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Mariana

by Inês Soares

A mulher que transportou as cartas de um amor que não podia ler

Nome: Mariana
Designação corrente: Mariana da Cruz
Grafia na primeira edição: Marianna
Estatuto: personagem ficcional
Obra de origem: Amor de Perdição — Memórias de uma Família, de Camilo Castelo Branco
Redacção: 1861
Primeira publicação: 1862
Tempo da narrativa: primeiros anos do século XIX
Idade documentada: vinte e seis anos na fase final da narrativa
Filiação: filha de João da Cruz, ferrador dos arredores de Viseu
Condição social: mulher rural, ligada ao trabalho doméstico, à costura e à administração da pequena propriedade familiar
Campo: Mulheres · Arquétipos · Arquivo · Território
Categoria principal de apagamento: apagamento da mediadora
Categorias secundárias: invisibilidade do cuidado · apagamento de classe · deserotização da cuidadora · instrumentalização sacrificial · ausência de arquivo autoral · redução ao amor não correspondido
Estado espectral: a mulher que sustentou o herói, transportou as cartas dos amantes e desapareceu no mesmo mar que preservou a correspondência deles


Biografia narrativa

Mariana é filha de João da Cruz, ferrador que vive nos arredores de Viseu.

A mãe morreu antes do início dos acontecimentos narrados. Mariana vive sozinha com o pai, ajuda a administrar a casa, acompanha-o nas feiras e romarias e consegue frequentemente impedir que o seu temperamento violento e o consumo de álcool terminem em novas desordens.

João da Cruz descreve a filha como a presença que o contém. Quando ela lhe pede alguma coisa em nome da mãe, ele obedece.

A relação entre ambos contrasta com os restantes vínculos familiares de Amor de Perdição. Simão e Teresa pertencem a famílias fidalgas dominadas pelo orgulho, pela autoridade e pelo conflito entre linhagens. Mariana pertence a uma casa mais humilde, marcada por violência e precariedade, mas onde existe uma forma reconhecível de afecto entre pai e filha.

João da Cruz trabalhou para lhe deixar terras, dinheiro e alguma segurança. Afirma que não lhe faltam pretendentes e que poderia casá-la numa boa casa de lavoura.

Mariana não quer casar.

A narrativa não explica se já conhecia Simão quando recusou esses pretendentes ou se a recusa manifesta uma independência anterior ao encontro. Conserva apenas a imagem de uma jovem mulher que não aceita o destino matrimonial disponível dentro da sua condição.


A entrada de Simão

Mariana conhece Simão Botelho quando ele chega ferido a casa de João da Cruz.

O jovem fora atingido durante uma emboscada ligada ao conflito com Baltasar Coutinho e à relação proibida com Teresa de Albuquerque. João da Cruz acolhe-o e trata-lhe o ferimento.

Ao ver o sangue de Simão, Mariana perde os sentidos.

O pai estranha a reacção, porque a filha está habituada a tratar os ferimentos que ele recebe em feiras e desordens. O sangue deste homem produz nela uma resposta diferente antes de a própria personagem reconhecer ou verbalizar o sentimento.

João da Cruz entrega-lhe o cuidado do doente:

  • preparar caldos;
  • lavar a ferida;
  • aplicar compressas;
  • impedir que escreva em excesso;
  • fazer-lhe companhia;
  • observar o estado físico e emocional.

A relação de Mariana com Simão começa através do cuidado corporal.

Teresa conhece-o à janela e comunica com ele por cartas. Mariana aproxima-se pela ferida, pela comida, pela vigília e pela presença quotidiana.


O amor percebido antes de ser declarado

Mariana compreende imediatamente que Simão ama uma jovem fidalga de Viseu.

Conhece a existência de Teresa, percebe a ligação entre os amantes e intui o perigo provocado pela relação. Pede ao Senhor dos Passos que Simão encontre remédio para aquela paixão e oferece cera em agradecimento caso ele regresse a Coimbra e ponha fim ao conflito.

A oração é ambígua.

Mariana deseja protegê-lo da violência que pressente. A interrupção do romance libertá-lo-ia também de Teresa.

Desde o início, o seu amor mistura:

  • compaixão;
  • desejo;
  • ciúme;
  • medo;
  • intuição;
  • vontade de servir;
  • esperança não declarada.

Mariana prevê repetidamente a tragédia. Sonha com acontecimentos, interpreta pressentimentos e reconhece nos gestos de Simão uma determinação que o conduzirá à prisão e à morte.

O narrador aproxima-a de uma figura oracular: uma mulher sem formação livresca que compreende o destino através do corpo, dos sonhos e da observação.


Uma mulher sem acesso à escrita

Mariana encontra a carteira de Simão enquanto ele dorme.

Vê os papéis guardados no interior, mas não consegue lê-los.

Esta informação é decisiva.

O grande amor de Amor de Perdição existe através da escrita. Teresa e Simão constroem a relação por meio de cartas, despedidas, promessas, projectos de vida e declarações destinadas a sobreviver à distância.

Mariana não participa nesse regime de linguagem.

Ela:

  • transporta cartas;
  • entrega cartas;
  • recebe respostas;
  • guarda segredos;
  • observa o rosto de Simão enquanto ele lê;
  • interpreta a contracção da fronte, o silêncio e as lágrimas;
  • protege a circulação da correspondência;
  • não consegue aceder autonomamente às palavras que transporta.

A mulher situada fisicamente entre os amantes permanece excluída da intimidade textual que ajuda a manter.

O seu amor não produz cartas.

Produz actos.


O dinheiro escondido

Enquanto Simão recupera do ferimento, Mariana percebe que ele não possui dinheiro.

Examina discretamente a carteira e a roupa do hóspede. Encontra apenas duas pequenas moedas.

Não o confronta nem o humilha.

Retira da própria arca uma bolsa de linho com dinheiro em prata e entrega-a ao pai, juntamente com a possibilidade de recorrer às suas jóias. Convence João da Cruz a fazer chegar esse auxílio a Simão como se viesse da mãe do jovem.

Mariana compreende a diferença de classe que existe entre ambos. Simão é filho de um corregedor, mas encontra-se sem recursos. Ela é filha de um ferrador, mas possui naquele momento os meios concretos para o proteger.

A ajuda precisa de ser ocultada porque a hierarquia social tornaria difícil ao fidalgo aceitar abertamente o dinheiro da jovem rural.

O gesto apresenta uma das características fundamentais da personagem: Mariana resolve materialmente aquilo que os protagonistas vivem como tragédia abstracta.

Perante a falta de dinheiro, não escreve sobre o destino.

Abre a arca.


A prisão

Depois de Simão matar Baltasar Coutinho e se entregar às autoridades, Mariana dirige-se à prisão.

Leva comida, compra mobília, cuida da ferida e organiza o espaço onde ele ficará encerrado. Quando Simão rejeita a ajuda da própria família, Mariana ocupa o lugar deixado vazio.

O jovem apresenta-a como a sua família.

A declaração reconhece a centralidade de Mariana, mas contém também uma transformação simbólica. A mulher que o ama é integrada numa categoria familiar e moralmente segura.

Mariana apresenta-se perante outros como criada de Simão. Simão chama-lhe irmã, amiga, providência e anjo de misericórdia.

Essas palavras exprimem gratidão e afecto genuínos. Também retiram ao amor dela a dimensão erótica que poderia ameaçar a fidelidade absoluta de Simão a Teresa.

A cuidadora é santificada para poder permanecer próxima.

Torna-se pura, familiar e abnegada.

O desejo desaparece por baixo da função.


A falsa ordem de D. Rita

Mariana deixa entender publicamente que cuida de Simão por ordem e a expensas de D. Rita Preciosa, mãe do prisioneiro.

A versão protege diferentes pessoas.

Preserva a aparência de que a família fidalga continua a sustentar o filho. Protege Mariana de suspeitas relacionadas com uma jovem solteira que vive perto da prisão e acompanha diariamente um homem. Permite ainda que Simão receba auxílio sem confrontar constantemente a desigualdade social existente entre ambos.

Na realidade, são Mariana e João da Cruz que suportam grande parte das despesas.

A jovem não reclama reconhecimento.

O cuidado torna-se eficaz precisamente porque a autoria do gesto é retirada.


O trabalho invisível

Durante a prisão de Simão, Mariana assegura tudo aquilo que permite a continuação física da vida:

  • alimento;
  • roupa;
  • limpeza;
  • mobiliário;
  • cuidados de saúde;
  • circulação de mensagens;
  • presença quotidiana;
  • apoio emocional;
  • contacto com o exterior;
  • preparação para o degredo.

O romance amoroso depende desta infraestrutura.

Teresa e Simão podem construir uma linguagem de eternidade porque Mariana trata das necessidades do corpo.

A narrativa reconhece a grandeza moral desses gestos, mas conserva-os dentro do vocabulário tradicional do sacrifício feminino. Mariana é admirada porque parece nada exigir, nada reclamar e não colocar o próprio desejo acima do amor dos protagonistas.

A perfeição moral que lhe é atribuída depende da supressão daquilo que a tornaria uma mulher em conflito.

O próprio narrador interrompe essa idealização ao admitir que Mariana sente ciúmes de Teresa.

Ela não é uma santa sem desejo.

É uma mulher que escolhe não impedir a comunicação da rival com o homem que ama.


Ciúme e lealdade

Mariana sofre ao observar Simão ler as cartas de Teresa.

Repara em cada alteração do rosto, em cada sinal de dor e em cada esperança renovada. Em silêncio, pergunta por que razão Teresa continua a amargurar-lhe a vida.

O ciúme existe, mas não se transforma em sabotagem.

Mariana poderia:

  • esconder cartas;
  • atrasar mensagens;
  • mentir;
  • revelar a correspondência;
  • explorar a dependência de Simão;
  • apresentar-se como alternativa.

Não o faz.

Transporta fielmente as palavras de Teresa e as respostas de Simão.

A sua lealdade não elimina o ciúme. Obriga-a a suportá-lo.

Este conflito torna Mariana uma personagem mais complexa do que a figura convencional da mulher abnegada. A generosidade não resulta da ausência de desejo; é uma decisão tomada contra o próprio desejo.


A condenação e a perda da razão

Simão é inicialmente condenado à morte.

Quando Mariana recebe a notícia, perde a razão.

A crise é descrita através da linguagem médica e religiosa disponível na época: sangrias, tratamentos físicos, água fria e exorcismos. Depois de recuperar, desloca-se para o Porto, onde Simão fora transferido para a Cadeia da Relação.

O sofrimento de Mariana recebe o nome de loucura quando ultrapassa os limites da função que lhe foi atribuída.

Enquanto cozinha, cuida, transporta e paga, a sua dedicação é compreensível.

Quando o corpo e a mente deixam de suportar a iminência da morte de Simão, torna-se paciente.

A passagem aproxima Mariana de outras figuras da Galeria cuja dor é medicalizada depois de ter sido socialmente exigida.


A morte de João da Cruz

Enquanto Mariana permanece junto de Simão, João da Cruz é assassinado por vingança.

O homicídio decorre de uma morte cometida pelo ferrador anos antes. A violência masculina regressa sob a forma de uma dívida de sangue.

As últimas palavras de João da Cruz dirigem-se à filha.

Mariana recebe a notícia na prisão. Como não consegue ler a carta, pede a Simão que a leia em voz alta. A linguagem que lhe anuncia a morte do pai chega através do homem a quem sacrificou a permanência junto desse mesmo pai.

A perda deixa-a sem família próxima.

Simão pede-lhe que não volte a enlouquecer porque precisa dela como amparo. A frase revela a dependência existente entre ambos, mas também a assimetria da relação: até o luto de Mariana precisa de ser vencido para que continue a cuidar dele.

A sua dor deve adaptar-se às necessidades do prisioneiro.


A herança

Mariana regressa a Viseu para tratar da herança paterna.

João da Cruz deixa-lhe terras, casa, dinheiro e alguma estabilidade. A filha poderia permanecer na região e construir uma vida independente.

Ela toma outra decisão.

Vende as propriedades, deixa a casa à tia e regressa ao Porto. Deposita o dinheiro nas mãos de Simão e prepara-se para o acompanhar no degredo.

A mulher aparentemente passiva realiza uma sequência de actos juridicamente e materialmente significativos:

  • recebe uma herança;
  • liquida os bens;
  • decide não regressar;
  • administra o capital;
  • muda de residência;
  • planeia emigrar;
  • imagina uma actividade económica no estrangeiro.

Mariana possui uma competência prática que nenhum dos amantes demonstra.

É capaz de transformar património em mobilidade e de planear a sobrevivência num território desconhecido.


A loja de Solor

Quando Simão procura explicar-lhe as condições terríveis do degredo, Mariana responde com um projecto.

Informara-se junto da mulher de um antigo condenado que vivera em Solor. Sabe que é possível abrir uma loja e construir uma existência no ultramar.

Planeia fazer o mesmo.

A proposta revela uma personagem muito diferente da mártir passiva:

  • recolhe informação;
  • procura testemunhos;
  • avalia riscos;
  • pensa no clima;
  • imagina uma fonte de rendimento;
  • considera a sua capacidade de trabalho;
  • prepara uma casa possível.

Enquanto Simão vê a Índia como morte, exílio e desonra, Mariana procura convertê-la em vida quotidiana.

A loja nunca existirá.

É o projecto mais concreto de futuro presente em toda a narrativa e pertence à única personagem cujo amor não é correspondido.


A conversa sobre o amor

Simão confronta Mariana sobre os sacrifícios que ela realiza.

Reconhece que só poderia recompensá-la tornando-a sua mulher, possibilidade incompatível com o compromisso absoluto que mantém com Teresa.

Mariana não lhe pediu casamento nem declaração.

A posição dela é mais difícil de definir: não exige reciprocidade, mas também não consegue imaginar uma vida desligada de Simão.

Quando ele lhe pede que permaneça em Portugal, case e construa família, Mariana responde que, quando deixar de ser necessária, terminará a própria vida.

Simão aceita finalmente que o acompanhe, chamando-lhe irmã.

Durante um breve período, Mariana sente esperança. Imagina que, longe de Teresa e das cartas, poderá tornar-se a presença exclusiva junto do homem que ama.

O narrador recusa apresentar esta esperança como pura abnegação. Reconhece-lhe ciúme, desejo e fantasia de recompensa.

Mariana não é apenas mártir.

Ainda espera ser escolhida.


A irmã

A palavra irmã atravessa a relação entre Simão e Mariana.

Permite-lhe oferecer proximidade, protecção e ternura sem trair simbolicamente Teresa. Transforma o amor de Mariana numa relação familiar e retira-lhe o direito de ser reconhecida como mulher desejante.

A categoria possui efeitos contraditórios.

Como irmã, Mariana recebe:

  • confiança;
  • intimidade;
  • gratidão;
  • contacto físico;
  • lugar junto do prisioneiro;
  • direito de o acompanhar;
  • reconhecimento como família.

Como irmã, perde:

  • possibilidade erótica;
  • reciprocidade amorosa;
  • legitimidade para manifestar ciúme;
  • direito de reclamar um futuro conjugal;
  • reconhecimento do verdadeiro motivo da sua dedicação.

A fraternização é uma forma de inclusão e de apagamento.

Simão aceita tudo o que Mariana lhe dá, desde que o gesto possa ser entendido como compaixão familiar.


Teresa e Mariana

As duas mulheres ocupam posições sociais e narrativas diferentes.

Teresa

  • pertence à nobreza;
  • sabe ler e escrever;
  • comunica através de cartas;
  • é reconhecida como amada;
  • participa na construção verbal do romance;
  • permanece fisicamente distante;
  • morre no convento;
  • deixa uma última carta;
  • é recordada como esposa espiritual de Simão.

Mariana

  • é filha de um ferrador;
  • não consegue ler os papéis de Simão;
  • transporta a correspondência;
  • cuida do corpo;
  • financia o prisioneiro;
  • permanece fisicamente presente;
  • acompanha-o no degredo;
  • morre no mar;
  • não deixa uma palavra escrita em nome próprio.

Teresa possui o arquivo do amor.

Mariana garante a sobrevivência desse arquivo.

A oposição não deve transformar as duas mulheres em rivais morais. Ambas são limitadas pelas estruturas de família, classe e género. Teresa é aprisionada pelo pai e pelo convento; Mariana é absorvida pelo cuidado e pelo serviço.

A tragédia atribui a cada uma uma forma diferente de desaparecimento.


A partida

A 17 de Março de 1807, Simão embarca no Porto com destino à Índia.

Mariana acompanha-o e vigia a bagagem.

Antes da partida, a nau passa diante do Mosteiro de Monchique. Teresa encontra-se no mirante e consegue despedir-se. Morre pouco depois de o navio se afastar.

Mariana permanece junto de Simão durante toda a cena.

É ela quem confirma que o vulto observado é Teresa. Assiste ao último encontro visual dos amantes e à notícia da morte da mulher cuja correspondência transportara durante anos.

Não interrompe o luto nem procura ocupar imediatamente o espaço deixado vazio.

Chora no escuro.


A doença de Simão

Depois da morte de Teresa, Simão adoece com febre.

Mariana volta a assumir a função inicial:

  • vigia;
  • dá água;
  • procura ajuda;
  • permanece junto do leito;
  • ampara o corpo;
  • acompanha o delírio;
  • prepara-se para a morte.

O romance termina no mesmo regime em que a relação começou: Simão ferido e Mariana a cuidar dele.

A passagem do tempo não altera a estrutura fundamental.

Simão continua a chamar Teresa no delírio. Quando pronuncia o nome de Mariana, enquadra-a na comunidade celeste dos amantes como irmã e anjo.

A integração só ocorre depois de a diferença erótica ter sido definitivamente neutralizada pela morte.


O primeiro beijo

Mariana acompanha os últimos instantes de Simão.

Quando ele morre, inclina-se sobre o corpo e beija-lhe o rosto.

O narrador assinala que é o primeiro beijo.

A informação condensa toda a relação.

Mariana tocou-lhe na ferida, amparou-o, alimentou-o, abraçou-o, vestiu-o e permaneceu junto dele durante anos. O gesto amoroso explicitamente reconhecível apenas se torna possível quando Simão já não pode recebê-lo nem recusá-lo.

O corpo morto concede-lhe uma intimidade que a fidelidade do vivo não permitia.

A realização do desejo coincide com a impossibilidade absoluta da reciprocidade.


O salto

Quando os marinheiros se preparam para lançar o corpo de Simão ao mar, Mariana reúne as cartas e os papéis que ele lhe pedira que destruísse.

Enrola-os no avental e prende-os à cintura.

Segue o cadáver até ao convés.

No instante em que o corpo é lançado, atira-se ao mar. Os marinheiros ainda tentam salvá-la, mas Mariana não nada em direcção ao bote. Procura alcançar Simão e abraçar-se ao cadáver.

O corpo dela desaparece.

O avental fica preso no cordame.

O rolo de cartas solta-se e é recolhido pelos marinheiros.

A correspondência entre Teresa e Simão sobrevive porque Mariana a transportava quando morreu.

A mulher sem cartas preserva involuntariamente o arquivo dos amantes.


Forma de apagamento

Mariana sofre uma forma de apagamento distinta da de Teresa.

Não é excluída do enredo. Está presente em quase todas as fases decisivas. O apagamento ocorre através da função que lhe é atribuída.

Apagamento da mediadora

Mariana liga:

  • Simão a Teresa;
  • Simão à família;
  • a prisão ao mundo exterior;
  • Viseu ao Porto;
  • a casa rural à Cadeia da Relação;
  • Portugal ao navio do degredo;
  • o corpo morto ao arquivo sobrevivente.

A mediadora torna possível a relação dos outros e desaparece entre os seus dois extremos.

Invisibilidade do cuidado

A comida, a roupa, a limpeza, o dinheiro e a enfermagem são apresentados como actos de amor, mas raramente reconhecidos como trabalho.

O romance depende deles sem lhes conceder o mesmo estatuto da correspondência amorosa.

Apagamento de classe

Teresa e Simão possuem linguagem, linhagem e acesso à escrita.

Mariana possui trabalho, mobilidade e conhecimento prático.

A tradição tende a apresentar o primeiro amor como sublime e o segundo como serviço abnegado.

Deserotização

A transformação em irmã, anjo, criada e providência impede que Mariana seja reconhecida plenamente como mulher que deseja.

Instrumentalização sacrificial

A morte confirma a pureza do sentimento e completa a tragédia dos protagonistas.

Mariana torna-se prova da grandeza de Simão: até uma mulher sem esperança se sacrifica por ele.

Ausência de arquivo autoral

Não existe carta, diário, oração ou confissão escrita por Mariana.

Tudo o que sabemos passa pelo narrador, por Simão ou pela interpretação dos seus actos.

A personagem transporta documentos, mas não deixa documento próprio.


Tese da ficha

A personagem que garante materialmente a sobrevivência de uma história pode ser apagada do arquivo simbólico dessa mesma história.

Mariana é a infraestrutura de Amor de Perdição.

Sem ela:

  • Simão poderia morrer do ferimento;
  • não teria dinheiro;
  • não teria comida;
  • não teria condições na prisão;
  • as cartas não circulariam com a mesma segurança;
  • o degredo não seria preparado;
  • não teria companhia no navio;
  • o arquivo final poderia desaparecer no mar.

A narrativa apresenta Teresa e Simão como autores do amor. Mariana transforma esse amor numa realidade materialmente possível.

A sua exclusão da escrita é central.

Teresa escreve aquilo que sente.

Simão escreve aquilo que sente.

Mariana trabalha, paga, transporta, observa e morre.

A Galeria propõe a categoria de apagamento da mediadora: a figura cuja acção preserva as vozes dos outros, enquanto a sua própria voz permanece sem registo.


A mulher que lê sem letras

Mariana não consegue ler os papéis de Simão, mas possui outra forma de leitura.

Lê:

  • alterações do rosto;
  • silêncios;
  • pressentimentos;
  • sonhos;
  • necessidades materiais;
  • perigos;
  • mudanças de voz;
  • proximidade da morte;
  • intenções que os homens tentam esconder.

A personagem é representada como inculta, mas demonstra uma inteligência interpretativa, logística e emocional extraordinária.

A oposição entre mulher letrada e mulher inculta precisa, por isso, de ser revista.

Mariana não domina a escrita alfabética. Domina a leitura dos corpos, das circunstâncias e das consequências.

A sua tragédia nasce também de saber antecipadamente aquilo que não consegue impedir.


A santificação do cuidado

A narrativa descreve Mariana através de imagens religiosas:

  • anjo;
  • providência;
  • misericórdia;
  • pureza;
  • sacrifício;
  • compaixão.

Este vocabulário eleva-a moralmente e neutraliza o conflito.

Uma mulher que cuida sem exigir pode ser transformada em santa. Uma mulher que deseja reciprocidade perturbaria a estrutura ideal do amor entre Teresa e Simão.

A santificação permite admirar Mariana sem lhe conceder um futuro próprio.

A Galeria preserva a generosidade da personagem e devolve-lhe aquilo que a idealização tende a retirar:

  • desejo;
  • ciúme;
  • cálculo;
  • esperança;
  • competência;
  • raiva possível;
  • vontade de viver uma vida concreta.

A morte como única autoria

Mariana toma muitas decisões ao longo da narrativa, mas todas permanecem orientadas para a sobrevivência de Simão.

O salto final é o primeiro acto que já não pode ser convertido em cuidado útil.

É também o acto que fixa definitivamente a sua identidade.

A tradição passa a recordá-la como a mulher que morreu por um amor não correspondido.

Essa imagem é verdadeira, mas insuficiente.

Antes de morrer, Mariana:

  • recusou pretendentes;
  • geriu uma casa;
  • protegeu o pai;
  • cuidou de um ferido;
  • financiou um fidalgo;
  • enganou discretamente as hierarquias sociais;
  • administrou uma herança;
  • vendeu propriedades;
  • mudou de cidade;
  • planeou emigrar;
  • investigou as condições do degredo;
  • imaginou abrir um negócio.

O suicídio não deve apagar a mulher capaz de conceber uma vida.


Marcação epistemológica

Documentado na fonte ficcional

  • Mariana é filha de João da Cruz.
  • A mãe morreu antes dos acontecimentos principais.
  • Vive nos arredores de Viseu.
  • Pertence a uma família de condição rural.
  • João da Cruz é ferrador.
  • Possui pretendentes, mas recusa casar.
  • Cuida do pai e consegue conter parte do seu comportamento violento.
  • Conhece Simão quando ele chega ferido à casa familiar.
  • Perde os sentidos ao ver o sangue dele.
  • Torna-se sua enfermeira.
  • Conhece a existência de Teresa.
  • Percebe o perigo da relação entre os amantes.
  • Não consegue ler os papéis guardados na carteira de Simão.
  • Entrega ao pai dinheiro próprio para auxiliar o jovem.
  • Leva comida e objectos para a prisão.
  • Vive perto da cadeia para cuidar de Simão.
  • Serve de intermediária na circulação de cartas.
  • É descrita como uma jovem formosa, de grandes olhos azuis.
  • Perde temporariamente a razão depois da condenação à morte de Simão.
  • Recupera e acompanha-o no cárcere do Porto.
  • O pai é assassinado.
  • Mariana recebe terras, casa e dinheiro em herança.
  • Vende os bens e entrega o capital a Simão.
  • Decide acompanhá-lo no degredo.
  • Tem vinte e seis anos na fase final da narrativa.
  • Planeia abrir uma loja no ultramar.
  • Reconhece que ama Simão.
  • Sabe que ele permanece ligado a Teresa.
  • Sente ciúmes, mas continua a transportar as cartas.
  • Embarca com Simão para a Índia.
  • Cuida dele durante a doença.
  • Beija-lhe o rosto depois da morte.
  • Atira-se ao mar quando o cadáver é lançado.
  • O avental fica preso no cordame.
  • As cartas de Teresa e Simão são recuperadas pelos marinheiros.

Interpretado

  • Mariana representa o apagamento da mediadora.
  • O seu trabalho material sustenta o amor idealizado dos protagonistas.
  • A designação de irmã neutraliza o carácter erótico do seu sentimento.
  • A diferença entre carta e cuidado corresponde também a uma diferença de classe.
  • A ausência de escrita própria torna o seu amor menos arquivável.
  • A santificação da personagem limita a sua complexidade.
  • A loja de Solor representa uma possibilidade concreta de futuro interrompida pela lógica trágica.
  • O avental constitui o verdadeiro dispositivo de preservação do arquivo final.
  • O suicídio transforma a mulher prática numa imagem romântica definitiva.
  • Mariana é uma das personagens com maior agência material na narrativa.

Provável dentro da lógica narrativa

  • Mariana já sentia alguma resistência ao casamento antes de conhecer Simão.
  • O apoio financeiro é ocultado para proteger o orgulho de Simão e a reputação social da jovem.
  • A mudança para as proximidades da prisão exige organização autónoma de casa, dinheiro e trabalho.
  • O plano da loja teria permitido a Mariana sustentar os dois no degredo.
  • A esperança de ser amada aumenta depois da morte de Teresa e da decisão de acompanhar Simão.
  • A perda do pai intensifica a dependência emocional relativamente ao prisioneiro.

Em debate

  • A extensão exacta da alfabetização de Mariana.
  • A leitura da sua morte como sacrifício, desespero, libertação ou cumprimento do código romântico.
  • O grau de autonomia que possui dentro da construção narrativa.
  • A relação entre idealização religiosa e desejo sexual.
  • A possibilidade de a personagem romper verdadeiramente com as convenções femininas do período.
  • A comparação crítica entre Mariana e Teresa.
  • O significado da perda temporária da razão.
  • A forma como diferentes edições e adaptações alteram a sua caracterização.

Não demonstrado

  • Que Mariana tenha sido inspirada numa mulher histórica identificável.
  • Que o apelido «da Cruz» seja usado como nome completo no texto original.
  • Que tenha escondido ou alterado alguma carta.
  • Que Simão tenha correspondido romanticamente ao seu amor.
  • Que o suicídio seja apenas um gesto de imitação da morte de Teresa.
  • Que Mariana seja inteiramente desinteressada.
  • Que seja apenas uma criada sem propriedade ou recursos próprios.
  • Que a sua incapacidade de ler corresponda a ausência total de outras formas de conhecimento.

Imaginado / ficcionalizado no projecto

  • A infância de Mariana.
  • A relação com a mãe.
  • Os motivos anteriores para recusar casamento.
  • As conversas com as mulheres da aldeia.
  • Os pensamentos enquanto transporta as cartas.
  • A vida na casa diante da Cadeia da Relação.
  • Um diário construído através de símbolos e objectos.
  • A abertura da loja em Solor.
  • Uma sobrevivência alternativa depois da morte de Simão.
  • Uma carta escrita ou ditada por Mariana.
  • A consciência da personagem perante a sobrevivência das cartas.

Arquétipo

A mensageira sem mensagem própria

Mariana encarna a figura que transporta as palavras dos outros e permanece fora da escrita.

A mensageira:

  • atravessa distâncias;
  • guarda segredos;
  • mantém relações;
  • conhece ambos os lados;
  • observa aquilo que cada parte não consegue ver;
  • garante a continuidade do vínculo;
  • não pertence plenamente a nenhum dos extremos;
  • desaparece quando a mensagem chega ao destino.

Este arquétipo manifesta-se em criadas, enfermeiras, secretárias, tradutoras, copistas, mensageiras e cuidadoras cujo trabalho torna possível a obra, o amor ou a memória de outras pessoas.


Deusa correspondente

Íris — a mensageira entre mundos

A correspondência é interpretativa.

Íris atravessa céu, terra, mar e mundo subterrâneo, transportando mensagens entre figuras que não conseguem alcançar-se directamente.

Mariana desempenha uma função semelhante:

  • liga Teresa e Simão;
  • atravessa cidade e campo;
  • entra e sai da prisão;
  • leva palavras entre o convento e o cárcere;
  • acompanha o condenado entre Portugal e o exílio;
  • atravessa, no fim, a fronteira entre vida e morte.

A correspondência contém uma diferença fundamental.

Íris é reconhecida como mensageira divina.

Mariana é confundida com criada, irmã ou simples instrumento do amor alheio.

Ressonância secundária: Héstia.

Héstia representa a capacidade de criar um centro habitável. Mariana leva comida, organiza quartos, administra dinheiro e imagina uma loja no degredo. Constrói casa dentro do cárcere e prepara-se para construir pátria no exílio.


Artefactos reais e narrativos

O avental de linho

Mariana esconde nele o rosto, enxuga lágrimas, trabalha e transporta objectos.

Simão guarda um dos seus aventais entre cartas, flores e papéis da prisão.

No final, Mariana utiliza outro avental para prender à cintura os documentos de Simão. O tecido fica enleado no cordame depois do salto.

É o artefacto central da ficha.

A bolsa de linho

Contém o dinheiro em prata que Mariana entrega ao pai para auxiliar Simão.

Representa a conversão do trabalho e da economia doméstica em sobrevivência.

Os cordões, anéis e arrecadas

Jóias guardadas na arca e colocadas à disposição do auxílio ao hóspede.

São simultaneamente património feminino e possibilidade de casamento recusada.

Os biscoitos e o licor de canela

Primeiro alimento levado por Mariana à prisão.

Objectos humildes que contrastam com a retórica sublime do romance.

A mobília da prisão

Mesa, cadeira, cama, roupa e objectos comprados para transformar a cela num espaço habitável.

O avental guardado no caixote

Simão conserva-o junto das cartas de Teresa e dos ramos secos.

O objecto de Mariana entra no arquivo íntimo do prisioneiro, mas permanece separado da correspondência amorosa.

A casa na Rua de São Bento

Pequena habitação situada diante da Cadeia da Relação, a partir da qual Mariana mantém presença quotidiana.

A herança de João da Cruz

Terras, casa, dinheiro e objectos que poderiam sustentar uma vida autónoma.

Mariana transforma esse património em preparação para o degredo.

O rolo de cartas

Correspondência de Teresa e Simão recolhida depois da morte de Mariana.

O arquivo sobrevive no lugar do corpo.

O mar

Espaço onde desaparecem Simão e Mariana e de onde regressam apenas os papéis.


Artefacto imaginário

O livro da loja de Solor

Um pequeno livro de contas encadernado em pano azul.

Como Mariana não domina a escrita, as páginas são organizadas através de sinais:

  • um grão de arroz para alimento;
  • uma linha ondulada para água;
  • um quadrado para tecido;
  • uma cruz para medicamento;
  • um círculo para cada dia em que Simão permanece vivo.

Na primeira página, escrito por outra mão, encontra-se o nome:

Casa de Mariana

As restantes folhas estão vazias.

O livro pertence à loja que ela planeou abrir e à vida concreta que a tragédia não permitiu começar.

Marcação: imaginado.


Possível tratamento visual

  • mulher rural com um avental branco e cartas presas à cintura;
  • mãos femininas transportando envelopes que não conseguem abrir;
  • bolsa de linho, moedas e jóias sobre uma mesa;
  • cela transformada lentamente em casa;
  • dois amantes escrevendo e uma terceira figura atravessando a distância;
  • olhos azuis reflectindo palavras ilegíveis;
  • avental preso no cordame de um navio;
  • rolo de cartas à superfície da água e corpo desaparecido;
  • loja vazia com a palavra Solor na porta;
  • planta da Cadeia da Relação ligada por uma linha ao Mosteiro de Monchique;
  • retrato dividido entre mensageira, enfermeira, proprietária e mulher apaixonada;
  • cartas de Teresa e Simão rodeadas por objectos de trabalho de Mariana;
  • três formas de amor: janela, carta e cuidado.

Potencial ficcional

A terceira correspondência

Entre as cartas recuperadas do mar aparece uma folha escrita por mão desconhecida. É a única mensagem de Mariana, ditada a alguém antes do embarque.

O avental

A narrativa é contada pelo avental que atravessa a casa rural, a prisão, o navio e o mar. Conhece todas as lágrimas, mas não sabe ler uma única carta.

A leitora dos rostos

Mariana não consegue ler palavras, mas consegue conhecer o conteúdo das cartas através das reacções de Simão. Começa a construir mentalmente uma versão diferente da história.

A loja de Solor

Mariana sobrevive ao salto e acorda numa praia desconhecida. Abre a loja que imaginara e passa a receber cartas de mulheres que desapareceram dos romances.

A casa diante da prisão

Durante a noite, os objectos comprados por Mariana atravessam sozinhos a rua e entram na cela de Simão.

A irmã

Sempre que Simão lhe chama irmã, uma parte do corpo de Mariana se torna invisível. No final, resta apenas o avental.

As cartas no fundo do mar

Teresa, Simão e Mariana encontram-se depois da morte. Os dois amantes continuam a falar através de cartas, mas apenas Mariana consegue atravessar a água que os separa.

João da Cruz

O conto acompanha a relação entre pai e filha antes da chegada de Simão, recuperando a vida que o romance apresenta apenas como preparação para o herói.


Interligações

Galeria das Sombras
Mariana introduz o apagamento da mediadora, a invisibilidade do cuidado e a ausência de arquivo autoral.

Arquétipos
Íris, Héstia, a mensageira, a enfermeira, a irmã simbólica e a mulher do mar formam a constelação da ficha.

Linhagem
A relação com João da Cruz, a morte da mãe, a herança e a diferença entre a família rural e as linhagens fidalgas permitem observar como classe e parentesco determinam a visibilidade das mulheres.

O Outro Lado do Espelho
A ausência de uma escrita própria e a identidade imposta pelas palavras dos outros aproximam Mariana das figuras cuja voz precisa de ser reconstruída por meios ficcionais.

Torre
Viseu, a Cadeia da Relação, a Rua de São Bento, o Mosteiro de Monchique, o Douro e o navio formam uma cartografia física da mediação.

Território
A personagem liga o mundo rural dos arredores de Viseu aos espaços judiciais e marítimos do Porto.

Jardim Digital
O arquivo da ficha pode organizar-se através de objectos, lugares, cartas, rotas e gestos, compensando a ausência de textos escritos pela personagem.

Galeria das Sombras — contos góticos
A cela, o avental, as cartas ilegíveis, a loucura, o navio e os corpos no mar constituem um núcleo gótico já presente no romance.


Estado da investigação

Ficha em desenvolvimento.

É necessário aprofundar:

  • as variantes da personagem entre as edições revistas por Camilo;
  • a grafia Mariana/Marianna e a origem da designação Mariana da Cruz;
  • todas as passagens em que funciona como intermediária;
  • a extensão da sua incapacidade de leitura;
  • o trabalho feminino rural nos primeiros anos do século XIX;
  • os níveis de alfabetização das mulheres da sua condição;
  • o valor económico da herança de João da Cruz;
  • o estatuto jurídico de uma mulher solteira proprietária;
  • a função da costura e do avental na caracterização;
  • a relação entre cuidado, serviço e desejo;
  • o uso da palavra irmã por Simão;
  • a representação dos ciúmes;
  • a crise descrita como loucura;
  • a comparação entre o corpo frágil de Teresa e o corpo trabalhador de Mariana;
  • o plano da loja de Solor;
  • as representações do degredo colonial;
  • a estética romântica do suicídio feminino;
  • o papel do avental na preservação da correspondência;
  • a recepção crítica que considera Mariana a personagem mais verdadeira da novela;
  • as adaptações cinematográficas, teatrais e televisivas;
  • as diferentes fisionomias atribuídas à personagem;
  • a possibilidade de reconstruir a narrativa a partir dos seus trajectos e objectos.

A Galeria não procura transformar Mariana na verdadeira amada de Simão nem substituir Teresa no centro da narrativa.

Procura observar aquilo que a estrutura amorosa torna menos visível: uma mulher sem acesso à escrita, com capacidade de trabalho, património, inteligência prática, desejo e projecto de futuro.

Mariana não deixou cartas.

Deixou vivas as cartas dos outros.

Base documental da ficha

A primeira edição de Amor de Perdição foi publicada em 1862; o texto integral confirma a grafia Marianna, a filiação em João da Cruz, o cuidado inicial do ferimento de Simão, os pretendentes recusados e a caracterização física através dos grandes olhos azuis. (Project Gutenberg)

A cena da carteira estabelece que Mariana não consegue ler os papéis de Simão. É ela quem detecta a falta de dinheiro, retira prata e jóias da própria arca e convence o pai a financiar discretamente o hóspede. (Project Gutenberg)

Na prisão, leva alimento, compra o necessário e assume perante Simão a posição de irmã e amparo. A narrativa descreve-a como uma jovem camponesa formosa e mostra que a assistência atribuída publicamente à mãe do prisioneiro era, na realidade, assegurada por Mariana e João da Cruz. (Project Gutenberg)

A morte do pai, a herança, a venda das propriedades, os vinte e seis anos de Mariana, o plano de acompanhar Simão e abrir uma loja no degredo, bem como a coexistência de generosidade, ciúme e esperança, constam directamente do texto. (Project Gutenberg)

O desfecho confirma que Mariana acompanha Simão no navio, cuida dele durante a febre, o beija depois da morte e se lança ao mar quando o cadáver é arremessado. O avental fica preso no cordame e permite que as cartas de Teresa e Simão sejam recuperadas. (Project Gutenberg)

A leitura de Mariana como personagem especialmente complexa e menos presa ao convencionalismo romântico aparece também em sínteses críticas e pedagógicas portuguesas, que destacam o amor sem esperança, o papel de intermediária e a dimensão prática da personagem. (infopedia.pt)

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