Campo: Cosmos
Estado: Investigação de vários anos; estrutura completa no Notion (20 subpáginas); escrita dos PDFs por começar
Conceito
As Deusas que Sobreviveram é um atlas de investigação artística sobre os asteróides de nome feminino e as figuras mitológicas que lhes correspondem. Parte de uma constatação que é simultaneamente astronómica e simbólica: o mapa astrológico tradicional é quase inteiramente masculino. O Sol, a maioria dos planetas e os seus regêntes mitológicos são figuras masculinas; o feminino reduz-se à Lua, a Vénus e a uns poucos pontos. Quando, a partir do século XIX e sobretudo do XX, os astrónomos começaram a descobrir e nomear milhares de asteróides — muitos com nomes de deusas —, abriu-se a possibilidade de reintegrar no céu simbólico as figuras femininas que o sistema clássico apagara.
O projecto trata o mapa natal como um território — lido em camadas, exactamente como o Land of Serpents lê a paisagem atlântica. Os asteróides de nome feminino são, nessa leitura, os vestígios de um feminino cósmico soterrado: Ceres, Pallas, Vesta, Juno, mas também Sedna, Lilith, Medusa, Melusina, Chariklô e dezenas de outras. Cada um é uma deusa que sobreviveu — que persistiu, sob a forma de um corpo celeste, à sua própria exclusão do panteõn simbólico dominante.
A leitura de cada asteróide articula oito camadas: o encontro pessoal com a figura, a sua etimologia e descoberta astronómica, a história do seu apagamento, o seu simbolismo vivo, a sua dimensão na psique feminina e colectiva, os seus padrões observados no mapa natal, a cartografia simbólica pessoal e a liberdade poética da interpretação.
Tese
O sistema astrológico tradicional reproduziu no céu o mesmo apagamento que a história operou sobre as mulheres: reduziu o feminino a um punhado de figuras e atribuiu o essencial do simbolismo a referências masculinas. Os asteróides de nome feminino permitem desfazer esse apagamento — reintegrar no mapa as deusas que dele tinham sido excluídas. É anamnese aplicada ao cosmos: a recuperação do feminino cósmico esquecido.
A tese articula astronomia, psicologia analítica e imaginação poética sem hierarquia entre elas. Não reduz a astrologia a astronomia nem a psicologia a mito: trata os três planos como camadas de leitura de um mesmo objecto, do mesmo modo que o deep mapping territorial trata a geologia, a arqueologia e a lenda. O mapa natal é um território simbólico, e as deusas dos asteróides são o que nele sobreviveu à sua própria exclusão.
Investigação
Método
Investigação simbólica de longo curso — vários anos — que cruza astronomia (a descoberta e os parâmetros de cada asteróide), mitologia comparada (a figura e a sua história), psicologia analítica (o arquétipo e a sua dimensão na psique) e interpretação astrológica (os padrões observados em mapas reais). A cada figura aplica-se uma estrutura de oito camadas, garantindo consistência metodológica ao longo de todo o atlas.
A fonte fundadora
A referência primária é Asteroid Goddesses, de Demetra George — a obra que estabeleceu a leitura astrológica dos asteróides femininos e que forneceu o ponto de partida para a investigação. A partir dela, o projecto desenvolve uma leitura própria, alargada a figuras menos tratadas (Sedna, Melusina, Chariklô) e ancorada na experiência interpretativa da autora.
Linhagem teórica
Demetra George (Asteroid Goddesses) · a psicologia analítica de Jung e a noção de arquétipo · a mitologia comparada · a tradição da astrologia simbólica e arquetípica · os estudos sobre o feminino sagrado e o seu apagamento histórico.
Artefactos
Atlas no Notion (estrutura completa)
Enquadramento: o arquivo de investigação — 20 subpáginas, uma por deusa, cada uma com a estrutura de oito camadas. É a base de onde sairão os PDFs publicados.
PDFs independentes (a produzir)
Enquadramento: cada deusa pode tornar-se um PDF autónomo (9–15€), permitindo ao leitor adquirir as figuras que lhe interessam. O conjunto compõe o atlas completo.
Livro-ensaio das 20 deusas (horizonte editorial)
Enquadramento: o ensaio livre, distinto do atlas estruturado — onde os arquétipos e metáforas se cruzam, se sobrepõem e se complementam sem a separação rígida das fichas. Mais poético do que técnico. É o sétimo livro do horizonte editorial.
Assinatura: o projecto é assinado em nome próprio, e não pela heterónima Nasheera — decisão significativa, dado que Nasheera é a voz do cósmico no Looking Glass. A autora escolheu reivindicar este trabalho como seu, e não delegar numa persona.
Case study
As Deusas que Sobreviveram demonstram a aplicação da metodologia da anamnese ao domínio cósmico e simbólico — e a sua coerência com o resto da obra. O gesto é o mesmo do Land of Serpents e da Galeria das Sombras: identificar o que foi apagado (o feminino cósmico), estudá-lo nas suas camadas e devolver-lhe forma e nome. O mapa natal é lido como um território; os asteróides são lidos como as deusas da Galeria — figuras femininas que sobreviveram à sua exclusão.
Demonstra ainda a articulação entre campos: cada figura da Galeria das Sombras tem uma deusa correspondente, e muitas dessas deusas são asteróides deste atlas. O Cosmos e as Mulheres são, nesse sentido, dois campos que leem o mesmo apagamento em planos diferentes — um na história terrena, outro no céu simbólico. E o asteróide Helena, a 14º de Virgem no mapa de Inácio, liga este campo à Linhagem.
Conclusão
As Deusas que Sobreviveram são o coração do campo do Cosmos — o lugar onde a anamnese se eleva da terra ao céu, aplicando ao mapa natal o mesmo gesto de desocultação que aplica ao território e à história. É o projecto de investigação mais longo da obra — vários anos — e um dos mais próprios.
A estrutura está completa, com vinte deusas mapeadas no Notion. Falta a escrita dos PDFs e, no horizonte, o livro-ensaio. É um arquivo cósmico à espera de se tornar público — vinte deusas que sobreviveram à sua exclusão e que aguardam, como tudo nesta obra, ser lidas.
O céu também foi escrito por vencedores. Os asteróides são as deusas que o céu oficial esqueceu.