A Dama e o Abismo

A Mulher na Litteratura Góthica, entre o Mito e o Medo

Monte dos Vendavais, aos 11 dias do mês de Abril, no anno de 18—


Minha dilecta correspondente,


Permitti-me esta noite discorrer convosco sobre a imagem feminina que habita os salões sombrios da litteratura góthica, ora musa, ora maldição, ora santa sepultada, ora feiticeira que dança com as trevas. Que enigma é este, o da mulher góthica, que transita entre o desejo e o terror, entre o sacríficio e a subversão?

Na ficção góthica oitocentista, a mulher é tantas vezes a vítima de forças que não compreende, enclausurada em castellos, conventos, mansões onde cada porta oculta um segredo e cada corredor ecoa soluços de outras eras. Ela é, por vezes, a donzela a ser salva; mas outras tantas, é o fantasma que assombra, a viúva que envenena, a histérica que ri no escuro.

Recordo-me das personagens de Ann Radcliffe, cuja sensibilidade era afiada como uma lamina em flor. Ou das irmãs Brontë, que ousaram pintar a mulher não como anjo, mas como criatura que sente, deseja e é capaz de provocar tempestades. Emily, em especial, deu-nos Catherine, essa alma em combustão, metade vento, metade agonia.

É também neste génro que se tece o mito da mulher como portadora do irracional, da paixão indomada, da loucura poética. Quantas vezes não é ela quem arrasta o herói à perdição? Ou quem, prisioneira de uma moral opressiva, se transforma em espectro vingador? A mulher góthica é a flor do abismo: bela, mas com raízes na sombra.

E não seria esta representação, minha cara, também uma forma de resistência? De dar voz, ainda que entre gritos e suspiros, às angustias de tantas almas silenciadas? A mulher góthica não é frágil: é trágica. E na sua tragédia reside a sua força, a sua permanência.
Ao escrever-vos estas linhas, à luz trémula da minha lamparina, dou por mim a pensar se não seremos todas, em alguma medida, herdeiras dessas figuras envoltas em rendas escuras e saudade antiga.


Com devoção e sombra, sempre vossa

Lady DuLac

(Daguerreotipo: Catherine (portrayed by Merle Oberon and Heathcliff as portrayed in the 1939 film.

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