Como a Literatura Góthica Transformou o Século XIX

Newstead Abbey, Nottinghamshire,
… em noite de lua nova, 1814
Meu caro leitor, que vos detendes ante estas línhas como quem escuta o susurro de um segredo olvidado, permiti-me conduzir-vos pelos corredores sombrios da litteratura góthica, essa miragem de trevas e esplendor que marcou indelevelmente o século XIX. O que seria das nossas noites sem os espectros que assombram os versos de Byron? Sem as mãos trémulas que folheiam, à luz de um candelabro, as páginas que nos legaram Poe e Shelley? Ah, que triste seria um mundo sem o exílio dourado dos corações desventurados, sem as torres em ruína e os crepúsculos infindos!
A litteratura góthica, de seu nascimento no fin de siecle XVIII, atravessou as eras como um espectro de nobre estirpe, encontrando no XIX o solo fértil onde cresceu e se fortaleceu. Era a era dos românticos exaltados, das damas de olhar velado pela melancolia, dos heróes consumidos pela fatalidade. Num tempo em que a ciência erguia seus templos, havia ainda espaço para as trevas da alma, para os pântanos do inconsciente onde habitam os monstros e os deuses esquecidos.
A transcendência e o sublime foram as tintas com que os gênios moldaram a sua arte. Mary Shelley, num momento de inspiração assombrada, deu vida à mais terrível das criaturas: um Prometheu moderno, feito de lágrimas e carne morta. Edgar Allan Poe, em sua pena ensanguentada, deixou que a loucura e o terror brotassem como ervas daninhas nas almas inquietas de seus personagens. Emily Brontë, trágica e apaixonada, gravou nos ventos uivantes de Wuthering Heights o canto eterno dos amores condenados.
Mas o góthico do século XIX não foi apenas uma máscara de assombro e perdição. Nele, o horror convivia com a ironia mordaz, a delicadeza da rendilhada estética contrastava com a brutalidade do destino. Nos salões iluminados por lustres dourados, segredavam-se contos de cemiteiros e aparições espectrais. Nos romances de folhetim, entre os suspiros das donzelas e os suspiros ainda mais profundos dos seus opressores, surgia o grotesco, o indecifrado, o sobrenatural.
Oh, que sombrios são os legados deixados pelos poetas do crepúsculo! O que somos nós, senão personagens secundários nos vossos contos? Talvez nós mesmos sejamos sombras, ecos perdidos de uma era que se extinguiu como uma vela ao vento. Quem, senão os romancistas góthicos, compreenderia a angústia de ver o mundo precipitar-se na modernidade, abandonando para trás suas máscaras de bruma e seu perfume de rosas mortas?
Se um dia vos encontrardes, meu leitor, entre os corredores de uma mansão deserta ou ao pé de uma lápide coberta de hera, lembrai-vos dos sussurros que vos chamam. Eles pertencem à noite infinita da litteratura góthica, cujas sombras jamais deixarão de ecoar por entre as ruínas do tempo.
Envolta e rendas negras, sempre vossa
Lady DuLac
(Retrato de Lord Byron1813)