Tragédia, Ironia e Desespero nas Sombras da Litteratura
S. Miguel de Seide, aos 7 dias do mês de Abril, no anno de 18—
Meu estimado e fiel interlocutor,
Permitti que vos escreva, esta noite, de um aposento onde o ar se encontra denso de saudade e os livros se empilham como lápides de papel, enquanto as cortinas velam a lua como um luto que se estende sobre o mundo. O nome que hoje evoco entre estas paredes antigas é o de Camilo Castelo Branco, esse vulto trágico da litteratura portugueza, cuja pena sangrou como poucas e cuja vida foi, ela mesma, um romance góthico.
Que alma tão profundamente ferida poderia conceber personagens tão desventurados, tão condenados à dor como se a esperança já lhes tivesse sido negada à nascença? Camilo, senhor de uma ironia devastadora e de uma paixão que o consumiu, ergueu romances como sepulcros ornamentados: belos por fora, mas cheios de ossos e soluços.
Em obras como “Amor de Perdição”, “O Retrato da Ricardina” ou “A Bruxa do Monte Córdova”, a fatalidade está sempre à espreita, como um corvo sobre o ombro de cada personagem. O amor, em Camilo, raramente redime; antes consome. E quantas vezes não se confunde com o delírio, a obsessão, a febre moral? O romantismo camiliano não é florido: é febril, exasperado, desesperado. Os seus heróis e heroínas não vivem: ardem.
Oh, meu caro, Camilo escreveu com o pranto e o veneno. A sua ironia é a defesa última do que sofre. A cada volta da pena, sentimos o peso da tragédia pessoal, o cansaço de existir num mundo onde a virtude não triunfa e a paixão é sempre punida. O seu último gesto, cego e exausto, foi apagar-se a si mesmo com uma arma, como que a fechar o último capítulo do seu livro de carne.
Mas não nos enganemos: não foi apenas dor o que Camilo nos legou. Foi também a consciência amarga da condição humana, a lucidez que tantas vezes se assemelha à loucura. Le-lo é ver-se ao espelho, com todas as feridas expostas, mas em moldura de ouro.
Por vezes pergunto-me se todos nós, almas mais sensíveis, não partilhamos com Camilo esse mesmo pacto com o desespero: o de escrever para não sucumbir, e ainda assim sucumbir um pouco a cada palavra.
Com ternura sombria,
Lady DuLac