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Arquivo vivo e pós-memória

by Inês Soares

1. Designação

Arquivo vivo e pós-memória.

2. Classificação

Conceitos correlatos, mas distintos.
Arquivo vivo: conceito curatorial, documental e metodológico.
Pós-memória: conceito de estudos da memória, trauma e transmissão intergeracional.onlinelibrary.wiley+1

3. Definição curta

Arquivo vivo é um arquivo em uso, aberto, atualizado e reativado no presente; pós-memória é a relação afectiva e mediada que a “geração seguinte” estabelece com traumas ou histórias que não viveu directamente.postmemory+1

4. Definição longa

O arquivo vivo é um arquivo entendido como processo, não como depósito estático. Ele continua a ser acrescentado, reinterpretado, activado por investigação, curadoria, performance, participação ou novas leituras, funcionando como espaço de memória em circulação. A pós-memória, conceito associado sobretudo a Marianne Hirsch, descreve a forma como filhos e descendentes de sobreviventes ou testemunhas de traumas colectivos “recordam” experiências que não viveram directamente, mas que receberam através de narrativas, imagens, gestos e silêncios tão intensos que se tornam memória própria. Enquanto o arquivo vivo fala da dinâmica do dispositivo de memória, a pós-memória fala da experiência subjetiva e cultural de quem herda esse passado.curatinglivingarchives+4

5. Autores e obras de referência

Arquivo vivo

  • Stuart Hall, frequentemente citado em discussões sobre arquivo vivo e constituição do arquivo como processo aberto.tate
  • Amalia G. Sabiescu, em Living Archives and The Social Transmission of Memory, argumenta que arquivos vivos funcionam como partilha social da memória e construção de laços comunitários.onlinelibrary.wiley
  • Projectos curatoriais e institucionais como Curating Living Archives e iniciativas do Tate tratam o arquivo vivo como prática aberta e relacional.curatinglivingarchives+1

Pós-memória

  • Marianne Hirsch, sobretudo The Generation of Postmemory e os seus textos sobre fotografia, família e trauma.cupblog+1
  • Art Spiegelman, especialmente Maus, frequentemente usado por Hirsch como caso emblemático da transmissão intergeracional do trauma.scholars.wlu+1
  • W.G. Sebald aparece em discussões críticas sobre os limites e usos da pós-memória.scholars.wlu

6. Em que consiste

Arquivo vivo

Consiste em:

  • tratar o arquivo como organismo em transformação;
  • manter o acesso, a atualização e a reativação de documentos;
  • permitir usos públicos, curatoriais e investigativos;
  • aceitar que o arquivo muda quando é lido, exposto ou performado.onlinelibrary.wiley+1

Pós-memória

Consiste em:

  • herdar um passado traumático ou marcante sem o ter vivido;
  • construir essa relação por meio de imagens, relatos, objetos e silêncios;
  • investir afectivamente num passado mediado;
  • produzir uma memória própria a partir de uma memória alheia ou anterior.postmemory+1

7. Diferença central

  • Arquivo vivo: descreve o estado e funcionamento de um arquivo no presente.tate+1
  • Pós-memória: descreve uma experiência geracional de memória herdada.postmemory+1

8. Relação entre ambos

Um arquivo vivo pode ser a infraestrutura que torna possível a pós-memória, porque disponibiliza documentos, imagens e narrativas que permitem à geração seguinte relacionar-se com o passado. Ao mesmo tempo, a pós-memória pode motivar a reabertura do arquivo, tornando-o novamente activo, porque revela lacunas, silêncios e ausências que exigem novas interpretações. Em muitos projectos artísticos, esta relação é central: o arquivo fornece material, e a pós-memória dá-lhe densidade afectiva e ética.curatinglivingarchives+3

9. Exemplos concretos

Arquivo vivo

  • Um arquivo comunitário sobre uma antiga fábrica que é continuamente actualizado com testemunhos, fotografias e documentos novos.
  • Um arquivo artístico online que aceita reedições e reclassificações.
  • Um projecto curatorial que ativa documentos por exposição, leitura pública ou performance.tate+1

Pós-memória

  • Filhos de sobreviventes do Holocausto que constroem a sua identidade a partir de fotografias, relatos e ausências familiares.scholars.wlu+1
  • Descendentes de exilados ou vítimas de violência política que herdam imagens, cartas e silêncios.
  • Obras que transformam memórias familiares transmitidas em narrativa, desenho, vídeo ou instalação.youtubecupblog

10. Aplicações em artistic research

  • Arquivo vivo: muito útil para projectos curatoriais, investigação baseada em arquivo, plataformas digitais, colecções processuais e obras participativas.onlinelibrary.wiley+1
  • Pós-memória: muito útil para obras sobre trauma, herança, família, deslocação, guerra, colonialismo e memória transgeracional.postmemory+1

11. Forças de cada conceito

Arquivo vivo

  • evita a ideia de arquivo morto;
  • valoriza participação e reativação;
  • liga memória e acção;
  • funciona bem em contextos institucionais e comunitários.tate+1

Pós-memória

  • dá linguagem para pensar herança afectiva do trauma;
  • permite analisar memória sem experiência directa;
  • é muito forte para arte, literatura e fotografia;
  • ajuda a discutir transmissão, empatia e responsabilidade.cupblog+1

12. Limites e cuidados

Arquivo vivo

  • pode tornar-se um slogan institucional se não houver prática real;
  • exige manutenção e abertura consistentes;
  • pode confundir “acesso” com “activação”.curatinglivingarchives+1

Pós-memória

  • pode ser aplicada de forma demasiado ampla;
  • exige cuidado ético ao representar traumas alheios;
  • não deve ser usada para qualquer relação com o passado, apenas quando há verdadeira transmissão geracional e afectiva.scholars.wlu+1

13. Formulação editorial para o diretório

Arquivo vivo é um arquivo entendido como processo aberto, em atualização e ativação contínua, capaz de sustentar práticas de memória, investigação e curadoria no presente. Pós-memória designa a relação de gerações posteriores com traumas ou histórias que não viveram directamente, mas que herdaram por narrativas, imagens e afectos. Em artistic research, ambos são centrais para pensar arquivo, transmissão e memória cultural.onlinelibrary.wiley+1

14. Classificação final

  • Arquivo vivo: conceito curatorial / documental / metodológico.
  • Pós-memória: conceito de estudos da memória / trauma / transmissão intergeracional.

Se quiseres, posso agora avançar para a próxima ficha com o mesmo nível de profundidade, ou posso começar a organizar um quadro geral com categorias e subcategorias do teu repertório.

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