Monografia — O Bravo Coronel Perestrello

Campo: Linhagem

Estado: Investigação em curso; monografia em revisão. Horizonte de publicação: bicentenário da execução, 2029


Conceito

No princípio havia uma lenda de família: um antepassado que regressara a Portugal por amor e fora morto por isso. A monografia sobre o Coronel Inácio Perestrelo Marinho Pereira nasce do gesto de submeter essa lenda ao arquivo — de verificar, documentar e reconstituir a figura histórica que a memória familiar conservara sob forma narrativa durante gerações.

Inácio Perestrelo — tio-trisavô do avô da autora — foi militar e figura do liberalismo português, executado em 1829, no período de repressão miguelista que se abateu sobre os defensores da causa constitucional. Nasceu em Ponte de Lima, à beira do rio Lima — o rio a que os antigos chamaram Lethes, o rio do esquecimento, persuadidos de que as suas águas apagavam a memória de quem as atravessava. A coincidência é demasiado exacta para ser ignorada: o homem que a história oficial esqueceu nasceu à margem do rio do esquecimento.

A monografia é simultaneamente investigação histórica e acto de anamnese familiar. Reconstitui uma vida a partir de fontes primárias — e, ao fazê-lo, desfaz o esquecimento que recaiu sobre um mártir de uma causa vencida que a história nacional preferiu não celebrar.


Tese

Inácio Perestrelo é um herói esquecido — não por irrelevância histórica, mas porque a construção da memória nacional seleccionou outros nomes e relegou os seus pares à nota de rodapé. A sua monografia sustenta que a história de uma família, quando investigada com rigor documental, é também uma história do país — e que recuperar uma figura apagada do passado familiar é recuperar uma camada apagada do passado colectivo.

A tese articula o pessoal e o histórico sem os confundir: o afecto que move a investigação não lhe compromete o rigor, e o rigor não anula o facto de que esta é uma história de família. É precisamente essa dupla nature­za — investigação e linhagem — que a inscreve no campo da anamnese.


Investigação

Método

Investigação histórica de fontes primárias combinada com genealogia documental. O trabalho de arquivo — nomeadamente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo — procura os registos do processo, da carreira militar e da execução; a investigação genealogica reconstitui a linha de ascendência e descendência que liga Inácio à autora e, mais para trás, à figura de D. Pedro de Cantábria.

O objecto

A vida de Inácio Perestrelo; o contexto do liberalismo português e da repressão miguelista; as circunstâncias do regresso a Portugal e da execução; e a figura de Helena Dulac, a mulher associada a esse regresso, cuja investigação deu origem a um projecto autónomo (A Casa do Lago).

Linhagem teórica

A microhistória como método (a reconstituição de uma vida singular como via de acesso a uma época) · a tradição da biografia histórica documentada · a história do liberalismo português · os estudos genealogicos.


Artefactos

Monografia (em revisão)

Enquadramento: biografia histórica documentada — a reconstituição de uma vida a partir de fontes primárias, no rigor da microhistória.

Árvore genealogica (em construção)

Enquadramento: a cartografia da linhagem — de D. Pedro de Cantábria a Inácio Perestrelo, e deste à autora.

Ligação a A Casa do Lago — a investigação sobre Helena Dulac, desencadeada por esta monografia, gerou um romance autónomo, no campo da Linhagem.


Case study

A monografia de Inácio Perestrelo demonstra como a anamnese opera no campo da linhagem: o arquivo ao serviço da desocultação de uma figura apagada. Demonstra que a investigação genealogica, longe de ser exercício de vaidade fami­liar, pode constituir investigação histórica legítima — desde que submetida ao mesmo rigor de fontes que qualquer outra.

Demonstra ainda o carácter gerativo do método: a investigação de uma figura conduziu à descoberta de outra (Helena Dulac), que por sua vez gerou um romance, uma persona literária e uma entrada num arquivo de mulheres apagadas. Uma só vida recuperada do esquecimento ramificou-se em múltiplos projectos através dos cinco campos da obra.


Conclusão

A monografia de Inácio Perestrelo é o ponto de origem do campo da Linhagem e um dos nós centrais de todo o ecossistema. É a investigação que revelou Helena Dulac, que conduziu a D. Pedro de Cantábria, que ancorou o território em Ponte de Lima, e que forneceu à obra a sua imagem fundadora — o rio do esquecimento como lugar de nascimento do esquecido.

A investigação prossegue e a monografia está em revisão, com vista à publicação no bicentenário da execução, em 2029. É um prazo e é um símbolo: duzentos anos depois de ter sido morto e esquecido, Inácio Perestrelo voltará a ter nome.

Nasceu à beira do rio do esquecimento. Foi esquecido. A monografia é o regresso.

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