo e por cima do arvoredo”. Chegou a casa todo rascado, um Cristo21.
A Queima do Judas – Ritual de Renovação
A tradição da Queima do Judas, que se realiza no Sábado de Aleluia, constitui um ritual ancestral de renovação e expulsão dos demónios do inverno222324. Esta manifestação de carácter popular tem raízes que remontam às antigas festividades pagãs de renovação sazonal.
O Judas, vestido com casaco velho, camisa, calça, sapatos e gravata, normalmente recheado com panos velhos e jornais, é passeado pelas ruas da cidade em direção ao Campo do Castelo, onde será enforcado e finalmente queimado23. O “Testamento do Judas” constitui uma sátira a pessoas e acontecimentos locais, preferencialmente escrita em versos23.
A tradição foi iniciada pela já falecida “Maria do Gago”, uma habitante que durante muitos anos realizou esta tradição22. Como é hábito, são lidas as quadras populares com picardias à sociedade vianense, para depois se queimar o “traidor”22.
Santa Luzia e o Simbolismo Ocular
Em Viana do Castelo, no interior do santuário dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, há um altar em granito dedicado a Santa Luzia, para todos os crentes que lhe queiram prestar devoção25. Em tempos, existiu uma capela dedicada a Santa Luzia construída no cimo do monte com o mesmo nome, que subsistiu até ao ano de 192625.
A história/lenda de Santa Luzia (Luzia de Siracusa) conta que esta jovem italiana venerada pelos católicos, sofreu perseguições por ser cristã. De acordo com a lenda, preferiu que lhe arrancassem os olhos a renegar a fé em Cristo25. Conta-se que os olhos de Santa Luzia teriam sido arrancados por um soldado a mando do imperador romano, e entregues num prato à jovem. No mesmo instante, no rosto de Luzia voltaram a nascer dois lindos olhos mais bonitos do que os anteriores25.
Esta lenda conecta-se com antigos cultos oculares e de visão espiritual, possivelmente relacionados com práticas divinatórias ancestrais.
A Cruz Celta – Persistência dos Símbolos Pagãos
No Minho, sobretudo nos cemitérios do concelho de Viana do Castelo junto ao litoral do Atlântico, é comum deparar-nos com a cruz celta encimando os jazigos funerários26. Trata-se de um símbolo ancestral que combina a cruz com um anel que lhe faz intersecção por detrás, representando a espiritualidade focada na criação com base no culto solar26.
Com origem remota, a cruz celta tem como o próprio nome indica origem na cultura dos povos celtas que, a partir do segundo milénio Antes de Cristo, se espalhou pela Europa Ocidental e, nomeadamente, pela região do Minho e Galiza26. Ainda os minhotos não haviam sido convertidos ao Cristianismo e, como lhes é característico, mantinham o seu apego às tradições pagãs, muitos locais como encruzilhadas de caminhos eram assinaladas com cruzes, geralmente associadas ao círculo solar26.
Gigantones, Cabeçudos e Folclore Ancestral
Os Gigantones e Cabeçudos são figuras enormes e caricaturadas que animam as ruas durante a romaria14. Estes personagens de cabeça grande, que representam figuras da cultura popular e personagens míticos, desfilam ao som dos bombos e enchem a cidade de alegria14. Estas figuras são parte integrante da tradição folclórica da região e trazem um toque de humor e irreverência às celebrações14.
Estas figuras ecoam antigas representações de divindades e espíritos ancestrais, cristianizadas mas preservando o carácter mágico e transformacional.
Os Druidas e a Sabedoria Ancestral
Embora não haja evidências diretas de druidismo na região de Viana do Castelo, a proximidade cultural com a Galiza e as características dos cultos galaicos sugerem influências druídicas27. Os druidas eram pessoas encarregadas das tarefas de aconselhamento e ensino, e de orientações jurídicas e filosóficas dentro da sociedade celta28.
Além disso, os druidas eram guardiões do conhecimento e da tradição oral celta, transmitindo mitos, histórias e ensinamentos que formavam o núcleo cultural da comunidade29. A educação druídica incluía astronomia, medicina, leis e especialmente a memorização de uma vasta quantidade de poesia, mitos e histórias, essenciais para a preservação da tradição oral celta29.
Penedos Sagrados e Património Megalítico
O território de Viana do Castelo está pontuado por rochedos considerados sagrados desde tempos pré-romanos30. Estes penedos eram vistos como morada de espíritos e locais de culto animista, onde se realizavam oferendas para garantir fertilidade e proteção30.
Por essa razão, estas pedras sagradas são, para o nosso tempo e para a investigação, monumentos culturais. Elas são um património cultural, enquanto suportes de narrativas lendárias30. Alguns materiais pétreos, como os que não podem ser movidos e organizados, devido à sua dimensão, adquiriram sentido excecional e foram ritualizados, ainda antes de neles se realizar qualquer inscultura30.
É significativa a bibliografia referente a lendas e narrativas associadas a penedos e rochas, a lapas e lapinhas30. Alguns territórios adquiriram tal dimensão lendária associada às rochas e penedos, que todo o território, no seu conjunto, adquiriu uma dimensão sagrada que chegou aos nossos dias30.
Serpentes e Simbolismo Ofiomórfico
A região de Viana do Castelo, integrada na mítica Ofiússa, mantém uma rica tradição relacionada com serpentes que alimenta o imaginário popular. O simbolismo da serpente permeia as tradições locais, representando renovação, transformação e sabedoria oculta. Nas mouras-serpente, este simbolismo converge com o sagrado feminino e os cultos de fertilidade ancestrais.
Significado Espiritual e Cultural
As lendas e tradições de Viana do Castelo transcendem o mero folclore, constituindo um sistema simbólico complexo que preserva memórias ancestrais de cultos pagãos, tradições iniciáticas e conexões com o sagrado feminino. A persistência destas narrativas através de séculos de cristianização demonstra a sua importância fundamental na construção da identidade cultural minhota.
Viana do Castelo emerge assim como um verdadeiro conservatório da alma galaico-lusitana, onde mitos e realidade se entrelaçam numa tapeçaria cultural de riqueza incomparável, testemunhando a continuidade ininterrupta entre os cultos pagãos ancestrais e as tradições populares que ainda hoje dão vida e identidade a esta terra bendita do Minho.
A cidade não é apenas um centro urbano, mas um território liminal onde o temporal se encontra com o eterno, onde as águas do Lima e do Atlântico guardam segredos milenares e onde cada pedra, cada tradição, cada lenda ecoa com os sussurros de uma sabedoria ancestral que conecta esta antiga vila com os mistérios mais profundos da condição humana e da busca ancestral pelo sagrado.