Por entre becos sombrios
Londres, numa noite chuvosa, entre becos sombrios e os ecos da impressão, ano de 1890
Meu caro confidente,
Se alguma vez vagastes por ruas estreitas e mal iluminadas de Whitechapel ou pelas ruelas infestadas de neblina de Fleet Street, talvez vos tenha chegado às mãos um pequeno folheto amarelado, impresso em papel barato, exalando o cheiro metálico da tinta fresca e das histórias macabras. Eram as Penny Dreadfuls, publicações que alimentavam a sede insaciável do público vitoriano por terror, crime e mistério.
Chamavam-lhes “dreadfuls”, pois o seu conteúdo era tão sensacionalista quanto aterrador. Custavam apenas um penny, um preço irrisório para uma viagem ao lado mais sombrio da sociedade. Eram as sombras do folclore e do horror popular, os pesadelos impressos da classe trabalhadora, uma literatura gótica para os que não tinham acesso às grandes obras da época.
Nas páginas desses modestos livretos, Jack, o Saltador, criatura demoníaca que aterrorizava as ruas de Londres, perseguia donzelas indefesas com o seu riso diabólico. Sweeney Todd, o barbeiro assassino, afiava a navalha antes de transformar os seus desafortunados clientes em recheio de tortas duvidosas. Varney, o Vampiro, ancestral literário de Drácula, deslizava nas sombras, com promessas de sedução e morte.
E, contudo, para os olhos altivos da sociedade, estas publicações eram um veneno para a mente, uma degradação da cultura. Hipocrisia, digo-vos! Pois a mesma elite que torcia o nariz a estas histórias era a que, em segredo, devorava os romances de folhetim nos jornais respeitáveis – os mesmos folhetins que tornaram Os Miseráveis, O Conde de Monte Cristo e Os Três Mosqueteiros imortais. O que diferencia um folhetim de um penny dreadful, senão o verniz da aceitação social?
Mas permiti-me saltar adiante no tempo, meu caro. O eco dos Penny Dreadfuls jamais se dissipou – ele renasceu, disfarçado, nas páginas dos romances góticos modernos, no cinema e na televisão. E assim chegamos a “Penny Dreadful”, a série que recuperou o espírito dessa era maldita e nos ofereceu uma nova tapeçaria de terrores e tragédias.
Eva Green, naquela que será para sempre uma das interpretações mais assombrosamente sublimes da televisão, deu vida a Vanessa Ives, uma alma atormentada, devorada pelas forças que não pode controlar, envolta num nevoeiro de sedução e danação. O seu olhar, um abismo onde se escondiam séculos de superstição e dor, fez dela não apenas uma personagem, mas uma sombra vitoriana que parecia ter caminhado diretamente das páginas dos folhetins para o ecrã.
E que dizer do ambiente? O revivalismo gótico do figurino, dos cenários carregados, da luz trémula das velas? Se os Penny Dreadfuls eram os contos proibidos dos becos, esta série elevou-os à condição de arte cinematográfica. O estilo vitoriano renasceu no imaginário popular, tal como na moda contemporânea, onde o negro, o veludo, os espartilhos e os casacos longos voltam a erguer-se como um tributo à estética da perdição.
Vejo agora que a vela se consome lentamente ao meu lado, e temo que, se não encerrar esta missiva, acabe por ser eu própria uma personagem de um penny dreadful. Assim, despeço-me… mas não sem antes perguntar-vos: tendes a certeza de que não há alguém a observar-vos da sombra do vosso quarto?
Na inquietação do crepúsculo e das histórias jamais esquecidas, vossa sempre,
Lady DuLac
