1817 — A Conspiração de Gomes Freire
Raul Brandão
Edição da Renascença Portuguesa, Porto, 1917
2.ª edição
Campo: Linhagem · Sombras
Projectos relacionados: O Bravo Coronel Perestrello — A Conspiração de 1829 · Anamnese · Arquivo das figuras esquecidas
Sobre o livro
Publicado originalmente em 1914, este ensaio histórico de Raul Brandão reconstrói a conspiração de 1817 e o processo que conduziu à condenação e execução do general Gomes Freire de Andrade e dos restantes acusados.
A investigação atravessa a vida militar de Gomes Freire, o contexto político português depois das invasões francesas e a atuação de figuras como William Carr Beresford, D. Miguel Pereira Forjaz e o principal Sousa. Raul Brandão cruza documentação histórica, correspondência, testemunhos e retrato psicológico, procurando compreender as responsabilidades individuais e os mecanismos de poder que conduziram à execução.
O resultado aproxima-se de uma narrativa histórica de forte intensidade literária. As figuras não surgem apenas como nomes num processo: adquirem temperamento, contradições, ambições, ressentimentos e zonas de sombra.
Porque está neste jardim
Este livro foi uma referência fundamental para a construção de O Bravo Coronel Perestrello — A Conspiração de 1829.
Interessa-me a forma como Raul Brandão trabalha sobre uma figura histórica condenada e posteriormente transformada em símbolo. A investigação documental convive com uma escrita narrativa capaz de devolver presença às personagens, aos conflitos e ao ambiente político de uma época.
O autor não se limita a ordenar acontecimentos. Interroga motivações, recompõe relações e observa como decisões políticas, rivalidades pessoais e interesses institucionais se acumulam até produzirem uma tragédia.
Foi esta aproximação entre arquivo, biografia, literatura e interpretação histórica que me ajudou a pensar a história de Inácio Perestrello. Também ele foi militar, liberal, acusado de conspiração e executado num contexto de repressão política, embora a sua memória tenha permanecido quase inteiramente confinada ao território e aos arquivos locais.
O meu exemplar possui ainda uma dimensão particular: trata-se da segunda edição, publicada em 1917, no centenário da morte de Gomes Freire. O livro é simultaneamente fonte, objeto histórico e modelo possível para uma forma de escrita que procura resgatar uma figura sem a transformar numa personagem plana ou num herói sem contradições.
Ligações
— Escrita histórica e construção narrativa
— Arquivo, biografia e memória política
— Os vencidos e condenados do liberalismo português
— Fabricação, destruição e recuperação da reputação
— O herói como figura histórica e construção posterior
— Inácio Perestrello e a conspiração liberal de 1829
— A literatura como forma de devolver presença ao arquivo
Fragmento
“É destes homens que se apagam, que se recolhem na sombra.”
Raul Brandão, 1817 — A Conspiração de Gomes Freire, p. [confirmar na edição consultada; ortografia actualizada].
Referência
BRANDÃO, Raul — 1817: A Conspiração de Gomes Freire. 2.ª ed. Porto: Edição da Renascença Portuguesa, 1917.
Consultar: cópia digital da primeira edição no Internet Archive.