Absurdo literário e lógica do impossível

1. Designação

Absurdo literário e lógica do impossível.

2. Classificação

Conceito estético, filosófico e poético.
Relação com artistic research: alta, sobretudo em escrita experimental, narrativa fragmentária, performance textual e imaginação crítica.

3. Definição curta

O absurdo literário é uma forma de escrita que expõe a fratura entre o desejo humano de sentido e um mundo que não o oferece de modo estável; a lógica do impossível é a organização interna de situações, imagens ou narrativas que violam a lógica ordinária, mas mantêm coerência poética própria.

4. Definição longa

O absurdo literário não significa simplesmente “sem sentido”. Ele descreve obras em que a linguagem, a situação narrativa ou a condição existencial revelam uma incompatibilidade entre a procura de sentido e a resistência do mundo a esse sentido. Já a lógica do impossível refere-se ao modo como certas obras constroem coerência através de acontecimentos que, do ponto de vista do real comum, seriam impossíveis, paradoxais ou irredutíveis a causalidade linear. Em vez de erro lógico, há uma lógica deslocada: uma estrutura interna que faz o impossível funcionar como regra de mundo.edtl.fcsh.unl+1

5. Enquadramento e autores

O autor mais associado ao absurdo é Albert Camus, especialmente em O Mito de Sísifo e O Estrangeiro, onde o absurdo surge do choque entre a necessidade humana de claridade e o silêncio do mundo. Em literatura, esta tradição cruza-se com Franz Kafka, Fernando Pessoa em certos fragmentos do Livro do Desassossego, e com dramaturgos do chamado teatro do absurdo. A lógica do impossível também aparece em tradições afins como o nonsense, o surrealismo e certas formas de realismo mágico, embora não sejam a mesma coisa.comunidadeculturaearte+2

6. Em que consiste

Consiste em:

  • produzir situações em que a lógica comum falha;
  • tornar visível a alienação entre sujeito e mundo;
  • criar coerência por repetição, imagem ou atmosfera, não por causalidade;
  • explorar paradoxos existenciais ou narrativos;
  • mostrar que o impossível pode ser uma forma de verdade poética.

7. Características centrais

  • Fratura entre sentido e mundo.
  • Narrativa ou cena paradoxal.
  • Linguagem contida, seca ou circular.
  • Sensação de estranhamento ou suspensão.
  • Coerência interna baseada em clima, gesto ou repetição.
  • Presença de destino, impasse ou circularidade.ojs.pjp.spp+1

8. Exemplos de autores e obras

  • Albert Camus, O Mito de Sísifo e O Estrangeiro.youtubecomunidadeculturaearte
  • Franz Kafka, como referência para o absurdo burocrático e ontológico.
  • Samuel Beckett, no teatro e na prosa do impasse.
  • Fernando Pessoa, em leituras do desassossego e da desarticulação do eu.revista.ueg
  • No campo visual e performativo, obras que encenam repetição, espera ou impossibilidade.

9. Diferença entre absurdo e nonsense

  • Absurdo literário: centra-se mais na condição existencial, no impasse do sentido e na fratura entre ser humano e mundo.
  • Nonsense: centra-se mais no jogo da linguagem, no desvio semântico e na lógica lúdica do impossível.

Há muita proximidade, mas não são equivalentes.

10. Aplicações concretas

  • Romance e conto: personagens em situações sem saída ou sem explicação.
  • Teatro: diálogos circulares, espera, silêncio, repetição.
  • Poesia: imagens paradoxais e suspensão semântica.
  • Performance: ação impossível ou sem resolução.
  • Artistic research: investigação sobre limite, falha, impasse, experiência do sem-sentido e construção de coerência por meios não lineares.

11. Relação com artistic research

Este conceito é muito útil em artistic research porque permite estudar como uma obra pode produzir conhecimento a partir da falha, da contradição e da impossibilidade. Em vez de ver o impossível como defeito, o projecto pode tratá-lo como motor de pensamento e forma de revelar a condição humana, política ou textual. Também ajuda quando a pesquisa quer trabalhar com impasse metodológico, fragmentação ou tensão entre teoria e experiência.

12. Lógica do impossível

A “lógica do impossível” pode ser entendida como um sistema em que:

  • o impossível não destrói a forma;
  • o impossível é precisamente o que organiza a forma;
  • a obra cria regras para sustentar o que, fora dela, seria inviável.

Exemplo simples: uma narrativa em que o personagem está preso a um tempo circular pode ser impossível no mundo ordinário, mas perfeitamente coerente no universo da obra.

13. Forças do conceito

  • Excelente para pensar crise, limite e condição humana.
  • Muito fértil para literatura, teatro e ensaio.
  • Ajuda a distinguir entre falha e poética da falha.
  • Sustenta leituras críticas do mundo burocrático, social e existencial.
  • Dá vocabulário para formas de coerência não clássicas.

14. Limites e cuidados

  • Não deve ser confundido com simples “coisas estranhas”.
  • O absurdo não é qualquer incoerência.
  • A lógica do impossível precisa de estrutura interna para não virar arbitrariedade.
  • Em contexto académico, convém distinguir cuidadosamente absurdo, nonsense, surrealismo e absurdo existencial.

15. Formulação editorial para o diretório

Absurdo literário é uma forma de escrita e de pensamento em que a fratura entre o desejo de sentido e a resistência do mundo produz uma poética do impasse, da repetição e do paradoxo. Lógica do impossível é a coerência interna de obras que organizam o impossível como regra de mundo. Em artistic research, ambos são úteis para investigar falha, limite, estranhamento e formas não lineares de sentido.

16. Classificação final

Tipo: conceito estético / filosófico / poético.
Relação com artistic research: alta.

Se quiseres, posso continuar com uma ficha comparativa entre nonsense, absurdo e surrealismo, porque os três conceitos ficam muito mais claros quando colocados lado a lado.

Related posts

31. Autoethnography

16. Critical Making

1. Postqualitative Research