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Anamnese Do grego ἀνάμνησις — o contrário do esquecimento.

Anamnese é uma cosmografia simbólica da memória: um mundo transmedia composto por seis reinos onde vive tudo o que foi apagado e regressa à existência.

Aqui, nada se perde de vez. O esquecido persiste sob a superfície das paisagens, das linhagens, das imagens, dos corpos celestes, das cidades e das vozes. Atravessar este mundo é praticar a anamnese: ir buscar o que foi coberto, nomeá-lo e devolver-lhe forma.

Este projecto nasce como camada poética e estrutural de um ecossistema maior. Reúne investigação artística, worldbuilding transmedia, mitogeografia, genealogia, arquivo, heteronímia, ficção especulativa e ecologias digitais. Cada projecto mantém a sua autonomia, mas todos pertencem à mesma arquitectura simbólica: um mundo onde a memória é território legível em camadas.

Tema e género

Género: cosmografia simbólica · worldbuilding transmedia de base autobiográfica, histórica e especulativa.

Temas centrais:
o contrário do esquecimento;
o que persiste sob a superfície visível;
a convivência entre real e ficcional no mesmo plano;
a memória como território;
a obra como arquivo vivo;
a criação como método de restituição.

Premissa

Há lugares onde a memória não seca.

O mundo de Anamnese é feito de seis reinos, cada um guardando uma forma diferente do que foi apagado: o território com memória pré-romana, o panteão dos heróis esquecidos, a galeria das mulheres silenciadas, o mundo do outro lado do espelho onde habitam as autoras, o céu das deusas excluídas e a cidade espectral.

Entre estes reinos circulam figuras que atravessam fronteiras, reflectem-se, mudam de nome e regressam sob outras formas. E existe ainda uma escola — o Serpentário — de onde se aprende a ler os sinais, interpretar as camadas e viajar por todos os mundos.

Atravessar Anamnese é desfazer o apagamento em todos os planos ao mesmo tempo.

Os seis reinos

A Terra das Serpentes

Campo: Território

O reino exterior: a paisagem atlântica entre Ofir e a Islândia, com a sua memória pré-romana inscrita em pedras, rios, promontórios, castros e lendas. Aqui nasce Ophiussa, a Terra das Serpentes das fontes gregas. A serpente é força telúrica, linha subterrânea, guardiã da memória antiga.

O Panteão dos Esquecidos

Campo: Linhagem

O reino subterrâneo e ancestral: o lugar onde repousam os heróis que a história enterrou. Inácio Perestrelo, o coronel liberal; D. Pedro de Cantábria, o dux visigótico; figuras de uma linhagem extensa, inscrita como estratos num território. Aqui, a genealogia deixa de ser árvore e torna-se escavação.

A Galeria das Sombras

Campo: Mulheres

O reino-arquivo: um corredor de retratos onde habitam mulheres apagadas, reais e ficcionais no mesmo plano. Cada uma possui a sua ficha, o seu arquétipo, a sua deusa, a sua sombra. É o lugar onde se penduram as que já não estavam à vista, para que possam continuar a ser lidas.

O Mundo-Espelho

Campo: Identidade

O reino do outro lado do espelho: onde vivem as sete autoras do Looking Glass, reflexos de fases, vozes e universos possíveis. As autoras não são apenas personagens; são dispositivos de escrita, máscaras operativas, habitantes móveis. Atravessam o espelho e circulam pelos outros reinos.

O Constelário

Campo: Cosmos

O reino celeste: o céu onde vivem as deusas dos asteróides, figuras femininas que o panteão oficial excluiu e que sobreviveram como corpos celestes. É um reino vasto e expansível: primeiro asteróides, depois estrelas, constelações, mapas e mitologias futuras.

A Torre de Obsidiana

Campo: Cidades Invisíveis

O reino urbano e espectral: uma torre de pedra negra e espelhada de onde se avista o Porto invisível. A cidade é lida em camadas — o século XIX, os anos 90, a memória familiar, as ruínas, as fachadas, os fantasmas arquitectónicos. É o reino íntimo, hauntológico e urbano de Anamnese.

O Serpentário

O Serpentário não é um reino. É a escola, a torre de vigia, a porta e o mapa.

É o lugar onde a anamnese se transforma em método: uma forma de ler territórios, imagens, linhagens, arquivos, cidades e mundos simbólicos. A partir dele aprende-se a atravessar os seis reinos, reconhecer padrões, escavar camadas e devolver forma ao que foi esquecido.

Habitantes que atravessam

Helena Dulac

Helena Dulac é a princesa transversal.

Nasce no Panteão dos Esquecidos, enquanto mulher de Inácio Perestrelo. Entra na Galeria das Sombras, enquanto mulher apagada pela história. Sobe ao Constelário, através do asteróide Helena, situado a 14º de Virgem no mapa de Inácio.

Não pertence apenas a um reino. Atravessa-os. É a prova de que os mundos comunicam.

Lady DuLac

Lady DuLac é o reflexo de Helena no Mundo-Espelho.

Quando Helena atravessa o espelho, não se duplica: reflecte-se. Lady DuLac nasce dessa variação. É uma autora gótica com matriz própria, mas ligada à princesa original por uma linha secreta. Escreve, do lado de cá, as Chrónicas do Sepulchro.

As autoras do espelho

As sete habitantes do Mundo-Espelho são viajantes. Cada uma possui afinidades com outros reinos.

Selene Atwey trabalha na Terra das Serpentes, como antropóloga da proto-história e da memória arquetípica. Nasheera tem afinidade com o Constelário, onde lê matemática, símbolos e cartografias do cosmos. Lady DuLac liga-se ao Panteão dos Esquecidos e à Galeria das Sombras.

As autoras dão movimento ao mundo. Impedem os reinos de serem estáticos.

Inspirações

Anamnese nasce no cruzamento entre as cidades impossíveis de Italo Calvino, a heteronímia de Fernando Pessoa, a deriva memorial de W. G. Sebald, o espelho de Lewis Carroll, a mitologia atlântica e nórdica, e a poética ultra-romântica, sepulcral e portuguesa de Soares de Passos.

Tom

“Escavar em ruínas.”

Há lugares onde a memória não se esgota. Rios com nome grego que significam esquecimento. Pedras gravadas que ninguém parou para ler. Mulheres sem retrato. Heróis sem panteão. Cidades que continuam a falar por baixo das fachadas.

Neste mundo, nada do que foi apagado desapareceu.

Apenas espera ser lido.

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