É no Ultra-Romantismo que a dor se torna estética. O sofrimento não busca alívio; busca ser belo.
Ponte de Lima, aos 3 dias do mês de Abril, no anno de 18—
Meu caro e distante confidente,
Escrevo-vos entre sombras e silêncios, sob a compaixão morna de uma vela quase extinta, para partilhar convosco uma inquieta reflexão que me assombra os dias: a distinção entre o Romantismo e o seu espelho mais sombrio, o Ultra-Romantismo. Que estranha paixão moveu tantos espíritos a escrever sobre a morte, a dor e o abismo da alma com tão sublime entrega? Estarei eu, também, condenada a essa languidez?
O Romantismo, esse primeiro suspiro da alma liberta, celebrou o sentimento, a natureza e o génio do indivíduo. Era o tempo dos lagos, das ruínas, das noites estreladas e das paixões arrebatadas. Um lamento belo, mas ainda com cor. Lord Byron cavalgava os ventos como um anjo caído, e Goethe fez do sofrimento um jardim filosófico.
Mas o Ultra-Romantismo… oh, esse é o templo da exaustão. Aqui não mais se chora por amor, mas pela impossibilidade de amar; não se canta à lua, mas ao sepulcro. Os poetas tornaram-se vultos pálidos, enamorados do nada, devotos da morte como único consolo. Alencar, Junqueira Freire, Soares de Passos… quantos escreveram com a lágrima ao lado da pena e com o coração já meio sepultado.
Soares de Passos, esse mártir esquecido do sentimento em excesso, deixou-nos versos de uma beleza fúnebre e irretocável. Em “O Noivado do Sepulcro”, ouvimos o suspiro da morte amada:
“E quando, enfim, na campa me estender,
Tu virás, branca sombra, ajoelhar-te
A meu lado a chorar e a bendizer…”
Com ele, o amor ultrapassa o véu da existência — não há promessa de futuro, senão a união definitiva no repouso da terra. Eis o ápice do ideal ultra-romântico: um amor que só se consuma na decomposição.
É no Ultra-Romantismo que a dor se torna estética. O sofrimento não busca alívio; busca ser belo. A morte não é temida; é desejada como amante fiel. E assim, entre suspiros e epitáfios, nasceu uma arte onde viver era padecer, e padecer era escrever.
Mas dizei-me, meu amigo: não há algo de doce nesta entrega? Não há na figura do poeta doente, vestindo negro e esperando o fim com um sorriso triste, uma beleza terrível e irrecusável?
Eu, que escrevo entre cortinas fechadas e rosas murchas, confesso que me encanto por essa estética da agonia. Talvez porque, na dor bem escrita, se esconda uma forma rara de verdade.
Vosso vulto na penumbra
da memória,
Lady DuLac

Gravura de Soares de Passos, publicada em 1860.