As residências artísticas focadas em tecnologia multiplicam-se e mudam de lógica. Já não se trata apenas de produzir uma obra. Trata-se de ter espaço, engenheiro e tempo para descobrir o que a obra pode ser.
Há uma mudança silenciosa a acontecer no modelo das residências artísticas internacionais voltadas para a tecnologia. Durante décadas, o resultado esperado era uma obra — algo apresentável, documentável, exposto. O que vários programas estão agora a propor é diferente: um ambiente onde a investigação, o protótipo, o erro e o processo têm valor próprio, independentemente do produto final.
A Harvestworks Digital Media Arts Center, fundada em Nova Iorque em 1977 por artistas, é um dos exemplos mais antigos e consistentes deste modelo. O programa de residências de 2026 — uma iniciativa nacional de apoio a artistas norte-americanos que trabalham na intersecção entre arte e tecnologia — oferece a cada residente uma comissão de 5.000 dólares, composta por 2.000 dólares de honorários e 3.000 dólares para atividades no T.E.A.M. Lab (Technology, Engineering, Art and Music Lab), incluindo investigação, produção, programação e prototipagem.
O que torna o modelo distinto: para alem do financiamento, o acesso ao espaço de estúdio do T.E.A.M. Lab, assistência técnica de um engenheiro dedicado, e oportunidades de feedback, mentoria e suporte entre os artistas da mesma coorte. Não é apenas dinheiro, é infraestrutura e interlocução técnica, dois recursos que artistas experimentais raramente têm acesso simultâneo.
Os projetos podem tomar a forma de instalações de áudio ou vídeo multicanal, performances ao vivo com sistemas interativos e processamento em tempo real, visualizações de dados, trabalhos em realidade aumentada ou virtual, composições musicais ou sonoras novas, media algorítmico ou baseado em código, e exploração em aprendizagem automática e inteligência artificial. O programa encoraja explicitamente a criação de novas tecnologias para performance e exibição — instrumentos feitos à medida, sistemas de apresentação inovadores.
O historial do programa é uma lista de referências da arte experimental do século XX e XXI: entre os residentes notáveis contam-se Pauline Oliveros, John Cage (1988), Julius Eastman (1980), Christian Marclay (1990), Maryanne Amacher (2000), Tristan Perich (2010), Bill Fontana (2024) e Zeena Parkins (2024). É um arquivo vivo de quatro décadas de arte e tecnologia — e um indicador de que o programa não acompanha tendências, define-as.
O prazo de candidatura para 2026 já encerrou, com os residentes selecionados anunciados em janeiro e a trabalhar desde fevereiro. As apresentações públicas decorrem ao longo do segundo semestre do ano. Para quem quiser acompanhar o próximo ciclo, contacto em ivanadama@harvestworks.org.
A tendência que a Harvestworks representa — valorizar investigação e processo em vez de obra finalizada — está a ganhar terreno noutros programas internacionais, incluindo o transmediale em Berlim e o Art + Technology Lab do LACMA, ambos noticiados neste número. O que está a consolidar-se não é um formato. É uma filosofia: a de que o trabalho artístico com tecnologia precisa de tempo, tentativa e erro para poder evoluir.