Casas Assombradas do Século XIX: Entre o Mito e a Realidade
Da Ala Oeste do Solar de Velludo, sob espessas tapeçarias e cortinados cerrados, ao cair da noite, 18—
Meu dilecto companheiro de reflexões nocturnas,
Ao som de um relógio que insiste em bater horas que não pedi, escrevo-vos envolta por uma quietude pesada, onde cada tábua estala como se quisesse contar um segredo. Nesta noite húmida, onde a vela tremeluz ao menor sopro, propus-me pensar convosco sobre as casas assombradas — não apenas enquanto artifício literário, mas como espelho de medos antigos, desejos ocultos e memórias que recusam morrer.
No século XIX, tempo onde a ciência e o espiritualismo coabitavam em estranho conluio, o imaginário da casa assombrada floresceu com particular intensidade. Não havia aldeia ou metrópole que não murmurasse lendas sobre uma mansão decrépita, um casarão abandonado, ou um solar cujas janelas pareciam olhos que observavam o transeunte incauto.
A casa, esse santuário do quotidiano, torna-se, nas narrativas góticas, o palco do interdito: o lugar onde o passado se recusa a ser enterrado, onde os vivos convivem com os mortos, e onde os próprios muros absorvem a dor. Pensemos em “The Fall of the House of Usher”, de Poe, onde a arquitectura declina com os seus habitantes, como se ambos fossem carne de uma mesma ruína. Ou em “A Volta do Parafuso”, de Henry James, onde a ambiguidade entre loucura e assombração nos prende até à última página.
Mas não nos limitemos à ficção. No quotidiano do século XIX, abundaram os relatos de espíritos, pancadas nas paredes, aparições vestidas de branco. O crescimento do espiritismo, os salões onde se realizavam sessões mediúnicas, as fotografias de espectros, e os diários de criadas aterradas… tudo isto testemunha que o medo da casa assombrada era tanto psicológico quanto social. Quantas histórias não escondiam, por detrás da assombração, um segredo de família, um crime silenciado, uma herança maldita?
E que dizer da simbologia? A casa assombrada é sempre uma herança — nunca uma construção nova. É um corpo que se recusa a morrer. Um útero tornado túmulo. E talvez por isso nos fascine tanto: porque encerra o que é mais íntimo e mais obscuro. Porque somos todos, no fundo, feitos de quartos trancados e corredores vazios.
Despeço-me com o candelabro ainda aceso, pois esta noite os passos no soalho não são meus.
Vossa entre sombras e memórias,
Lady DuLac
Daguerreotipo encontrado no Pinterest