Àquela que, coroada de alvor e destino, comanda os destinos d’um mundo em mutação — Vossa Majestade, a Rainha Victoria, recebei esta humilde carta, nascida entre sonhos, coelhos e espelhos…
Castelo de Whitby, sob a luz pálida da vela
Ano da Imaginação Desenfreada
A Sua Augusta Majestade, a Sereníssima Rainha Victoria,
Soberana dos ventos e guardiã dos dias do Império, humildemente envio estas linhas perfumadas de espanto e maravilha…
Que Vossa Majestade me perdoe o atrevimento de verter nestas linhas os meus humildes pensamentos sobre uma obra que tem sido, para mim e certamente para Vossa Regente Figura, um deleite sem par. Refiro-me, claro, ao extraordinário Alice’s Adventures in Wonderland, do reverendo Charles Lutwidge Dodgson, que a sociedade conhece pelo nome literário de Lewis Carroll.
Majestade, a leitura deste pequeno tomo transporta-nos para além das fronteiras do racional, onde a lógica tropeça sobre si mesma e a fantasia se torna mais real que o próprio mundo. Quem, senão um matemático com alma de poeta, poderia conceber um universo onde a razão é moldável como um baralho de cartas? O seu jogo de palavras, os trocadilhos que desafiam até o mais lúcido dos pensadores, e a criação de personagens cuja excentricidade é, paradoxalmente, a sua mais convincente veracidade, fazem deste livro um verdadeiro prodígio da literatura contemporânea.
Confesso-me fascinada pelo Chapeleiro Louco, cujo espírito errante me recorda tantos cavalheiros que povoam os salões da alta sociedade—absurdamente eloquentes, deliciosamente incoerentes. A Rainha de Copas, por sua vez, tem algo do temperamento impetuoso que por vezes vejo espelhado nas figuras de poder (muito longe, evidentemente, de Vossa Majestade, que governa com equilíbrio e prudência). Quanto a Alice, essa pequena visionária, ela representa a criança que existe dentro de cada um de nós, perdida entre as regras do mundo adulto e a necessidade de se agarrar à sua própria essência.
A promessa de um segundo volume, que nos levará para Through the Looking-Glass, and What Alice Found There, enche-me de expectativa! Imaginar que, para além do espelho, existe um mundo inverso, onde cada movimento e pensamento se refletem de forma inesperada, é uma ideia que apenas Carroll poderia conceber. E mais: temo e anseio pelo momento em que reencontraremos personagens já queridas e conheceremos novas criaturas saídas desse labirinto da imaginação.
Dir-me-á Vossa Majestade que este livro não é senão um devaneio pueril? Mas o que seria de nós, almas adultas e calculistas, sem o sonho? Sem a fantasia que nos permite rir da rigidez das nossas próprias regras? Alice no País das Maravilhas não é apenas um livro para crianças—é uma chave para as mentes que se recusam a ser acorrentadas pela lógica fria e pelo pragmatismo vazio.
Por isso, minha Rainha, espero que também Vossa Majestade aguarde este segundo volume com a mesma impaciência elegante com que eu o faço. Que ele nos traga novas verdades escondidas sob o véu do absurdo, novos enigmas para decifrar e, acima de tudo, novos motivos para nos perdermos e reencontrarmos nos salões da fantasia.
Com a mais profunda devoção e os mais rendidos respeitos,
aos pés do trono onde o tempo curva a fronte,
Eternamente, Sua Criada e Vassala,
Lady DuLac
