Obra clássica ou presságio?
Lisboa, na bruma do tempo,
ano incerto entre 1888 e 2025
Estimado confidente,
O tempo, esse impostor silencioso, tem o hábito de mascarar-se de progresso quando, na verdade, caminha em círculos. Há noites em que me sento junto à lareira, um volume encadernado de Os Maias pousado sobre a mesa, e pergunto-me: será que Eça de Queirós escreveu sobre o Portugal do século XIX ou terá, por algum sortilégio, espreitado o futuro e transcrito para o papel as caricaturas de 2025?
Que estranha feitiçaria é esta que faz com que os salões decadentes, as intrigas palacianas e os sonhos vazios de uma elite perdida nos ecos das suas próprias palavras permaneçam tão reconhecíveis? Eça, com a sua pena afiada e um olhar mordaz, desenhou um retrato de vaidades ocas, carreiras sem mérito, cultura de fachada e um país eternamente adiado, onde os mesmos nomes e os mesmos vícios atravessam séculos como se de uma linhagem amaldiçoada se tratasse.
Dizei-me, se não continuam as “grandes ideias” a morrer à nascença, sufocadas pelo fumo dos jantares requintados e dos debates estéreis? Não é verdade que o talento continua a ser engolido pelo nepotismo e que as “reformas” não passam de discursos bem ensaiados, sem aplicação real? Carlos da Maia poderia ser um jovem idealista de hoje, prometendo a si mesmo não cair nos erros do passado, apenas para perceber, tarde demais, que a teia da inércia social é mais forte do que qualquer boa intenção.
E quanto a nós, que observamos a história repetir-se como um espelho deformado? Resta-nos, talvez, o consolo de sabermos que a ironia de Eça não foi em vão. Se Portugal tem na sua alma esta melancolia crónica, também tem, no seu génio, o talento para transformar as suas fraquezas em sátira e beleza.
Que Eça nos perdoe por lhe darmos razão, século após século.
Na esperança de que o tempo nos surpreenda um dia,
permaneço vossa,
Lady DuLac

Eça de Queirós