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Maria Anna Mozart

by Inês Soares

A mulher que conservou a música do irmão e perdeu a sua

Nome completo: Maria Anna Walburga Ignatia Mozart
Nome familiar: Nannerl
Nome após o casamento: Maria Anna von Berchtold zu Sonnenburg
Estatuto: figura histórica
Nascimento: noite de 30 para 31 de Julho de 1751, Salzburgo
Morte: 29 de Outubro de 1829, Salzburgo
Actividade: pianista, professora de música, copista, intérprete e compositora sem obra sobrevivente conhecida
Campo: Mulheres · Linhagem · Arquétipos · Arquivo
Categoria principal de apagamento: apagamento por contiguidade fraterna
Categorias secundárias: perda do corpus · restrição da trajectória profissional · infantilização retrospectiva · mediação invisível · substituição pela narrativa do génio masculino
Estado espectral: a primeira criança-prodígio da família Mozart, recordada através do irmão que começou por segui-la ao piano


Biografia

Maria Anna Walburga Ignatia Mozart nasceu em Salzburgo, durante a noite de 30 para 31 de Julho de 1751.

Era filha do violinista, compositor e pedagogo Leopold Mozart e de Anna Maria Walburga Pertl. Foi a quarta criança do casal e a primeira a sobreviver à infância. Cinco anos depois nasceu Wolfgang Amadé Mozart, o único outro filho que chegaria à idade adulta.

Aos oito anos, Maria Anna começou a receber do pai uma formação musical sistemática. Leopold preparou para ela um caderno de exercícios e peças para teclado, iniciado em 1759 e hoje conhecido como Nannerl-Notenbuch.

O livro antecede a formação musical regular de Wolfgang. Foi criado para Maria Anna e só depois passou a incluir exercícios e as primeiras composições do irmão mais novo.

O primeiro espaço documental da obra de Wolfgang foi, portanto, um caderno que pertencia à irmã.

Maria Anna aprendeu a tocar cravo e outros instrumentos de tecla, desenvolvendo rapidamente um domínio técnico extraordinário. Quando Wolfgang começou a interessar-se pelo teclado, observava as aulas da irmã, escutava-a tocar e tentava reproduzir as peças contidas no seu livro.

Antes de existir o menino-prodígio Mozart, existia já uma menina-prodígio dentro da mesma casa.


A primeira criança-prodígio da família

Entre 1762 e 1768, Maria Anna acompanhou a família em várias viagens pela Europa.

Apresentou-se em cortes, salões aristocráticos e espaços públicos de cidades como:

Munique · Viena · Paris · Londres · Haia · Bruxelas · Zurique · Frankfurt

Nos primeiros concertos, os dois irmãos eram promovidos como crianças excepcionais. Maria Anna, mais velha e tecnicamente mais desenvolvida, recebia elogios pela precisão, virtuosismo e capacidade de interpretar repertório difícil.

Relatos contemporâneos descrevem a sua execução como magistral. Leopold afirmou que a filha, ainda com doze anos, se encontrava entre os instrumentistas mais hábeis da Europa.

As apresentações exploravam frequentemente a singularidade dos dois irmãos:

  • tocavam individualmente;
  • executavam peças em conjunto;
  • improvisavam;
  • tocavam com o teclado coberto;
  • realizavam exercícios de memória;
  • respondiam a desafios propostos pela audiência.

A família Mozart transformou o talento das crianças num projecto artístico, pedagógico e económico de escala europeia.

Maria Anna participou nesse projecto desde o início. A sua presença ajudou a construir a imagem pública da família e constituiu uma das primeiras referências musicais de Wolfgang.


O caderno e a primeira sinfonia

Durante a estadia da família em Londres, em 1764, Leopold adoeceu e as crianças foram impedidas de tocar para não o incomodar.

Segundo uma recordação registada por Maria Anna muitos anos depois, Wolfgang aproveitou o silêncio forçado para conceber a sua primeira sinfonia. Como ainda não dominava completamente a escrita musical, teria ditado a obra à irmã, que a passou para o papel.

Maria Anna recordava também o pedido do irmão para que não se esquecesse de incluir algo importante para as trompas.

O episódio é conhecido através de um testemunho retrospectivo e não permite determinar a natureza exacta da participação de Maria Anna. Poderá ter actuado como simples copista, assistente musical ou interlocutora mais activa durante a construção da obra.

A falta de documentação impede uma conclusão segura.

O episódio permanece significativo porque mostra uma criança de treze anos com competência suficiente para compreender, registar e acompanhar a composição de uma sinfonia.

A mão de Maria Anna encontra-se na origem material de parte da música inicial do irmão, mesmo quando o seu nome não aparece como autora.


A separação das trajectórias

Em 1769, Leopold iniciou com Wolfgang as viagens a Itália.

Maria Anna, então com dezoito anos, permaneceu em Salzburgo com a mãe.

Este momento marca uma separação estrutural entre as trajectórias dos dois irmãos.

Wolfgang continuou a viajar, estudar, conhecer músicos, receber encomendas, apresentar composições e desenvolver uma identidade profissional como compositor.

Maria Anna deixou de integrar as grandes viagens familiares.

A sua carreira musical não terminou por completo. Continuou a tocar, participou posteriormente em apresentações públicas e desenvolveu uma actividade respeitada como professora. O acesso às mesmas possibilidades de circulação, formação internacional e construção de reputação tornou-se, contudo, profundamente desigual.

A idade adulta produziu destinos diferentes para talentos formados dentro da mesma casa.

Para Wolfgang, crescer significou entrar numa carreira.

Para Maria Anna, significou regressar a um modelo social em que a reputação, o casamento, a vida doméstica e a respeitabilidade condicionavam o exercício público da música.

O apagamento começa nesta divergência.


A composição desaparecida

Maria Anna compôs música.

A principal prova encontra-se numa carta enviada por Wolfgang a partir de Roma, em Abril de 1770. O irmão elogia uma composição que ela lhe enviara, manifesta surpresa perante a qualidade do trabalho e encoraja-a a continuar.

A obra referida parece ter sido uma canção.

A partitura não sobreviveu.

Não se conhece actualmente qualquer composição que possa ser atribuída com segurança a Maria Anna Mozart. A ausência do corpus impede avaliar:

  • a extensão da sua produção;
  • o género das obras;
  • a sua linguagem musical;
  • a frequência com que compunha;
  • o grau de autonomia relativamente ao pai e ao irmão;
  • a possibilidade de outras peças permanecerem anónimas ou incorrectamente atribuídas;
  • o momento e as razões pelas quais deixou de compor.

A frase de Wolfgang constitui uma das poucas aberturas para uma obra desaparecida.

Sabemos que a composição existiu.

Sabemos que um músico altamente exigente a considerou bela.

Não sabemos como soava.


O perigo da irmã genial apagada

A recuperação contemporânea de Maria Anna é frequentemente construída através da hipótese de que teria sido tão genial como Wolfgang se tivesse recebido as mesmas oportunidades.

A hipótese possui força simbólica, mas não pode ser demonstrada.

A documentação permite afirmar que Maria Anna foi:

  • uma intérprete excepcional;
  • uma criança-prodígio reconhecida;
  • uma professora respeitada;
  • uma copista musical tecnicamente competente;
  • uma mulher que compôs pelo menos algumas obras;
  • uma participante activa na vida musical de Salzburgo;
  • uma mediadora importante na preservação e edição da obra do irmão.

A documentação disponível não permite reconstruir um corpus composicional comparável ao de Wolfgang.

A restituição de Maria Anna não exige transformá-la num segundo Mozart.

O problema histórico encontra-se na impossibilidade de saber até onde poderia ter desenvolvido a composição. A perda não é apenas a de determinadas partituras. É também a de um percurso cuja continuidade deixou de ser incentivada, documentada e preservada.

O arquivo contém provas do talento e, ao mesmo tempo, a estrutura da impossibilidade de o avaliar.


A música depois das viagens

Durante os anos seguintes às viagens europeias, Maria Anna manteve uma vida musical activa em Salzburgo.

Tocava repertório exigente, acompanhava a produção do pai e do irmão, copiava partituras e ensinava piano. Os seus alunos provinham sobretudo dos meios burgueses e aristocráticos da cidade.

Entre eles encontrava-se Joseph Wölfl, que viria a tornar-se pianista e compositor de carreira internacional. O diário de Maria Anna regista aulas e apresentações realizadas com o jovem músico.

A documentação mostra que a sua actividade pedagógica possuía carácter profissional. Maria Anna era reconhecida dentro da vida musical de Salzburgo e chegou a ser mencionada entre os músicos da cidade ao lado de figuras como Michael Haydn.

A imagem de uma mulher que abandonou inteiramente a música depois da juventude não corresponde ao arquivo.

A interrupção ocorreu sobretudo na circulação internacional e na possibilidade de construir uma carreira pública semelhante à do irmão. A música permaneceu presente através do ensino, da interpretação, da cópia e da organização.


A copista e a mediadora musical

Vários manuscritos musicais foram identificados como tendo sido copiados pela mão de Maria Anna.

O trabalho de cópia exigia:

  • leitura musical avançada;
  • precisão;
  • conhecimento de instrumentação;
  • compreensão da estrutura das obras;
  • capacidade de detectar erros;
  • familiaridade com as convenções editoriais;
  • disciplina material.

A investigação recente atribui-lhe também competências de orquestração em alguns destes processos.

Maria Anna colaborou na organização e transmissão das obras de Leopold e Wolfgang. O seu trabalho foi importante para as primeiras iniciativas de edição e sistematização do legado musical do irmão.

A cópia costuma ocupar uma posição secundária na história da autoria. É apresentada como reprodução mecânica de uma obra já concluída.

Dentro de uma cultura manuscrita, porém, a copista era uma agente de transmissão. A obra só podia circular, ser ensaiada, impressa ou preservada quando alguém a convertia num objecto legível e utilizável.

Maria Anna contribuiu para que a música de Wolfgang chegasse ao futuro.

A sua própria música não recebeu a mesma transmissão.


Casamento e St. Gilgen

Em 1784, com trinta e três anos, Maria Anna casou com Johann Baptist Franz von Berchtold zu Sonnenburg, funcionário da administração de Salzburgo e magistrado em St. Gilgen.

O marido era viúvo e tinha filhos de casamentos anteriores. Maria Anna passou a integrar uma casa já constituída, assumindo responsabilidades familiares e domésticas significativas.

O casal teve três filhos:

Leopold Alois Pantaleon · Jeanette · Maria Babette

A última morreu ainda criança.

Maria Anna viveu em St. Gilgen, local de onde a sua mãe era originária. A distância de Salzburgo limitava o contacto directo com a vida musical da cidade, embora a correspondência familiar demonstre que manteve relações com o pai, com o irmão e com os círculos culturais de que fazia parte.

O casamento tem sido descrito como uma imposição paterna e uma união infeliz. A investigação mais recente apresenta um quadro mais cauteloso. Tratou-se de uma união adequada às convenções sociais e económicas do meio a que Maria Anna pertencia, e existem indícios de que lhe proporcionou segurança e alguma continuidade cultural.

A documentação disponível não permite transformar a experiência do casamento numa história romântica, nem numa prisão absoluta.

A vida em St. Gilgen corresponde, contudo, a uma fase em que a artista pública se torna documentalmente menos visível.


O filho criado pelo avô

Quando nasceu o primeiro filho de Maria Anna, Leopold Alois Pantaleon, a criança permaneceu durante um período em Salzburgo, aos cuidados do avô Leopold Mozart.

A decisão tem sido interpretada de formas contraditórias.

Pode ter resultado:

  • de necessidades práticas;
  • da experiência de Leopold como educador;
  • da proximidade emocional entre avô e filha;
  • das condições da casa de St. Gilgen;
  • do desejo de proporcionar à criança uma formação específica.

As fontes não permitem reduzir o episódio a abandono materno ou controlo paterno.

O caso mostra, porém, como a história de Maria Anna continua frequentemente a ser lida através das decisões dos homens da família. Mesmo a maternidade é interpretada a partir de Leopold, Wolfgang ou Johann Baptist.

A ficha deve preservar a complexidade documental sem inventar motivações.


Regresso a Salzburgo

Johann Baptist morreu em 1801.

Maria Anna regressou a Salzburgo e retomou uma presença mais activa na vida musical e social da cidade. Continuou a trabalhar como professora de piano e adquiriu reputação como pedagoga exigente e conhecedora.

Na condição de viúva, possuía uma autonomia social que dificilmente teria alcançado enquanto jovem solteira ou mulher casada.

A viuvez permitiu-lhe reorganizar a vida, administrar recursos, receber alunos e circular dentro da chamada Segunda Sociedade de Salzburgo, composta por membros da burguesia emergente e da pequena nobreza.

O diminutivo Nannerl, adequado à criança celebrada nas viagens, continuou a acompanhá-la na historiografia.

A mulher adulta — professora, viúva, mãe, copista e figura cultural de Salzburgo — permaneceu durante muito tempo presa ao nome infantil da irmã do génio.


A primeira biógrafa de Mozart

Depois da morte de Wolfgang, em 1791, Maria Anna escreveu um conjunto de recordações sobre a infância e a juventude do irmão.

Estas notas serviram de base a Friedrich Schlichtegroll para uma das primeiras biografias de Mozart, publicada em 1793.

Maria Anna preservou cartas, documentos e memórias familiares. Após a morte do pai, manteve sob a sua guarda parte importante do arquivo e entregou posteriormente materiais a Constanze Mozart para apoiar a organização do espólio e a produção biográfica.

A primeira narrativa publicada sobre Wolfgang dependeu, em parte, da memória da irmã.

Maria Anna ocupa assim várias posições dentro do arquivo mozartiano:

  • testemunha;
  • fonte;
  • copista;
  • conservadora;
  • narradora;
  • primeira biógrafa;
  • mediadora editorial.

A história da música utilizou intensamente aquilo que sabia sobre Wolfgang através dela.

A mulher que forneceu a memória permaneceu à margem dessa mesma história.


A perda da visão

Nos últimos anos de vida, Maria Anna perdeu progressivamente a visão.

A cegueira obrigou-a a reduzir ou abandonar o ensino, que constituía uma das suas principais actividades e fontes de rendimento.

O desaparecimento visual introduz uma dimensão particularmente dolorosa na sua biografia: a mulher cuja vida esteve ligada à leitura de pautas, à execução ao teclado, à cópia de manuscritos e à observação minuciosa da escrita musical deixou de poder exercer essas tarefas.

Morreu em Salzburgo, em 29 de Outubro de 1829, com setenta e oito anos.

Foi sepultada no cemitério de São Pedro.


Forma de apagamento

Maria Anna foi apagada através de uma combinação de proximidade, comparação e perda documental.

Apagamento por contiguidade fraterna

O nome Mozart garante-lhe presença histórica, mas determina o modo como essa presença é lida.

Maria Anna aparece como:

  • irmã de Mozart;
  • companheira de infância de Mozart;
  • primeira parceira musical de Mozart;
  • copista de Mozart;
  • testemunha da infância de Mozart;
  • fonte para a biografia de Mozart.

Cada uma destas funções é historicamente relevante. Em conjunto, podem absorver a existência autónoma da pianista e professora.

A proximidade preserva-a e limita-a.

Perda do corpus

Nenhuma das suas composições conhecidas chegou até ao presente.

O apagamento torna-se material: faltam as partituras sobre as quais poderia assentar uma história da compositora.

Sem obra, Maria Anna é constantemente devolvida à biografia.

Restrição da trajectória

A carreira internacional terminou quando entrou na idade adulta, enquanto a do irmão se expandia.

Continuou a trabalhar musicalmente, mas dentro de circuitos mais limitados e socialmente aceitáveis para uma mulher.

Mediação invisível

O ensino, a cópia, a preservação documental e a transmissão editorial sustentaram a cultura musical da família.

Estas actividades costumam surgir como apoio, não como produção de conhecimento e continuidade artística.

Infantilização retrospectiva

A persistência do nome Nannerl mantém Maria Anna na imagem da menina que tocava ao lado do irmão.

A criança-prodígio sobrevive; a mulher adulta torna-se vaga.


Tese da ficha

O cânone preserva de forma desigual aqueles que participam na produção de uma obra cultural.

Maria Anna Mozart demonstra que o apagamento pode coexistir com abundância documental.

Conhecemos:

  • o nome;
  • o rosto;
  • as viagens;
  • a família;
  • a correspondência;
  • o trabalho pedagógico;
  • a caligrafia musical;
  • os alunos;
  • o casamento;
  • os filhos;
  • as recordações.

Falta a música que escreveu.

O arquivo permite reconstruir a vida da artista e impede escutar a compositora.

A sua história revela ainda que talento, formação e reconhecimento inicial não garantem continuidade. A carreira depende de estruturas de circulação, encomenda, publicação, preservação e legitimidade.

Wolfgang recebeu essas estruturas durante a passagem para a idade adulta.

Maria Anna recebeu um lugar dentro da memória familiar.


A irmã como categoria histórica

A expressão «irmã de» parece identificar Maria Anna, mas funciona também como categoria de apagamento.

A irmã é frequentemente apresentada como:

  • primeira companheira;
  • testemunha privilegiada;
  • influência doméstica;
  • colaboradora discreta;
  • guardiã do legado;
  • versão incompleta do génio.

A comparação com o irmão torna-se inevitável e improdutiva. Tudo o que Maria Anna fez é medido contra aquilo que Wolfgang realizou.

A Galeria desloca a pergunta.

Em lugar de procurar saber se poderia ter sido outro Mozart, observa as condições concretas da sua existência musical:

  • o que aprendeu;
  • onde actuou;
  • quem ensinou;
  • o que copiou;
  • o que escreveu;
  • o que preservou;
  • o que se perdeu.

Esta mudança permite recuperar Maria Anna como figura histórica sem a transformar em duplicação imaginária do irmão.


Marcação epistemológica

Documentado

  • Maria Anna Walburga Ignatia Mozart nasceu em Salzburgo em 1751.
  • Era filha de Leopold Mozart e Anna Maria Pertl.
  • Foi a primeira filha do casal a sobreviver à infância.
  • Era cinco anos mais velha do que Wolfgang.
  • Começou a receber formação de teclado com cerca de oito anos.
  • O Nannerl-Notenbuch foi inicialmente criado para as suas aulas.
  • Viajou e actuou com a família entre 1762 e 1768.
  • Foi reconhecida como pianista excepcional.
  • Tocou em várias cidades e cortes europeias.
  • Permaneceu em Salzburgo quando Leopold e Wolfgang partiram para Itália.
  • Wolfgang elogiou numa carta uma composição escrita por ela.
  • Nenhuma composição sua é actualmente conhecida em manuscrito.
  • Continuou a tocar e a ensinar música na idade adulta.
  • Foi uma professora respeitada em Salzburgo.
  • Manuscritos musicais foram identificados como escritos pela sua mão.
  • Trabalhou como copista e mediadora da obra do pai e do irmão.
  • Casou em 1784 com Johann Baptist von Berchtold zu Sonnenburg.
  • Viveu em St. Gilgen.
  • Teve três filhos.
  • Regressou a Salzburgo depois da morte do marido.
  • Escreveu recordações sobre Wolfgang para uma das primeiras biografias.
  • Preservou documentos da família.
  • Perdeu a visão na velhice.
  • Morreu em Salzburgo em 1829.

Recordado posteriormente

  • Maria Anna afirmou ter registado a primeira sinfonia de Wolfgang enquanto Leopold se encontrava doente em Londres.
  • Recordou comentários do irmão relacionados com a instrumentação da obra.
  • Estas informações foram registadas muitos anos depois dos acontecimentos.

Provável

  • A passagem à idade adulta e as expectativas de casamento contribuíram para o fim das viagens internacionais.
  • A ausência de circulação e publicação reduziu as possibilidades de preservação das suas composições.
  • Maria Anna terá produzido outras peças além da composição mencionada por Wolfgang.
  • O ensino constituiu uma parte significativa da sua autonomia económica.
  • A sua competência como copista implicava conhecimentos de composição e instrumentação.

Interpretado

  • Maria Anna sofreu apagamento por contiguidade fraterna.
  • O desaparecimento das partituras converteu uma artista numa figura essencialmente biográfica.
  • O diminutivo Nannerl contribuiu para a infantilização retrospectiva.
  • O caderno criado para ela tornou-se simbolicamente parte da narrativa da infância de Wolfgang.
  • A preservação da obra do irmão contrasta com a perda da sua própria produção.
  • O trabalho pedagógico e editorial foi desvalorizado por não corresponder ao modelo canónico do compositor individual.

Em debate

  • A extensão exacta da sua produção composicional.
  • A natureza da participação na primeira sinfonia de Wolfgang.
  • A influência musical que exerceu sobre o irmão.
  • As razões específicas que determinaram o fim das viagens.
  • O grau de satisfação ou insatisfação dentro do casamento.
  • A autoria ou participação de Maria Anna em manuscritos ainda não totalmente estudados.
  • A possibilidade de algumas composições terem sobrevivido sob outra atribuição.

Não demonstrado

  • Que Maria Anna possuísse um talento composicional equivalente ao de Wolfgang.
  • Que Leopold a tenha proibido formalmente de compor.
  • Que obras conhecidas de Wolfgang tenham sido compostas por Maria Anna.
  • Que a sua produção tenha sido deliberadamente destruída pela família.
  • Que tenha abandonado completamente a música depois dos dezoito anos.

Imaginado / ficcionalizado no projecto

  • O conteúdo musical da canção elogiada por Wolfgang.
  • Diários íntimos sobre o fim das viagens.
  • Conversas privadas entre os dois irmãos sobre composição.
  • A sensação de ouvir as primeiras obras de Wolfgang nascerem dentro do seu caderno.
  • Partituras secretas ou escondidas.
  • Um confronto com Leopold sobre a carreira.
  • Pensamentos durante a perda da visão.
  • A reacção de Maria Anna à fama póstuma do irmão.

Arquétipo

A guardiã da música ausente

Maria Anna encarna a mulher que preserva a obra dos outros enquanto os vestígios da sua criação desaparecem.

A guardiã:

  • conserva documentos;
  • transmite memória;
  • ensina;
  • copia;
  • organiza;
  • testemunha;
  • garante continuidade;
  • conhece a linguagem da obra por dentro.

A sua contribuição é indispensável e raramente ocupa o lugar da autoria.

O arquétipo manifesta-se em irmãs, esposas, filhas, copistas, secretárias, professoras, editoras e arquivistas que tornam possível a sobrevivência de um legado artístico sem serem plenamente integradas nesse legado.


Deusa correspondente

Mnemosyne — a memória que conserva a voz dos outros

A correspondência é interpretativa.

Mnemosyne, deusa da memória e mãe das Musas, representa a origem anterior à obra artística. Sem memória, a música não pode ser transmitida, repetida ou inscrita numa tradição.

Maria Anna preservou:

  • as recordações da infância;
  • documentos familiares;
  • manuscritos;
  • práticas interpretativas;
  • conhecimento musical;
  • informações usadas pelos primeiros biógrafos;
  • parte da memória material de Wolfgang.

A relação contém uma inversão trágica.

Maria Anna torna-se guardiã da memória musical de outro enquanto a sua própria música deixa de poder ser recordada.

Ressonância secundária: Euterpe, Musa da música.

Euterpe representa a intérprete e a compositora cuja presença conhecemos, mas cuja voz sonora não chegou até nós.


Artefactos reais

Nannerl-Notenbuch

Caderno iniciado por Leopold Mozart em 1759 para a formação musical de Maria Anna.

Contém exercícios, peças de diferentes compositores e algumas das primeiras composições de Wolfgang.

É simultaneamente:

  • instrumento pedagógico;
  • vestígio da formação de Maria Anna;
  • arquivo da infância musical dos dois irmãos;
  • objecto posteriormente absorvido pela biografia de Wolfgang.

A composição elogiada em 1770

Obra enviada por Maria Anna ao irmão e conhecida apenas através da resposta de Wolfgang.

A partitura encontra-se perdida.

Os manuscritos copiados

Partituras escritas pela mão de Maria Anna, relacionadas com a produção de Leopold e Wolfgang.

Demonstram rigor técnico e participação activa na transmissão das obras.

As cartas

A correspondência familiar preserva informações sobre as viagens, o repertório, a vida musical, o casamento e a relação entre os irmãos.

Grande parte das cartas escritas por Maria Anna perdeu-se; sobreviveram sobretudo mensagens dirigidas a ela ou textos partilhados com o pai.

O diário

Registo da vida quotidiana, das relações sociais, das aulas, dos concertos, do clima, das visitas e dos acontecimentos familiares.

O diário revela uma mulher metódica, atenta e integrada na vida cultural de Salzburgo.

As notas biográficas sobre Wolfgang

Recordações redigidas depois da morte do irmão e utilizadas por Friedrich Schlichtegroll.

Constituem uma das primeiras tentativas de organizar a vida de Mozart numa narrativa biográfica.

Os retratos familiares

Existem poucos retratos considerados autenticamente ligados a Maria Anna.

Entre eles encontram-se:

  • uma representação dos irmãos em crianças;
  • o retrato familiar atribuído a Johann Nepomuk della Croce;
  • a imagem da família em viagem associada a Carmontelle e Delafosse.

Muitas outras imagens divulgadas como retratos de Maria Anna representam provavelmente mulheres desconhecidas.


Artefacto imaginário

A partitura sem notas

Um caderno de música com todas as pautas vazias.

Nas margens permanecem indicações de andamento, respiração, dinâmica e expressão:

dolce · cantabile · con spirito · piano · da capo

Na última página encontra-se uma frase:

O meu irmão ouviu-a. O futuro não.

Quando alguém coloca as mãos sobre o papel, sente a vibração das cordas de um instrumento, mas nenhum som se torna audível.

O artefacto representa uma obra cuja existência pode ser documentada, mas cuja forma permanece irrecuperável.

Marcação: imaginado.


Possível tratamento visual

  • duas crianças diante do mesmo teclado, com apenas uma delas reflectida no futuro;
  • o Nannerl-Notenbuch aberto numa página em branco;
  • mãos femininas copiando uma partitura assinada por outro nome;
  • duas cadeiras diante de um piano, uma progressivamente apagada;
  • uma pauta vazia junto da carta de 1770;
  • retrato familiar onde Maria Anna segura páginas sem notas;
  • mapa das viagens europeias interrompido quando atinge os dezoito anos;
  • figura adulta projectando a sombra da criança chamada Nannerl;
  • sala de aula com alunas e um retrato de Wolfgang na parede;
  • partitura dissolvida pela água;
  • olhos fechados diante de um teclado nos últimos anos de vida;
  • o nome Maria Anna escrito por baixo de várias camadas da palavra Mozart.

Potencial ficcional

A canção de Roma

Maria Anna envia ao irmão uma composição. A narrativa acompanha a partitura desde Salzburgo até Roma e o seu desaparecimento posterior.

A própria música pode funcionar como narradora.

O caderno da irmã

O Nannerl-Notenbuch recorda as duas crianças que o tocaram. À medida que Wolfgang cresce, as páginas dedicadas a Maria Anna começam a desaparecer.

A primeira sinfonia

Durante a doença do pai em Londres, Maria Anna escreve aquilo que Wolfgang lhe dita. Em determinado momento, uma frase musical surge sem que nenhum dos dois saiba quem a imaginou primeiro.

As alunas

Uma jovem pianista de Salzburgo procura Maria Anna para receber aulas. Descobre que a professora conserva um repertório que nunca toca diante de ninguém.

A última aula

Já com a visão comprometida, Maria Anna ensina uma aluna apenas através da escuta. Corrige cada nota sem olhar para o teclado e começa a ouvir entre os exercícios fragmentos de uma composição perdida.

O nome infantil

Uma mulher idosa é perseguida pela criança chamada Nannerl, que permanece nos retratos e se recusa a envelhecer.

Mnemosyne

Depois da morte de Wolfgang, Maria Anna recebe a tarefa de escrever a infância do irmão. Cada recordação que coloca no papel apaga uma recordação da sua própria vida.


Interligações

Galeria das Sombras
Maria Anna introduz o apagamento por contiguidade fraterna, a perda do corpus e a mediação artística invisível.

Linhagem
A família Mozart permite investigar como talento, nome, herança, educação e género produzem destinos diferentes dentro da mesma casa.

Arquétipos
Mnemosyne, Euterpe, a irmã, a professora e a guardiã do arquivo formam a constelação simbólica da ficha.

O Outro Lado do Espelho
A presença da sua caligrafia em obras assinadas por outros aproxima Maria Anna das questões de autoria, cópia, voz e identidade autoral.

Torre
Salzburgo, os museus Mozart, os retratos, os manuscritos e os lugares familiares constituem uma arquitectura urbana de memória construída sobretudo em torno do irmão.

Jardim Digital
O caderno, o diário, as cartas e as notas pedagógicas podem ser tratados como formas históricas de conhecimento em desenvolvimento.

Contos góticos
A partitura desaparecida, o caderno vazio, a perda da visão e a criança preservada dentro do retrato oferecem uma estrutura narrativa de ausência e assombração.


Estado da investigação

Ficha em desenvolvimento.

É necessário aprofundar:

  • o conteúdo integral do Nannerl-Notenbuch;
  • os relatos contemporâneos das apresentações europeias;
  • o repertório interpretado por Maria Anna;
  • a correspondência de 1770 sobre a composição perdida;
  • todos os manuscritos identificados como escritos pela sua mão;
  • o trabalho de cópia e orquestração;
  • a actividade pedagógica em Salzburgo;
  • a relação com Joseph Wölfl e Margarethe Danzi-Marchand;
  • o diário e os registos de aulas;
  • a participação na publicação das obras de Wolfgang;
  • as notas fornecidas a Friedrich Schlichtegroll;
  • a relação com Constanze Mozart;
  • a vida musical durante o casamento em St. Gilgen;
  • a educação dos filhos e enteados;
  • a perda progressiva da visão;
  • a construção historiográfica da figura infantil de Nannerl;
  • as falsas atribuições de retratos;
  • as narrativas contemporâneas que a transformam numa compositora equivalente a Wolfgang sem documentação suficiente;
  • a possibilidade de criar uma instalação sonora em torno da composição desaparecida.

A Galeria não procura provar que Maria Anna teria sido outro Mozart.

Procura tornar perceptível a artista que o nome Mozart ocultou: a menina que antecedeu o irmão ao teclado, a pianista aclamada nas cortes europeias, a professora, a copista, a compositora sem partituras e a mulher cuja memória permitiu escrever a história de uma música que não incluiu a sua.

Base documental da ficha

A Fundação Mozarteum documenta o nascimento na noite de 30 para 31 de Julho de 1751, o início das aulas aos oito anos, a criação do Nannerl-Notenbuch, as viagens entre 1762 e 1768, a reputação como pianista, a actividade pedagógica e a existência de composições hoje perdidas. A instituição também adverte que Maria Anna continuou a apresentar-se publicamente na idade adulta, corrigindo a narrativa simplificada de um abandono total da música aos dezoito anos. (mozarteum.at)

Os relatos das viagens confirmam o reconhecimento público de Maria Anna e a qualidade da sua execução. A carta de Wolfgang enviada de Roma em 1770 elogia directamente uma composição da irmã; nenhuma partitura identificada com segurança sobreviveu. A recordação da primeira sinfonia de Wolfgang provém do testemunho posterior de Maria Anna, pelo que deve permanecer epistemologicamente separada da documentação contemporânea. (Smithsonian Magazine)

A investigação musicológica recente apresenta Maria Anna como pianista adulta, professora, copista, possível orquestradora e mediadora decisiva na publicação da obra do irmão. Demonstra também que era mencionada entre os músicos de Salzburgo, que frequentava conferências científicas e que o casamento em St. Gilgen deve ser analisado dentro das convenções sociais do período, evitando tanto a romantização como a narrativa automática de encarceramento. (musau.org)

As notas autobiográficas entregues a Friedrich Schlichtegroll estiveram na base da primeira biografia publicada de Wolfgang Mozart, em 1793. Maria Anna preservou ainda documentos familiares que mais tarde passaram para Constanze e para os primeiros responsáveis pela organização do legado mozartiano. (themorgan.org)

O Salzburg Museum identifica Joseph Wölfl como aluno de Leopold e Maria Anna e refere que o diário desta regista concertos realizados com o jovem pianista. A documentação reforça o carácter profissional da sua actividade pedagógica. (collection.salzburgmuseum.at)

A revisão académica dos retratos conclui que apenas três representações de Maria Anna possuem autenticidade suficientemente sustentada: o retrato infantil, o grande retrato familiar e a imagem da família associada a Carmontelle/Delafosse. Muitas imagens que circulam online com o seu nome representam outras mulheres. (musau.org)

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