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Emily Dickinson

by Inês Soares

Emily Dickinson

A mulher transformada em lenda para que a obra pudesse ser domesticada

Nome completo: Emily Elizabeth Dickinson
Estatuto: figura histórica
Nascimento: 10 de Dezembro de 1830, Amherst, Massachusetts, Estados Unidos
Morte: 15 de Maio de 1886, Amherst
Actividade: poeta, escritora de cartas, jardineira, botânica amadora e criadora de arquivos manuscritos
Obra conhecida: cerca de 1800 poemas · mais de mil cartas e fragmentos em prosa
Campo: Mulheres · Jardim · Arquivo · O Outro Lado do Espelho · Arquétipos
Categoria principal de apagamento: canonização por domesticação editorial
Categorias secundárias: mitificação biográfica · normalização formal · apagamento da rede intelectual · redução à reclusão · neutralização das relações afectivas · fragmentação póstuma do arquivo
Estado espectral: a poeta que preservou a obra em cadernos secretos e regressou ao mundo através de versões que já não eram inteiramente suas


Biografia

Emily Elizabeth Dickinson nasceu a 10 de Dezembro de 1830, na casa familiar conhecida como The Homestead, em Amherst, no Massachusetts.

Era a segunda filha de Edward Dickinson, advogado, político e tesoureiro do Amherst College, e de Emily Norcross Dickinson. Tinha um irmão mais velho, William Austin Dickinson, e uma irmã mais nova, Lavinia Dickinson.

A família pertencia a uma elite local protestante, culta e politicamente influente. O avô paterno, Samuel Fowler Dickinson, participara na fundação do Amherst College e construíra a casa onde Emily nasceu.

A vida da família organizava-se entre religião, educação, vida cívica, administração doméstica e relações sociais intensas dentro da pequena comunidade de Amherst.

Emily cresceu num ambiente que lhe proporcionou acesso invulgar à educação, aos livros, à ciência e à correspondência. Esse privilégio coexistia com expectativas rígidas relativamente à conduta feminina, à religiosidade, ao casamento e à participação pública.

Desde cedo, demonstrou grande capacidade verbal, humor, curiosidade intelectual e resistência a aceitar respostas religiosas ou sociais apenas porque lhe eram apresentadas como inevitáveis.


Educação

Emily frequentou a Amherst Academy durante cerca de sete anos.

A escola oferecia às raparigas uma formação ampla, que incluía:

  • literatura;
  • composição;
  • história;
  • filosofia;
  • matemática;
  • geologia;
  • astronomia;
  • botânica;
  • latim;
  • fisiologia.

A presença das ciências naturais viria a permanecer profundamente inscrita na sua linguagem poética.

Em 1847, ingressou no Mount Holyoke Female Seminary, dirigido por Mary Lyon. A instituição combinava ensino académico, disciplina moral, trabalho doméstico e intensa formação religiosa.

Emily permaneceu em Mount Holyoke durante apenas um ano.

Não aderiu à vaga de conversões evangélicas que atravessava a escola e a comunidade. Enquanto familiares e amigas declaravam publicamente a sua fé, Emily conservava uma posição interrogativa e resistente.

Nunca se tornou membro formal da igreja.

Esta recusa não corresponde a ausência de pensamento religioso. A Bíblia, os hinos protestantes, a imortalidade, a ressurreição, o juízo, o paraíso e a dúvida atravessam toda a sua obra.

Emily conhecia profundamente a linguagem religiosa e utilizava-a como campo de confronto.


O herbário

Durante os anos de escola, Emily criou um herbário com mais de quatrocentos espécimes vegetais prensados e identificados através dos seus nomes científicos.

O volume contém flores, folhas e caules recolhidos na região de Amherst e organizados em páginas compostas com grande atenção visual.

O herbário constitui uma das primeiras obras materiais conhecidas de Emily Dickinson.

É simultaneamente:

  • exercício científico;
  • colecção;
  • arquivo natural;
  • composição visual;
  • sistema classificativo;
  • registo de território;
  • forma de escrita anterior à poesia madura.

A classificação botânica ensinou-lhe a observar diferenças mínimas, ciclos de transformação e relações entre forma visível e estrutura oculta.

Flores, sementes, raízes, geada, abelhas, pássaros, trevos, vulcões, insectos e estações aparecem nos poemas como organismos concretos e como formas de pensamento.

O jardim foi um dos seus grandes laboratórios.


A casa, o jardim e a estufa

Emily viveu a maior parte da vida entre o Homestead e uma casa situada na North Pleasant Street, para onde a família se mudou temporariamente entre 1840 e 1855.

Quando regressaram ao Homestead, o pai acrescentou uma estufa à casa.

Emily cultivava flores durante todo o ano e enviava frequentemente plantas prensadas, ramos e flores frescas juntamente com cartas e poemas.

A casa não constituía apenas um lugar de recolhimento. Funcionava como:

  • observatório;
  • biblioteca;
  • oficina de escrita;
  • estufa;
  • arquivo;
  • espaço de circulação epistolar;
  • ponto de contacto com a casa de Austin e Susan;
  • território onde o quotidiano se transformava em linguagem.

A pequena escala física não limitava o alcance intelectual da obra.

A partir do quarto, do jardim e das cartas, Emily construiu uma cosmologia onde cabiam morte, desejo, natureza, guerra, ciência, fé, erotismo, linguagem e eternidade.


Susan Gilbert Dickinson

Susan Huntington Gilbert conheceu Emily durante a juventude e tornou-se uma das pessoas mais importantes da sua vida.

Em 1856, Susan casou com Austin Dickinson e instalou-se em The Evergreens, uma casa construída ao lado do Homestead. A proximidade física criou uma ligação permanente entre as duas residências.

Emily enviou a Susan mais de duzentos e cinquenta poemas, além de cartas, bilhetes, flores e fragmentos.

Susan foi:

  • amiga;
  • leitora;
  • interlocutora intelectual;
  • crítica;
  • destinatária de poemas;
  • membro da família;
  • presença afectiva central;
  • participante na circulação inicial da obra.

Emily pediu-lhe opiniões, acolheu sugestões e enviou-lhe diferentes versões dos textos. Alguns poemas sobrevivem em variantes relacionadas com este diálogo.

A correspondência contém uma linguagem de grande intensidade emocional, física e imaginativa. A natureza exacta da relação tem sido interpretada de formas distintas: amizade romântica oitocentista, intimidade intelectual, amor homoerótico ou combinação de várias destas dimensões.

A documentação permite reconhecer a profundidade e centralidade do vínculo. Não permite reconstruir integralmente a experiência privada das duas mulheres.

A historiografia inicial reduziu frequentemente Susan à condição de cunhada. Essa designação familiar oculta o seu papel na formação, leitura e preservação da obra.


A casa ao lado

The Evergreens tornou-se um dos principais centros culturais de Amherst.

Susan organizava encontros, recebia escritores e músicos, acompanhava publicações e mantinha contactos com círculos literários mais amplos. Emily participava neste ambiente de modo próximo, mesmo quando a presença física se tornou menos frequente.

Entre as duas casas circulavam:

  • cartas;
  • poemas;
  • livros;
  • jornais;
  • flores;
  • comida;
  • recados;
  • crianças;
  • notícias;
  • comentários literários.

A imagem de Emily isolada num quarto apaga esta ecologia doméstica e intelectual.

A sua vida dependia de relações mediadas por paredes, caminhos de jardim, criados, familiares e envelopes.

O isolamento era selectivo, não absoluto.


Os anos de escrita intensa

Entre aproximadamente 1858 e 1865, Emily atravessou o período mais intenso da sua produção.

Escreveu, reviu e preservou centenas de poemas. Cerca de oitocentos foram copiados para pequenos cadernos manuscritos, mais tarde designados pelos editores como fascículos.

Os quarenta fascículos eram formados por folhas dobradas e cosidas à mão com linha.

Emily seleccionava os poemas, copiava-os e agrupava-os. Alguns apresentam variantes de palavras, pontuação ou sequência. A organização não corresponde aos modelos habituais de livro publicado, mas revela intenção, revisão e consciência material.

Os fascículos constituem uma forma de publicação privada.

Não eram simples depósitos de rascunhos. Formavam conjuntos deliberadamente preservados, embora a relação exacta entre os poemas de cada grupo continue a ser investigada.

Ao mesmo tempo, Emily escrevia em folhas soltas, envelopes, margens, fragmentos de papel e correspondência.

A página participava no poema.

O tamanho do papel, o corte, o espaço, a posição das palavras e as alternativas lexicais integravam o processo de composição.


Uma poética radical

A poesia de Emily Dickinson reconhece-se através de uma combinação singular de:

  • versos breves;
  • ritmo próximo dos hinos protestantes;
  • rima imperfeita;
  • travessões;
  • maiúsculas inesperadas;
  • elipse;
  • sintaxe comprimida;
  • ambiguidades gramaticais;
  • imagens científicas;
  • vocabulário religioso deslocado;
  • mudanças súbitas de escala;
  • variantes sem escolha definitiva.

Os poemas raramente explicam o percurso completo do pensamento. Criam campos de tensão onde diferentes interpretações permanecem activas.

A morte pode ser personagem, carruagem, aposento, eclipse ou interrupção gramatical.

A natureza pode ser jardim, laboratório, teologia ou violência.

O amor surge como presença, distância, casamento secreto, perda, carta não enviada ou identidade impossível de nomear.

A dúvida não constitui falha de resolução. É um dos seus instrumentos.


A Guerra Civil

O período de maior produção de Emily coincidiu com a Guerra Civil norte-americana.

Embora não tenha escrito poesia política segundo o modelo público e declamatório dominante, a linguagem da guerra atravessa muitos poemas:

  • batalhas;
  • tiros;
  • feridas;
  • derrota;
  • vitória;
  • soldados;
  • amputações;
  • campos;
  • morte colectiva;
  • sobrevivência.

Amherst estava ligada ao conflito através de familiares, amigos, notícias, jornais e homens enviados para a guerra.

A tendência para apresentar Emily como completamente desligada do seu tempo histórico tornou menos visível a relação entre a obra e a crise nacional que a rodeava.

Os poemas transformam a violência pública em experiência interior sem a retirar do mundo.


Thomas Wentworth Higginson

Em Abril de 1862, Emily leu no Atlantic Monthly um artigo de Thomas Wentworth Higginson intitulado Letter to a Young Contributor.

Higginson era escritor, crítico, reformador, abolicionista e figura reconhecida do meio literário.

Emily escreveu-lhe e enviou quatro poemas, perguntando se o seu verso estava vivo.

A correspondência prolongou-se durante mais de vinte anos.

Higginson tornou-se:

  • leitor;
  • conselheiro;
  • correspondente;
  • potencial mediador editorial;
  • testemunha da existência da obra;
  • participante na sua publicação póstuma.

Higginson reconheceu a singularidade da poeta, mas considerou a escrita irregular, difícil e pouco adaptada às convenções editoriais.

Tentou aconselhá-la sobre forma, clareza e publicação. Emily ouviu-o sem adoptar plenamente as alterações sugeridas.

A relação demonstra que ela procurava leitores exigentes e pensava activamente na recepção da obra.

Também mostra a distância entre a sua linguagem e os critérios pelos quais o mundo literário avaliava uma poeta publicável.


A questão da publicação

Emily publicou muito pouco durante a vida.

São conhecidos dez poemas e uma carta impressos antes da sua morte. A maioria surgiu anonimamente, por vezes através da intervenção de amigos ou familiares e possivelmente sem autorização directa.

Os textos impressos sofreram frequentemente alterações:

  • criação de títulos;
  • regularização da pontuação;
  • substituição dos travessões;
  • correcção de rimas;
  • normalização de maiúsculas;
  • adaptação à métrica convencional.

Emily não rejeitava necessariamente todos os leitores. Distribuía poemas através de cartas e enviava-os a pessoas escolhidas.

A publicação privada permitia-lhe controlar:

  • o destinatário;
  • o contexto;
  • a forma manuscrita;
  • o objecto material;
  • a relação entre poema, carta e presente;
  • o momento de leitura.

A imprensa retirava essas condições.

O poema era colocado entre notícias, anúncios e textos alheios, submetido à intervenção de editores e apresentado a um público sem relação com a autora.

A pergunta central não consiste apenas em saber se Emily queria publicar. Importa perceber que tipo de publicação considerava capaz de preservar a natureza da escrita.


Helen Hunt Jackson

Helen Hunt Jackson, escritora e amiga de Emily, reconheceu a qualidade da sua poesia e procurou convencê-la a publicar.

Em 1878, convidou-a a contribuir para uma antologia de poemas anónimos.

O poema hoje conhecido como Success is counted sweetest foi incluído na colectânea A Masque of Poets, constituindo a única publicação conhecida de um poema de Emily num livro durante a sua vida.

Jackson continuou a insistir na importância de tornar a obra pública.

Emily resistiu.

A relação com Jackson comprova que a ausência editorial não resultava de desconhecimento completo do mundo literário. Emily tinha interlocutores que reconheciam o valor da escrita e lhe ofereciam vias concretas de publicação.

A sua decisão permaneceu ambivalente e selectiva.


As cartas

A correspondência de Emily Dickinson constitui uma parte essencial da obra.

Sobrevivem mais de mil cartas, bilhetes e fragmentos em prosa. A edição mais recente reúne um corpus ainda mais amplo, à medida que manuscritos, transcrições e atribuições são revistos.

As cartas atravessam as fronteiras entre:

  • comunicação;
  • poema;
  • performance;
  • confissão;
  • enigma;
  • crítica;
  • condolência;
  • presente;
  • encenação autoral.

Muitas incluem versos, flores, recortes ou objectos.

A voz epistolar muda segundo o destinatário. Pode ser íntima, cómica, cerimonial, infantil, sedutora, oracular, doméstica ou teológica.

Emily criou relações duradouras através da escrita, incluindo com pessoas que encontrou poucas vezes.

A lenda da reclusa silenciosa torna-se insustentável perante esta rede verbal.

Ela falava continuamente por carta.


As cartas ao “Mestre”

Sobrevivem três rascunhos de cartas dirigidas apenas a uma figura designada como Master.

Foram escritos entre finais da década de 1850 e o início da década de 1860 e exprimem desejo, separação, submissão, dor e intensidade afectiva.

O destinatário nunca foi identificado com segurança.

Entre as hipóteses propostas encontram-se:

  • o reverendo Charles Wadsworth;
  • Samuel Bowles;
  • uma figura composta;
  • Susan Dickinson;
  • um destinatário imaginário;
  • uma construção literária.

Os textos são rascunhos e não existe prova de que tenham sido enviados.

A procura insistente por um homem concreto pode reproduzir uma leitura biográfica limitadora: transformar a linguagem amorosa numa pista policial e subordinar a poesia à descoberta de um romance oculto.

A figura do Mestre pode possuir origem biográfica e função literária simultaneamente.

O arquivo conserva a intensidade e recusa a solução.


A retirada gradual

A partir da década de 1860, Emily reduziu progressivamente as aparições públicas.

Evitava visitas, permanecia em divisões superiores da casa, conversava por vezes sem aparecer diante do interlocutor e tornou-se conhecida pela preferência por vestuário branco.

As razões permanecem incertas.

Foram propostas explicações relacionadas com:

  • ansiedade social;
  • doença;
  • epilepsia;
  • problemas de visão;
  • agorafobia;
  • luto;
  • desejo de preservar tempo para escrever;
  • resistência às expectativas sociais;
  • construção deliberada de uma persona;
  • combinação de vários factores.

Nenhum diagnóstico retrospectivo pode ser apresentado como facto.

A retirada proporcionava controlo sobre o acesso à sua presença. A poeta podia escolher as relações, os momentos e os meios através dos quais comunicava.

O isolamento físico coexistia com intensa actividade epistolar, leitura, jardinagem, relações familiares e atenção ao mundo exterior.


O vestido branco

O único vestuário completo de Emily Dickinson que sobreviveu é um vestido branco de algodão, confeccionado provavelmente no início da década de 1870.

O objecto tornou-se inseparável da sua imagem pública.

Relatos de familiares e conhecidos associam-na ao uso frequente do branco nos últimos anos. A extensão e o significado exacto dessa prática permanecem incertos.

O vestido foi interpretado como:

  • símbolo de pureza;
  • traje de noiva;
  • mortalha;
  • uniforme doméstico;
  • rejeição da moda;
  • economia prática;
  • persona poética;
  • gesto espiritual;
  • encenação espectral.

Nenhuma interpretação explica inteiramente o objecto.

A cultura visual transformou o vestido numa imagem mais poderosa do que quase todos os outros vestígios da sua vida.

Emily passou a ser representada como uma mulher pálida, imóvel, virginal e separada do mundo.

A roupa tornou-se personagem.


A invenção da reclusa

Depois da morte, a biografia de Emily foi construída através de relatos fragmentários e interesses familiares concorrentes.

A imagem da reclusa excêntrica possuía grande força editorial.

Oferecia ao público:

  • mistério;
  • pureza;
  • génio sem mundo;
  • mulher sem corpo;
  • santidade laica;
  • poeta naturalmente distante da publicação;
  • explicação simples para uma obra formalmente difícil.

Esta narrativa apagava dimensões menos compatíveis com a personagem:

  • humor;
  • ironia;
  • erotismo;
  • ambição;
  • conhecimento científico;
  • leitura de jornais;
  • relação com a guerra;
  • experiência doméstica;
  • trabalho de jardim;
  • rede epistolar;
  • colaboração com Susan;
  • consciência editorial;
  • domínio material do manuscrito.

A poeta radical foi convertida em mulher frágil que escrevia espontaneamente para ninguém.


A morte

Nos últimos anos, Emily sofreu períodos de doença e acompanhou sucessivas mortes dentro da família e da comunidade.

A mãe morreu em 1882.

O sobrinho Gilbert Dickinson, filho mais novo de Austin e Susan, morreu em 1883, com oito anos. A perda afectou profundamente Emily.

O juiz Otis Phillips Lord, amigo próximo e possível relação amorosa tardia, morreu em 1884.

Helen Hunt Jackson morreu em 1885.

Emily adoeceu gravemente e permaneceu debilitada durante meses.

Morreu a 15 de Maio de 1886, com cinquenta e cinco anos.

O certificado registou como causa a doença de Bright, designação ampla usada no século XIX para problemas renais. Investigações posteriores sugerem que os sintomas poderão também ser compatíveis com hipertensão grave e insuficiência cardíaca.

O diagnóstico exacto permanece incerto.

O corpo, vestido de branco, foi colocado num caixão branco no salão do Homestead. O funeral realizou-se de forma privada.

Segundo o seu desejo, foi transportada através dos campos até ao cemitério familiar de Amherst.


A descoberta

Emily pediu a Lavinia que destruísse as cartas que recebera.

Depois da morte, Lavinia cumpriu a instrução. Ao procurar os papéis, encontrou centenas de poemas e os pequenos fascículos cosidos à mão.

Não existe indicação de que Emily tenha pedido a destruição dos poemas.

Lavinia reconheceu imediatamente o valor do conjunto e decidiu procurar a sua publicação.

A irmã mais nova tornou-se a primeira grande agente da sobrevivência editorial de Emily.

Sem Lavinia, o arquivo poderia ter permanecido fechado, disperso ou destruído.

A história da poeta publicada começa com outra mulher que se recusou a tratar os manuscritos como papéis privados sem futuro.


Susan, Mabel e a divisão do arquivo

Lavinia pediu inicialmente a Susan Dickinson que preparasse os poemas para publicação.

Susan conhecia profundamente a escrita, tinha recebido centenas de poemas e possuía experiência literária. O trabalho avançou lentamente.

Impaciente, Lavinia recorreu a Mabel Loomis Todd, escritora, conferencista e figura activa da vida cultural de Amherst.

Mabel mantinha uma relação amorosa com Austin Dickinson, marido de Susan.

A publicação da obra ficou, assim, ligada a um conflito familiar intenso.

Mabel transcreveu e organizou os manuscritos. Thomas Wentworth Higginson emprestou prestígio literário ao projecto e colaborou na edição.

O primeiro volume, Poems by Emily Dickinson, surgiu em 1890 e alcançou grande êxito.

A disputa entre os ramos da família viria a dividir fisicamente o arquivo. Partes diferentes dos manuscritos ficaram associadas aos descendentes de Susan e aos de Mabel.

A obra de Emily entrou no mundo através de uma fractura.


A domesticação editorial

Os primeiros editores consideraram necessário adaptar a poesia às convenções do final do século XIX.

Regularizaram:

  • pontuação;
  • uso de maiúsculas;
  • ortografia;
  • métrica;
  • rima;
  • disposição dos versos;
  • variantes;
  • títulos.

Os travessões foram frequentemente substituídos. As ambiguidades diminuíram. Palavras alternativas desapareceram. Alguns poemas foram reorganizados.

Estas intervenções tornaram a escrita mais familiar para os leitores e contribuíram para o seu êxito.

Também alteraram a arquitectura verbal da autora.

A primeira Emily Dickinson pública foi uma construção editorial.

A poeta entrou no cânone depois de a forma radical da escrita ter sido parcialmente corrigida.


A lenta restituição dos manuscritos

Ao longo do século XX, diferentes editores procuraram aproximar as publicações dos documentos originais.

Em 1955, Thomas H. Johnson publicou a primeira edição completa dos poemas, restaurando grande parte da pontuação, das maiúsculas e da ordem cronológica conhecida.

Em 1981, Ralph W. Franklin reconstruiu os fascículos numa edição fac-similada.

Em 1998, Franklin publicou uma nova edição variorum, revendo datações, agrupamentos e versões.

Os arquivos digitais permitem actualmente consultar imagens de quase todos os manuscritos poéticos conhecidos.

Esta evolução tornou visível uma realidade fundamental: o poema impresso representa apenas uma possível tradução do manuscrito.

A caligrafia, o papel, o espaço, os sinais gráficos e as variantes participam na obra.

A restituição editorial permanece incompleta porque nenhum livro tipográfico consegue reproduzir integralmente a mobilidade material dos originais.


Forma de apagamento

Emily Dickinson sofreu um apagamento paradoxal: a canonização preservou o nome e modificou a autora.

Domesticação editorial

A irregularidade formal foi tratada como erro a corrigir.

A publicação tornou os poemas legíveis segundo as normas do período, mas reduziu a singularidade da linguagem.

Mitificação biográfica

A reclusa vestida de branco substituiu a escritora histórica.

A lenda ofereceu uma explicação simples para a ausência de publicação e para a estranheza da obra.

Apagamento da rede

Susan, Lavinia, correspondentes, familiares, criados, jardineiros, editores e amigos foram secundarizados para preservar a imagem do génio isolado.

Neutralização afectiva

A linguagem intensa dirigida a Susan e a outras figuras foi frequentemente suavizada, omitida ou enquadrada apenas como amizade feminina convencional.

Fragmentação do arquivo

O conflito familiar separou manuscritos, cartas e direitos editoriais, condicionando durante décadas a reconstrução da obra.

Redução psicológica

A retirada social foi usada para produzir diagnósticos retrospectivos e explicações totais da escrita.

A obra passou a ser lida como sintoma de uma doença, frustração amorosa ou incapacidade de viver publicamente.

Desmaterialização

As edições impressas ocultaram o papel, a costura, as margens, os envelopes e as variantes.

A poeta do manuscrito transformou-se em autora de textos tipográficos estáveis.


Tese da ficha

Uma autora pode entrar no cânone através de um processo que simultaneamente preserva e reduz a sua obra.

Emily Dickinson foi reconhecida porque editoras, familiares e críticos tornaram os poemas publicáveis.

Esse processo exigiu inicialmente que a escrita se aproximasse das expectativas do público.

A canonização criou duas figuras sobrepostas:

  • Emily Dickinson, autora dos manuscritos;
  • Emily Dickinson, personagem construída pela edição e pela biografia.

A primeira trabalhava com ambiguidade, variantes, objectos, destinatários e formas gráficas instáveis.

A segunda era uma mulher isolada, vestida de branco, que escrevia poemas perfeitos e espontâneos num quarto fechado.

A Galeria das Sombras investiga a distância entre ambas.

O apagamento não consistiu em retirar-lhe o nome. Consistiu em tornar o nome tão reconhecível que deixou de ser necessário olhar para a complexidade do arquivo.


Publicar sem imprensa

A prática de Emily obriga a reconsiderar o significado de publicação.

Os poemas circulavam através de:

  • cartas;
  • bilhetes;
  • presentes;
  • flores;
  • cópias enviadas a leitores escolhidos;
  • fascículos;
  • folhas soltas;
  • transcrições feitas por destinatários;
  • leitura dentro da família.

Esta circulação possuía público, contexto e intenção.

A imprensa não era a única forma de tornar um texto acessível.

O arquivo apresenta uma autora que construiu deliberadamente comunidades pequenas de leitura e controlou a forma material da transmissão.

A ausência de livro em vida não equivale a ausência de prática editorial.


Marcação epistemológica

Documentado

  • Emily Elizabeth Dickinson nasceu em Amherst em 1830.
  • Era filha de Edward Dickinson e Emily Norcross Dickinson.
  • Tinha dois irmãos, Austin e Lavinia.
  • Frequentou Amherst Academy.
  • Estudou durante um ano no Mount Holyoke Female Seminary.
  • Nunca se tornou membro formal da igreja.
  • Estudou botânica.
  • Criou um herbário com mais de quatrocentos espécimes.
  • Cultivou flores durante grande parte da vida.
  • Viveu a maior parte do tempo no Homestead.
  • Escreveu cerca de 1800 poemas.
  • Produziu mais de mil cartas e fragmentos em prosa.
  • Organizou cerca de oitocentos poemas em quarenta fascículos.
  • Enviou mais de duzentos e cinquenta poemas a Susan Dickinson.
  • Manteve correspondência com Thomas Wentworth Higginson durante mais de vinte anos.
  • Publicou muito poucos textos durante a vida.
  • São conhecidos dez poemas e uma carta impressos antes da sua morte.
  • A maioria dos poemas publicados em vida apareceu anonimamente.
  • Algumas versões impressas foram alteradas por editores.
  • Reduziu progressivamente a participação social presencial.
  • O vestido branco sobrevivente data provavelmente da década de 1870.
  • Pediu a Lavinia que destruísse as cartas que recebera.
  • Lavinia encontrou os manuscritos dos poemas depois da morte.
  • Mabel Loomis Todd e Thomas Wentworth Higginson editaram o primeiro volume, publicado em 1890.
  • As primeiras edições regularizaram a forma dos poemas.
  • Thomas H. Johnson publicou uma edição completa em 1955.
  • Ralph Franklin reconstruiu os fascículos e publicou uma nova edição variorum.
  • Emily morreu em 1886.

Provável

  • Emily preferia formas controladas e relacionais de circulação manuscrita.
  • A retirada social proporcionou tempo, autonomia e protecção para a escrita.
  • A recusa da publicação convencional resultou de uma combinação de razões estéticas, pessoais e sociais.
  • Susan exerceu influência crítica sobre determinados poemas.
  • A experiência da Guerra Civil afectou a linguagem e os temas da produção mais intensa.
  • O vestido branco poderá ter funcionado como uniforme doméstico ou escolha prática, além das interpretações simbólicas posteriores.

Interpretado

  • A canonização de Emily ocorreu através de domesticação editorial.
  • A imagem da reclusa apagou a sua extensa rede intelectual e afectiva.
  • Os fascículos constituem formas de publicação privada.
  • O herbário antecipa o método classificativo, visual e relacional da poesia.
  • A relação com Susan pertence ao centro criativo e afectivo da obra.
  • A divisão póstuma do arquivo prolongou conflitos familiares dentro da história editorial.
  • As variantes representam possibilidades deliberadamente preservadas, não simples indecisões.
  • O quarto funcionou como dispositivo de autonomia autoral.
  • A lenda do vestido branco transformou um objecto histórico numa identidade total.

Em debate

  • A natureza exacta da relação afectiva e erótica entre Emily e Susan.
  • A identidade do destinatário das cartas ao Mestre.
  • As razões específicas da retirada social.
  • O significado do uso do branco.
  • O grau de intenção editorial associado aos fascículos.
  • A autorização ou conhecimento de cada publicação realizada em vida.
  • A ordem definitiva dos poemas.
  • A interpretação das variantes lexicais e gráficas.
  • A doença que causou a morte.
  • A possibilidade de algumas cartas ou poemas terem sido destruídos selectivamente depois da morte.

Não demonstrado

  • Que Emily tenha vivido completamente isolada.
  • Que tenha usado apenas vestidos brancos durante décadas.
  • Que tenha sofrido uma doença psiquiátrica específica.
  • Que tenha rejeitado qualquer forma de publicação.
  • Que escrevesse sem revisão ou consciência editorial.
  • Que o Mestre corresponda definitivamente a um homem identificado.
  • Que tenha pretendido que os poemas fossem destruídos.
  • Que a relação com Susan possa ser reduzida a uma única categoria moderna sem reservas.
  • Que a poesia resulte exclusivamente de frustração amorosa ou reclusão.

Imaginado / ficcionalizado no projecto

  • Conversas privadas entre Emily e Susan sem registo.
  • A ordem secreta ou narrativa interna dos fascículos.
  • Pensamentos durante a costura dos cadernos.
  • Um plano póstumo detalhado para a publicação.
  • O significado íntimo do vestido branco.
  • Diálogos com a figura do Mestre.
  • A consciência da poeta perante as futuras alterações editoriais.
  • Um encontro entre Emily e as diferentes versões impressas de si própria.

Arquétipo

A guardiã da palavra indomesticada

Emily encarna a autora que protege a instabilidade da linguagem contra a pressão para escolher, explicar e concluir.

A guardiã conserva:

  • variantes;
  • silêncios;
  • travessões;
  • intervalos;
  • palavras alternativas;
  • destinatários secretos;
  • páginas incompletas;
  • relações entre texto e objecto;
  • perguntas sem resolução.

A sua obra lembra que a clareza editorial pode destruir parte do conhecimento produzido pela ambiguidade.

Este arquétipo manifesta-se em criadoras cuja linguagem é corrigida até se tornar reconhecível, cuja vida é convertida em explicação da obra e cuja resistência formal é interpretada como imperfeição.


Deusa correspondente

Perséfone — a mulher que construiu linguagem entre dois mundos

A correspondência é interpretativa.

Perséfone habita a passagem entre superfície e profundidade, vida e morte, presença e ausência, jardim e mundo subterrâneo.

Emily escreveu continuamente a partir destes limiares:

  • flor e sepultura;
  • casa e eternidade;
  • desejo e distância;
  • verão e geada;
  • corpo e imortalidade;
  • palavra e silêncio;
  • vida quotidiana e abismo metafísico.

O jardim do Homestead e a recorrência da morte aproximam-na de Perséfone sem a reduzir à donzela raptada.

Na Galeria, Perséfone representa a autora que desce voluntariamente à linguagem subterrânea e regressa com fragmentos impossíveis de regularizar.

Ressonância secundária: Hécate.

Hécate corresponde aos cruzamentos, às portas, às vozes nocturnas e à capacidade de habitar diferentes direcções sem escolher apenas uma.


Artefactos reais

Os fascículos

Quarenta pequenos livros manuscritos, formados por folhas dobradas e cosidas à mão.

Conservam cerca de oitocentos poemas e constituem o centro material da sua prática editorial privada.

Os manuscritos soltos

Poemas escritos em folhas, fragmentos, margens e versos de envelopes.

Revelam a relação entre linguagem e forma do suporte.

O herbário

Volume com mais de quatrocentos espécimes vegetais identificados em latim.

É arquivo científico, visual e territorial.

As cartas a Susan

Conjunto de cartas, bilhetes e poemas que documentam uma das relações centrais da vida e da obra.

As cartas a Higginson

Registam a procura de leitura crítica, o debate sobre publicação e a distância entre a poética de Emily e os critérios editoriais do período.

As cartas ao Mestre

Três rascunhos sem destinatário identificado.

Funcionam como arquivo de desejo, ausência e indeterminação.

O vestido branco

Único traje completo sobrevivente.

Transformou-se num dos principais objectos da construção visual da poeta.

A secretária

Pequena mesa de escrita colocada no quarto do Homestead.

A escala reduzida contrasta com a amplitude da obra produzida sobre ela.

O retrato de juventude

O daguerreótipo realizado por volta de 1847 constitui a única imagem fotográfica de Emily cuja autenticidade é amplamente aceite.

O Homestead

Casa natal, espaço de escrita, jardim, estufa e arquivo.

Os primeiros volumes editados

As edições de 1890, 1891 e 1896 representam simultaneamente a revelação pública e a transformação formal da obra.


Artefacto imaginário

O fascículo quarenta e um

Um pequeno caderno cosido com linha branca, encontrado entre o forro do vestido e a bainha.

As páginas não contêm poemas completos.

Em cada uma existe apenas uma alternativa retirada das versões publicadas:

Possibly —
Otherwise —
Perhaps —
Or —

Quando o leitor escolhe uma palavra, todas as outras desaparecem.

No final encontra-se uma instrução:

Não escolhas por mim.

O artefacto representa as possibilidades eliminadas pela edição e a resistência da autora à fixação definitiva da linguagem.

Marcação: imaginado.


Possível tratamento visual

  • Emily diante de uma parede composta por diferentes versões do mesmo poema;
  • o vestido branco cosido com fragmentos manuscritos;
  • retrato parcialmente ocultado por travessões;
  • fascículos transformados em pequenas portas;
  • herbário onde as flores substituem letras;
  • duas casas ligadas por envelopes atravessando o jardim;
  • Susan recebendo um poema dobrado dentro de uma flor;
  • secretária pequena projectando uma sombra de escala monumental;
  • primeira edição impressa sobreposta ao manuscrito alterado;
  • rosto dividido entre a jovem do daguerreótipo e a figura espectral inventada posteriormente;
  • linhas editoriais a tentar fechar palavras que permanecem abertas;
  • caixão branco rodeado por páginas não publicadas;
  • quarenta cadernos organizados como constelação.

Potencial ficcional

O fascículo quarenta e um

Lavinia encontra um último caderno que muda de conteúdo sempre que é aberto por uma pessoa diferente.

A mulher do vestido

O vestido branco permanece no Homestead depois da morte. Em cada noite, uma nova frase aparece bordada na bainha.

As duas casas

Emily e Susan deixam de se encontrar pessoalmente, mas constroem uma passagem subterrânea feita de cartas e raízes entre o Homestead e The Evergreens.

O editor

Um homem começa a substituir os travessões por pontos. Cada alteração fecha uma porta na casa onde trabalha.

As palavras alternativas

Todas as palavras rejeitadas por editores vivem num arquivo subterrâneo. Uma investigadora descobre que formam uma segunda obra de Emily Dickinson.

O herbário

As flores prensadas voltam lentamente à vida e reproduzem conversas que ocorreram no jardim décadas antes.

O retrato

A jovem do daguerreótipo envelhece dentro da imagem enquanto a mulher real permanece eternamente jovem na memória pública.

Susan

O conto acompanha Susan depois da morte de Emily, enquanto tenta decidir como preservar uma obra que contém a sua própria presença íntima.

A sala branca

Todas as versões biográficas de Emily — a santa, a reclusa, a amante, a doente, a feminista, a mística — reúnem-se no quarto. Nenhuma consegue provar que é a original.


Interligações

Galeria das Sombras
Emily introduz a canonização por domesticação editorial, a mitificação biográfica e o apagamento da rede de criação.

Jardim Digital
Os fascículos, fragmentos, cartas, herbário e variantes aproximam-se de um jardim de ideias em transformação, sem forma final obrigatória.

O Outro Lado do Espelho
A multiplicação de vozes, destinatários, personas epistolares e versões editoriais permite investigar a fragmentação da identidade autoral.

Arquétipos
Perséfone, Hécate, a reclusa, a noiva espectral, a jardineira, a sibila e a guardiã da palavra formam a constelação simbólica da ficha.

Torre
O Homestead, The Evergreens, o quarto, a estufa e os arquivos de Harvard e Amherst constituem arquitecturas materiais da memória literária.

Serpente
A linguagem que muda de pele, as sucessivas versões e o conhecimento construído através da ambiguidade permitem uma relação simbólica com a serpente. A ligação permanece interpretativa.

Natrix Maura
A materialidade do manuscrito, a edição digital e a reconstrução contemporânea dos arquivos podem integrar investigações sobre media, autoria e ecologias de publicação.

Galeria das Sombras — contos góticos
O vestido, o quarto, a casa vizinha, os cadernos cosidos, as cartas destruídas e a poeta transformada em fantasma oferecem uma estrutura gótica já inscrita na história editorial.


Estado da investigação

Ficha em desenvolvimento.

É necessário aprofundar:

  • a totalidade das novas edições das cartas;
  • a estrutura interna dos quarenta fascículos;
  • as variantes lexicais e gráficas;
  • a relação entre poema, papel e destinatário;
  • o herbário e a formação científica;
  • a leitura de jornais e a relação com a Guerra Civil;
  • a correspondência com Susan Dickinson;
  • o papel crítico de Susan na revisão dos poemas;
  • as cartas ao Mestre;
  • a relação com Thomas Wentworth Higginson;
  • as publicações realizadas durante a vida;
  • a intervenção de Helen Hunt Jackson;
  • a história do vestido branco;
  • os testemunhos sobre a retirada social;
  • a doença e os tratamentos dos últimos anos;
  • o trabalho de Lavinia na preservação do arquivo;
  • o papel de Mabel Loomis Todd;
  • o papel de Susan e de Martha Dickinson Bianchi na publicação;
  • o conflito entre os ramos da família;
  • as alterações realizadas nas primeiras edições;
  • a reconstrução dos fascículos por Ralph Franklin;
  • a digitalização dos manuscritos;
  • a representação da poeta no cinema, televisão e cultura popular;
  • a possibilidade de criar uma instalação digital baseada em variantes e suportes manuscritos.

A Galeria não procura retirar Emily Dickinson do cânone.

Procura devolver ao nome conhecido a mulher, a rede, os objectos e as instabilidades que a sua canonização tornou menos visíveis.

Antes de ser a reclusa de branco, Emily foi uma autora rigorosa, uma leitora crítica, uma botânica, uma jardineira, uma correspondente incansável e uma editora dos próprios manuscritos.

A obra sobreviveu. A sua forma continua a regressar.

Base documental da ficha

O Emily Dickinson Museum documenta o nascimento em Amherst, a frequência da Amherst Academy e de Mount Holyoke, a ausência de adesão formal à igreja e a centralidade da educação científica e literária na sua formação. (Museu Emily Dickinson)

O herbário contém mais de quatrocentos espécimes identificados pela poeta, e o jardim e a estufa acompanharam toda a sua vida criativa.

Entre 1858 e 1864, Dickinson copiou cerca de oitocentos poemas para quarenta cadernos cosidos à mão. A Harvard Library conserva a principal colecção destes fascículos e disponibiliza digitalmente imagens da maioria dos manuscritos poéticos sobreviventes. (Harvard Library)

Susan Dickinson recebeu mais de duzentos e cinquenta poemas e foi a pessoa da família mais familiarizada com a escrita de Emily. A intensidade afectiva da relação está documentada nas cartas e poemas, embora a sua classificação exacta permaneça objecto de interpretação.

São conhecidos dez poemas e uma carta publicados durante a vida. As versões impressas eram frequentemente anónimas e sofriam alterações de pontuação, capitalização, rima e título. (Museu Emily Dickinson)

A correspondência sobrevivente estende-se da infância até aos últimos dias. Dickinson pediu a Lavinia que destruísse as cartas que recebera; foi durante esse trabalho que a irmã encontrou os manuscritos poéticos. (Museu Emily Dickinson)

Depois da descoberta, Lavinia promoveu persistentemente a publicação. Mabel Loomis Todd e Thomas Wentworth Higginson editaram o primeiro volume, em 1890; as edições posteriores de Thomas H. Johnson e Ralph Franklin procuraram restaurar a forma dos manuscritos e reconstruir os fascículos. (Museu Emily Dickinson)

O vestido branco sobrevivente tornou-se central na iconografia da poeta, mas o seu significado permanece aberto a interpretação. A causa oficial da morte foi registada como doença de Bright; estudos posteriores admitem hipertensão grave e insuficiência cardíaca como possibilidades.

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