e a (des)educação infantil contemporanea
Château de Fleurville, numa manhã de disciplina e bons costumes, ano de 1856… ou 2025?
Meu caro confidente,
Dizei-me, já vos aconteceu observar uma criança de hoje e perguntar-vos: onde estão os bons modos? Onde está o respeito, a educação, o senso de decoro? Ah, como a Condessa de Ségur se reviraria no seu túmulo ao ver o estado da infância moderna, onde as rédeas da autoridade se dissolveram e os pequenos tiranos reinam livres, amarrando os pais à sua própria impotência!
Sophie Rostopchine, mais conhecida como Condessa de Ségur, não foi apenas uma escritora de livros infantis, mas sim uma verdadeira educadora de gerações. A sua obra, repleta de moralidade, repreensões e castigos justos, ensinava o valor da virtude, da humildade e da obediência.
Onde estão, hoje, essas crianças bem-comportadas, cordatas e atentas ao dever? Onde está o “sim, senhor” e o “não, senhora”, o “com licença” e o “obrigado”? Foram varridos do léxico infantil, substituídos por birras, desobediências e olhares arrogantes que desafiam qualquer tentativa de correção.
🌿 Quando a Educação Não Era um Capricho
Nos tempos da Condessa, uma menina que se atrevesse a falar grosseiramente com um adulto ver-se-ia imediatamente privada dos seus privilégios. Hoje, vêmo-las a comandar os pais como pequenos déspotas, com os olhos colados a dispositivos luminosos e as vontades satisfeitas ao menor sinal de protesto.
A educação “positiva”, que deveria formar seres humanos equilibrados, muitas vezes confunde-se com permissividade. Os pais, temerosos de traumatizar os filhos, tornaram-se reféns de uma infância sem limites.
Mas, se a Condessa voltasse, ah! Que revolução haveria nos berçários, nas escolas e até nas casas mais burguesas! Imagino-a, de bastão em punho (simbólico, é claro), erguendo a sua voz autoritária para proclamar:
“Uma criança que não aprende a obediência tornar-se-á um adulto que desconhece o dever!”
📚 Os Livros da Condessa: Uma Disciplina Perdida?
Os seus livros – “As Meninas Exemplares”, “Memórias de um Burro”, “Os Desastres de Sofia” – eram guias para a moralidade infantil. Meninas caprichosas eram castigadas, meninos insolentes aprendiam duras lições, e os bons recebiam recompensas justas.
E hoje? Onde está a noção de consequência?
Um erro corrigia-se com um castigo proporcional. Hoje, corrigir é considerado repressivo.
A desobediência era um erro a ser corrigido. Hoje, é interpretada como uma “expressão natural” da criança.
A criança aprendia desde cedo que a vida não é um mar de rosas. Hoje, protege-se cada capricho como se fosse cristal frágil.
Deveria a Condessa de Ségur regressar?****
Talvez. Talvez necessitemos de alguém que recorde às mães e aos pais que ser amoroso não significa ser permissivo. Que educar é também frustrar, que um “não” ensina mais do que mil “sim”, e que os valores da paciência, do respeito e da responsabilidade não são relíquias de um tempo ultrapassado.
Ou talvez seja tarde demais. Talvez a pequena Sofia, com os seus desastres e travessuras, se tivesse hoje tornado numa estrela das redes sociais, sendo aplaudida pela sua “personalidade forte”. Talvez os meninos exemplares tivessem sido acusados de ser “oprimidos” pela moralidade antiga.
O que me leva à pergunta final, caro confidente: se a Condessa de Ségur voltasse, teria leitores? Ou seria cancelada?
Na esperança de que o bom senso não tenha perecido, vossa sempre,
Lady DuLac
